184. Reis e heróis

Francisco Adolfo de Varnhagen

Os reis são como os heróis. Se sabemos muito de seus defeitos ou se eles são excessivamente parecidos conosco, deixam de fazer referência a algo mais elevado, tornando-se, portanto, desnecesários. Disso me lembrei por dois motivos: sobre um polêmico filme lançado na Turquia há algum tempo sobre Mustafá Kemâl Atatürk, um herói, por assim dizer; e também por conta do recente casamento do Principe William e da plebeia Catherine Middelton.

Os reis têm um estatuto diferenciado numa sociedade monárquica. Parte-se do pressuposto que ele é melhor do que o resto do povo para poder reinar. Várias casas europeias caíram nesse golpe de republicanizar suas famílias. Tão-logo tornem-se somente outra família britânica, o que lhes garantirá o direito ao reino? Certamente que tais uniões são louvadas, principalmente pelos republicanos que têm interesse na queda da monarquia.

Tendo esse curto raciocínio em mente, deixo aqui o trecho que uma peça de teatro escrita por Francisco Adolfo de Varnhagem, intitulada Amador Bueno, ou a Coroa do Brasil em 1641, publicada em 1858. A peça narra rapidamente a tentativa de aclamar Amador Bueno da Ribeira como rei de São Paulo, separando a capitania do reino de Portugal, que se libertava de Castela com a aclamação do Duque de Bragança como Dom João IV; a interpretação do feito difere de autor para autor. Varnhagem, como Aureliano Leite em 1938, creditam aos ardis espanhóis, cuja motivação seria, em realidade, a anexação das terras paulistas à Coroa de Castela. Alfredo Ellis Jr.; para esses dois autores, a negativa de Amador à aclamação é positiva no sentido de preservação da unidade dos territórios americanos casa de Bragança e pela unidade do futuro Brasil. Ellis Jr. nega o status de herói a Amador, considerando um pusilânime e indigno da Coroa que lhe ofertaram.

Independente das ideologias, Amador nega a Coroa que lhe fora oferecida pelo senatus et popolusque paulistarum.

Em sua peça, Varnhagem coloca na boca de Amador uma curiosa passagem sobre os valores monárquicos. Não se pode esquecer também que a peça vem dedicada à S. M. I. o Imperador Dom Pedro II, igualmente da casa de Bragança, como seu antepassado, Dom João IV, rei de Portugal. Trata-se de um triplo elogio: (1) à pessoa do Imperador reinante, por meio da dedicatória e da citação da casa, (2) à abnegação de Amador Bueno, fiel vassalo dos Bragança e (3) à própria instituição monárquica.

Por fim, o trecho:

Sim, mas no fim das contas, a coroa na minha cabeça não poderia dar a paz e a felicidade! Um trono há mister bases sólidas sobre que assente, e uma coroa só pode servir na cabeça que já para ela nasceu formada. Os reis são na terra uma família à parte de nós; reinam não só pelo esplendor que herdaram de seus maiores, mas também pelo da sua família, —dos mais reis, que todos eles se protegem como parentes que são entre si… E são invioláveis e sagrados por Deus! Estão acima de todos os partidos; pairam noutra atmosfera mais livre de ambições e de paixões más do que a nossa, e não se podem criar ficando os seus parentes peões […] Não nos é dado a nós igualar o que Deus desigualou. Poderiam jamais quaisquer leis terrestres igualar o tigre à inofensiva cotia? Ou a rolinha que geme ao milhafre que a arrebata? […] Que proclame a igualdade na terra a cobra cascavel para mais à vontade administrar a sua peçonha, […].

VARNHAGEN, Amador Bueno ou A coroa do Brasil em 1641, p.14. Imprenta del Atlas: Madri, 1858

 

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