183. “Honi soit qui mal y pense”, ou Algumas considerações sobre a moral

Passando os olhos pela página dos editoriais da “Folha de São Paulo” de 29 de abril, um deles chamou-me a atenção: o intitulado Para além da carruagem, de Eliane Catanhêde.

Chamou-me a atenção por estar destoando da página: quase todos os outros estão versando sobre temas de política interna e outros assuntos relevantes. O de Catanhêde tem um estranho tom de raiva babosa, dos cães acometidos por hidrofobia que atacam qualquer coisa.

A jornalista resolveu escrever sobre o casamento que ocorreria na Família Real inglesa, naquele mesmo dia. Plausível, afinal, a mídia tem dado muita atenção ao fato. Porém, por mais que se leia o texto, não é possível atinar aonde ela quis chegar.

Faz uma confusão tremenda entre realidade e conto de fadas, chama o regime britânico de “obsoleto e incompreensível que mantém [sob seu cetro, creio] até hoje quinze outros estados independentes, como os democráticos e contemporâneos Canadá, Austrália e Nova Zelândia”. Compara a monarquia britânica com a China; acha que “o Reino Unido desafia o mundo com sua sólida democracia e uma monarquia extratemporânea”.

O que Eliane Catanhêde não deve saber, em sua “modestíssima opinião” é que o Reino Unido é o berço da democracia ocidental moderna e esse processo ocorreu por meio da pessoa do monarca. Também lhe deve fugir à percepção que cada país adota – ou mantém – o regime que lhe é mais conveniente. Sabe-se muito bem que os índices de aprovação da monarquia britânica são altos; mesmo na longínqua Austrália, um referendo em 1999 deu a vitória à monarquia e as pesquisas davam como certa a vitória da república e o fim do último laço com Londres.

A monarquia britânica, assim como todos os regimes monárquicos europeus ainda vigentes, é de base parlamentar, ou seja, o poder efetivo é exercido pelo Parlamento eleito e pelo Primeiro-Ministro. Aí entra a questão que levanta a sra. Catanhêde: para que então um monarca?

A nós, como brasileiros, povo da latinidade dispersa, parece-nos absurdo termos um rei. Concordo. Um rei – ou imperador, como outrora – governando sobre o Brasil seria inviável, porque a um rei, respeita-se como a um pai e, nós, mal-educados e mal-agradecidos como somos, cuspiríamos na cara desse rei e o esculhambaríamos nos nossos péssimos humorísticos televisivos.

Temos a ideia pseudodemocrática da absoluta igualdade e não reconhecemos os méritos naturais – ou adquiridos – das pessoas. Basta ver que somos um povo que troça do conhecimento, espezinha a cultura e deixou que as suas escolas fossem demolidas. U’a monarquia comporta a ideia de que um rei, mesmo num regime parlamentar, é a reserva moral do povo sob seu cetro. Como um povo sem moral – ou que se crê sobre ela – pode aceitar um monarca ou mesmo a ideia de um monarca?

Voltando ao caso da monarquia britânica. A Rainha não tem poder algum a não ser o moral. Quando fala, quando vem à televisão, ou na abertura anual do Parlamento, na mensagem anual de Natal a seus súditos: as pessoas, seu povo, a ouve, como quem ouve a um parente mais velho, amado e respeitado. Afinal, o rex (regina no caso) é quem tem a regula, a medida, o juízo.

Catanhêde chama o regime britânico de obsoleto. Amante como deve ser dos nossos tempos tão modernos, ela não suporta as tradições e as descarta em nome de uma duvidosa modernidade. A Inglaterra tornou-se um país unificado em 927; desse ano até hoje, somente entre 1653 e 1660 houve um regime republicano de cunho aristocrático, comandado por Oliver Cromwell. O seu Commonwealth (“bem comum”, ou respublica), ao que parece, não deixou saudosistas.

Sob a coroa das várias dinastias que se sucederam, a Inglaterra foi um dos primeiros estados no mundo a dispor de um corpo parlamentar similar aos parlamentos modernos, uniu os outros reinos da ilha sob seu domínio político, tornou-se uma potência naval e colonial, guerreou contra a Alemanha em duas ocasiões e saiu vitoriosa e orgulhosa dessa batalhas.

Principalmente nas duas guerras mundiais, foi vital a união do monarca com o seu povo; o Rei vinha aos balcões do Plácio discursar e animar o povo e a esperança do povo fomentava também a dos monarcas. Novamente aí vemos que não basta democracia e meios financeiros: moral e orgulho também o são.

Engana-se também em ver pura subserviência: o monarca representa e pertence ao povo e não o contrário. A máxima de Sêneca está na mente e na língua dos britânicos: “Rex probavit non rempublicam suam esse, sed se reipublicae” (ou seja O rei comprovou que o país não lhe pertencia, e sim que ele pertencia ao país”).

Que seja obsoleta a Monarquia britânica como quer a jornalista da Folha. Mal-e-mal, tem mais de mil anos. Entende-se que um regime de mil anos possa tornar-se obsoleto: seria inclusive justo. Porém, é inexplicável que uma república de pouco mais de cento e vinte anos tenha se tornado não apenas obsoleta, mas também inoperante, com suas entranhas roídas pelos mais desprezíveis vícios.

Como explicar que uma república democrática, renascida há pouco mais de vinte anos de um regime republicano autoritário, já possa estar em grau tão avançado de putrefação? Com suas instituições laicas e republicanas já tão desgastadas e tão… sem moral. Qual a moral que inspira o Presidente da República? O Supremo Tribunal Federal? Muito pouca ou nenhuma, possivelmente.

O rei é quem tem a regra. O presidente é apenas aquele que se senta à frente. Um presidente que é eleito, que não foi educado desde sempre para ocupar aquele cargo, acaba por não ter um compromisso real com a coisa pública. Para ele, é apenas mais uma demonstração de poder, de como ele pode exercer de poder e fazer brotar das urnas os votos que lhe garantirão o cargo.

Eu diria mais: numa monarquia, unicamente o povo tem direito de vida e morte sobre um rei.

No Brasil, o poder é exercido por arrivistas e alpinistas sócio-políticos. Aí está a grande diferença entre nós e os outros. Como ver um poder moral em alguém que não o emana ou sequer sabe o que é isso?

A democracia veio com um estranho conceito de dessacralização da república, do Estado. Como fazê-la válido aos olhos do povo? Apenas com leis, não é possível. A democracia pura e simples, como provavelmente pensa Eliane Catanhêde não é possível. A um povo que não se respeita, como criar-lhe um governo, como tornar-se válido? Não há muitos meios…

Creio que após o comovente editorial da Folha, os britânicos enforcarão a Rainha e colocarão num navio todos os membros da Família Real, afinal, que insensatez manter uma monarquia e somente agora, com essa luz, eles puderam ver quanto mal as cabeças coroadas lhes faziam.

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