185. Um texto à moda antiga

Ideias não faltam.

O texto abaixo é mais uma brincadeira ou exercício de estylo, mas contém algumas verdades.

* * *

Por que ceder a outra reforma orthográphica? A simplificação da orthographia não é solução para melhora do apprendizado, como alardeiam alguns. Línguas de cultura não mexem com suas graphias há séculos. Basta ver o caso do francês, do italiano. Qual a última reforma orthográphica emprehendida pelos institutos dessas línguas? Datam de muito, muito tempo.

Uma língua que se quer respeitável tem de manter seus padrões de escripta para que a cultura das gerações passadas possa ser comprehensível aos que vêm depois. Querer ou almejar que a graphia accompanhe a língua falada é facto que se precipita no abysmo da pura sandice. E não duvido que haja ahi gente cuja intenção seja exactamente essa: precipitar toda a cultura e a sciência pelo ralo de um relativismo barato.

Uma graphia de origem etymológica garantiria uma correlação mais rápida entre os vários elementos mórphicos da língua e sua assimilação no apprendizado, inversamente ao que pontificam os pretensos estudiosos da linguagem.

Certamente, um poncto a favor tem de ser dado às regras de accentuação gráphica, que são dotadas de grande coherência.

Será que teremos de fazer como Monteiro Lobato? Ou seja, frente à desordem reinante, adoptar uma graphia mais coherente por nós mesmos? Certo que qualquer iniciativa nesse sentido dará com os burros n’água, uma vez que somos um povo que despreza a cultura e suas manifestações, substituindo-a por manifestações espontâneas, de carácter excessivamente populares, em nome da mal velada acídia. Simplesmente pela falta geral de sciência -ou de pura vergonha na cara-, fazemos refém toda uma communidade de falantes? Questões como a adopção de um tractado de ortographia deveriam (nestes nossos tempos tão democráticos!) passar pelo crivo da consulta. Referendo, plebiscito. Preocupamo-nos com questões nìtidamente menores como desarmamento e outras mesquinharias.

Menos auctoridade aïnda tem a propalada Academia Brasileira de Letras. É a velha estória: quanto mais gente há para regular algo, das duas, uma: ou está absolutamente fora de controle ou simplesmente não tem solução.

É tempo de pensar exactamente qual marca queremos deixar: o que será a cultura para as gerações vindouras? Seremos marcados por um nihilismo absurdo e -Deus queira!- desprezados pelas novas gerações. Que poderão os vindouros aponctar em nós que poderá valher-lhes de algo?

Mesmo o nosso systema pretensamente phonético comporta algumas incongruências. Por exemplo:

1) o dígrapho ‘sc’, como era presente em ‘sciência’, reduziu-se a ‘c’ apenas, resultando em palavras como ‘ciência’. Por que o mesmo conjuncto é mantido quando apparece no meio dos vocábulos? Como em ‘consciência’? Por que não se adoptou a solução orthográfica do castelhano então, que simplesmente escreve ‘conciencia’?

2) as terminações pluraes em -ães, -ões, por que não foram reduzidas a -ãis e -õis, respectivamente? Parece-me que Portugal, durante algum tempo assim o fez. E isso enquanto as terminações de palavras como ‘plural, plurais’ passaram a ser escriptas com ‘-i-‘ em vez de um mais coherente ‘pluraes’.

As reducções das vogaes duplas em simples também traz alguns transtornos. Era mais fácil ver a diferença etymológica entre o verbo ‘callar’ e de ‘intercalar’. A graphia comportava taes diferenciações. A língua não ficou mais simples após taes alterações: ficou nìtidamente mais pobre, muito mais pobre. Perdeu-se a distincção etymológica que carregava nos seus vocábulos.

Uma distincção interessante criada pelo accordo de 1943 e abolida em 1971 -vejam a fugacidade das reformas!- é a questão do accento secundário nas palavras derivadas. Com elle, sabia-se exactamente de qual palavra originava-se aquella. Valia a regra para, por exemplo, advérbios formados de um substantivo acrescido do suffixo ‘-mente’: ou seja, de ‘intrínseco’, formava-se ‘intrìnsecamente’, com acento grave; ou em substantivos derivados: ‘cafèzinho’, de ‘café’.

O ‘ph’ sempre tão enxovalhado… servia para que se pudesse identificar palavras oriündas do grego: o ‘f’ em ‘facto’ é uma cousa; o ‘ph’ de ‘phýsica’ ou de ‘photographia’ é outra. Mesmo caso o ‘ch’ de ‘máchina’ ou de ‘chímica’, indicavam o étymo grego dessas tão imprescindíveis palavras.

O trema é outra perda consistente. Não apenas os casos aïnda perdidos recentemente, que distinguiam a pronúncia de ‘u’ nos dígraphos ‘que’ e ‘gue’, mas também a simples separação de vogaes como em ‘reünião’, ‘reünir’, para que não fosse pronunciadas como simples diphtongos, se bem que esse último uso reservava-se mais à linguagem poética.

Reformas orthográphicas, infelizmente, são characterizadas sempre por perdas irreparáveis e empobrecimento. O busílis da questão é que se tenha sempre uma visão utilitarista da língua, como se ella fosse uma chave-de-roda ou uma torneira.

* * *

Figura retirada de http://heavensinki.blogspot.com/.

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2 Comentários

  1. Brasileiro

     /  17/03/2015

    Pode parecer bizarro essa pergunta, mas como você conseguiu escrever usando essa ortografia (anterior a 1911?)?
    Achei muito bonito.

    Responder
  2. Abel Pedro

     /  14/07/2017

    Óptimo texto! Permita-me umas possíveis leves correcções, que eu acredito precisar, mas não tenho certeza absoluta, por exemplo, “cháracter” ao invés de “cáracter”, “et” ao invés de “e”. Outro ponto, a orthographia original facilitaria o entendimento d’outras línguas e delles à nossa. Et tendo uma orthographia a necessidade de várias reformas demonstra que o nosso idioma está sempre falho, sem consistência, et conseqüentemente que somos um povo instável.

    Responder

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