187. Intermitências urbanas

Fotografia das Regiões Metropolitanas de São Paulo e da Baixada Santista tirada pelo Landsat-5 em abril de 2010 (fonte: pt.wikipedia)

Não se trata de Roma, Paris ou qualquer outro lugar eternizado pela literatura. São apenas ruas comuns dum país que não teve ainda tempo suficiente para dedicar-se às belas letras – e pode ser mesmo que o tempo tenha já passado.

Há sim, bem ou mal, alguns lugares consagrados: a praia de Copacabana, a Praça da Sé, a avenida Paulista. Mas o que significa a igreja Matriz de uma cidade do interior? Ainda mais que já foi refeita três ou quatro vezes, ao gosto da época e do progresso rolo-compressor…

Ruas que não devem ter vinte anos, em que tudo parece de uma precariedade assustadora. Seixos emergem do asfalto, calçadas com seus segmentos estraçalhados por um mato grosso que insiste em nascer. Terrenos vazios, gigantescos terrenos vazios. O vento da tarde de outono tirando longas e plangentes notas das arestas das casas.

As áreas extremas das cidades têm esse aspecto; se não são delimitadas bruscamente por largas rodovias que ligam pontos distantes, elas vão lentamente transmutando-se, passando de urbanas a rurais devagar, até que, como quem pede desculpas por uma falha, o último segmento de rua de terra batida morre num descampado.

Agora, o ritmo de crescimento das cidades é bem mais lento do que era há trinta ou quarenta anos; possivelmente essas transições ainda existirão tal como são por um certo tempo. Lembro-me de um trecho do Juó Bananère sobre a rapidez das construções na cidade de São Paulo:

S’immagine che a genti vá pigá un girio disposa du giantáro e quano xiga inda a rua da Gonçolaçó tenía lá un tirreno tutto xiigno co gapino. Intó a genti vai alí p’ra dianti invisitá uno amighe e quano già vurtó, spia p’ro tirreno, nisciuno, ma inveiz stá faziada lá una bunita casa maise bunita da casa do Capitó. (1)

Também nas cidades do interior, por conta da industrialização, sentiu-se o mesmo movimento imobiliário. Vilas que eram dobras do nada, em quarenta ou cinquenta anos tornaram-se centros regionais de peso. Bairros novos surgiram dos pastos e das matas para abrigar a população que crescia.

É curioso que dentro do tecido de algumas cidades interioranas, apesar do adensamento, conservaram-se terrenos sem uso e esse ar de transição; ou que bairros surjam relativamente isolados da área urbana, com quebra da continuidade e que, para se deslocar desses ao núcleo do município, é necessário passar por trajetos curtos de verdadeiras estradas vicinais, muito embora essas já ostentem alguma denominação de rua ou mesmo avenida, traindo a percepção que temos.

 * * *

(1) trecho do texto de Juó Bananére, alcunha literária de Alexandre Ribeiro Marcondes, publicado n’O Pirralho nº 37, de 20/04/1912. Versão estabelecida na antologia constante em Juó Bananere – Irrisor, irrisório, de Carlos Eduardo S. Capela, Edusp/Nankin Editorial, 2009, p. 189.

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186. A cidade de cada um

Avenida Tiradentes nos anos 20. Foto: Prefeitura de São Paulo.

“Ninguém deixa sua pátria por turismo definitivo”, disse eu, certa vez, a uma pessoa que se pavoneava de ser oriundi. É lógico e certo ter orgulho de suas origens, seja ela qual for, mas, às vezes, algumas pessoas chegam à pieguice e a uma ideia de “superioridade” que não condiz com a condição inicial de seus antepassados.

Qual paulista pode-se dizer filho da terra, legitimamente? Por direito sanguíneo, muitos poucos. Somos, em grande parte, provenientes de uma imigração recente – o que são meros cento e trinta quarenta anos na história da Humanidade – que encontrou aqui condições não lá muito salutares de convívio com os velhos paulistas. Alcântara Machado mostra-nos isso numa ficção totalmente lastreada na realidade de então.

Nossos maiores não vieram fazer turismo. Ninguém escolhe largar sua terra, sua língua, um lugar que lhe é culturalmente amigável pelas plagas potencialmente hostis do Novo Mundo. É decisão que muito pesou na mente dos nossos avós e que foi alimentada pelas chicotadas da fome e da exclusão social. O imigrante, em seu novo meio, é sempre um deslocado.

Em São Paulo, tanto na cidade como no Estado, os italianos conseguiram estabilizar-se bem. Eram tantos e tão grande número, que terminaram por influenciar definitivamente a paisagem e a economia de uma terra que acordava para seu potencial econômico, primeiro com o café e, depois, com a industrialização. Não me lembro bem quando e nem onde, vi uma estatística que, em algum período dos anos 20, os italianos eram cerca de 80% da população da cidade de São Paulo.

Seus filhos não eram mais italianos. Produziu-se uma rápida mescla: os pais dificilmente transmitiam a língua materna – alguma língua da península que não o italiano – e os filhos viam-se como brasileiros. Por isso a aquisição de nacionalidade por jus sanguinis, como há em alguns países como a Alemanha, por exemplo, soa-nos tão estranha. Filhos de italianos, não importava: nascidos em território nacional, eram brasileiros.

Mesmo esses imigrantes, vindos na esteira de condições precárias da Itália e outros pontos da Europa, logo viam os filhos crescerem e quando percebiam, tinham passado mais da metade da sua vida aqui. Tornavam-se brasileiros não por documentos, mas por hábito.

 * * *

Penso na vida dessas pessoas: largando o pouco que tinham – leia-se aqui tradições e línguas, pois, quase sempre, o imigrante vinha sem nada – em troca de novidades de difícil digestão. Entre alguma nostalgia e o hábito do novo, tornaram-se mais brasileiros do que qualquer outra coisa.

Do mesmo modo, mas em escala menor, é alguém que troca mesmo de cidade. Na verdade, a pátria do homem é a cidade, é a pólis – isso sabiam bem os gregos antigos, unidos pela língua e pela cultura, mas politicamente cada um na sua cidade. A cidade é a verdadeira pátria do homem: a cidade e seu termo, ou seja, seus distritos rurais, mas ligados a um centro urbano.

O homem sabe muito – ou deveria saber – sobre sua pátria pequena: as ruas do centro, as praças; onde ficava a forca ou o pelourinho, as primeiras igrejas levantadas com o suor dos seus maiores. E aqui, seus maiores não são exatamente aqueles que o são por jus sanguinis: fazer parte de uma cidade é ter por maiores seus fundadores e seus primeiros habitantes. Se somos descendente dos imigrantes, somos descendentes da gente que veio depois, mas também nos filiamos a essa tradição mais antiga. Temos direito e dever ao jus territorialis, assim como a nacionalidade de papel.

Quando um homem se muda da sua cidade, há todo um processo de adaptação, não tão dolorido como mudar de pátria, mas também lento e conturbado. Vejamos o exemplo paulista: alguém pode ser da Capital do Estado – e as metrópoles têm um processo mais complicado de pertencimento – e ter de ou querer mudar para uma cidade do interior.

A pátria paulistana marca-se, ao meu ver, pela fragmentação, os inúmeros bairros, mas também pela onipresença de certos locais simbólicos que mantém uma identidade unitária, como, por exemplo o Centro Velho – seja por identidade histórica ou mera questão de passagem diária – ou a avenida Paulista – quantos não usam a avenida para passear, distrair-se? Quer ver um flâneur paulistano? Basta ir à Paulista.

Vamos para o ponto mais histórico do argumento. Vejamos o centro. Durante muito tempo certo político e econômico do Estado. Hoje um pouco relegado a papéis secundários por conta da própria inaptidão de prédios antigos e ruas estreitas às atividades da nova economia. Os prédios mudaram muito, certamente. Basta lembra-se das primeiras fotografias da cidade, produzidas por Militão: São Paulo era uma vila colonial, quase como as cidades históricas de Minas Gerais. Mas as ruas são as mesmas.

Alguém que veja São Paulo como sua pátria pequena e tenha essa consciência, esperará um ônibus no Parque Dom Pedro II e lembrar-se-á, ou por ditos ou por memória iconográfica, que ali existia um grande pântano onde o Tamanduateí fazia volteios e meandros e que a retificação de seu canal e seu exílio para o lado oriental da várzea não é natural. Ou que ao fim da ladeira Porto Geral havia um minúsculo porto, porto de canoas, que servia ao rio que ali passou um dia, hoje, o mar de gente da rua 25 de março.

A Basílica de São Bento não é mais a mesma do final do século XVI, que foi derrubada para dar lugar ao atual e elegante templo, mas se sabe que naquele espaço, delimitado por outras paredes, escondeu-se Amador Bueno da Ribeira do povo que queria aclamá-lo rei à força.

Mesmo o prédio do Colégio, reconstruído talvez como fora em sua fundação. Qual paulistano de verdade, nato ou por adoção, não se sente estremecer diante daquele fêmur do padre Anchieta que lá está? O padre canarino, de pais bascos que, junto com Antônio da Nóbrega, fundou aquele mesmo colégio, um pedaço dele repousa ali, como verdadeira relíquia.

Isso para não citar outros lugares, outros templos com ainda mais partes do nosso passado. Até mesmo lugares esquecidos como a igreja com Cambuci, metralhada durante a revolução de 1924; essa mesma revolução que forçou o então Presidente Carlos de Campos a fugir do Palácio dos Campos Elíseos – então sede do Governo Estadual – de trem, para a estação Guaiaúna, na baixada da Penha. Estação que foi derrubada, reconstruída – e ostentou o nome do velho dignatário até sua desativação, em 2000.

Cada parte de uma cidade, por quem a adota ou a ela pertence, traz à mente esse tipo de detalhe tão caro.

 * * *

Quando alguém deixa a sua cidade, já com caráter e ideias formadas, a adaptação é um pouco traumática. Parece que, por exemplo, uma rua foi sempre daquele jeito, para acomodar aquelas lojas. Ou pior: aquela rua simplesmente é. Ela estava ali ontem? Não se sabe. É como se o emigrado ou trânsfuga passeasse por uma cidade cenográfica. Não sabe mais onde estão aqueles pontos de apoio que, de certa maneira, dava sentido a toda visão da pátria perdida.

Logo vêm as tentativas de algum nexo: informar-se, procurar informações. Mas o processo sempre será falho. Os maiores de cá tem nomes diferentes e até, pode-se dizer, soam vulgares frente aos vultos perdidos, que se afundaram centenas de quilômetros atrás. As praças, as ruas, os edifícios art déco ou de um neoclassismo temporão e molenga parecem desprovidos de sentido, como se fossem de isopor e fossem desabar à primeira chuva. Tudo dota-se de uma artificialidade quase insuportável.

Os nomes das ruas embaralham-se. Certo que em uma esmagadora parte das cidades brasileiras – não arrisco a dizer todas – há a rua Sete de Setembro, uma Dom Pedro II, uma Quinze de Novembro e que em quase todas as cidades paulistas há uma Nove de Julho, uma Regente Feijó, uma Pedro de Toledo, mas se cruzam em desordem, ou não se cruzam, ou passam muito longe da vizinhança com que estávamos acostumados a ligar aqueles nomes: um nome puxa o outro e, para quem muda de cidade, certamente, isso deixa de fazer sentido: um sentimento funâmbulo entre a maravilha da novidade combinatória e o desgosto das quebras dos paradigmas ou previsões.

Cada esquina dobrada, mesmo que já se tenha passado ali dez vezes, parece sempre nova, porque a forma das casas, dos prédios, das placas, não se fixam na retina. É como se cada vez que se passasse ali, as coisas tenham sido remontadas às pressas e algo sempre falta ou sempre sobra.

A vida do imigrante ou qualquer outro nome que se lhe dê é assim: uma pessoa que conhece o nome das ruas, mas não consegue resolver os trajetos, e a confusão com a pátria acaba por infiltrar-se na vida menos sensível, nos pequenos hábitos, no equilíbrio emocional: o nervosismo ou a apatia sem motivo. É a sensação de quem sente o espaço fugir ao seu controle.

185. Um texto à moda antiga

Ideias não faltam.

O texto abaixo é mais uma brincadeira ou exercício de estylo, mas contém algumas verdades.

* * *

Por que ceder a outra reforma orthográphica? A simplificação da orthographia não é solução para melhora do apprendizado, como alardeiam alguns. Línguas de cultura não mexem com suas graphias há séculos. Basta ver o caso do francês, do italiano. Qual a última reforma orthográphica emprehendida pelos institutos dessas línguas? Datam de muito, muito tempo.

Uma língua que se quer respeitável tem de manter seus padrões de escripta para que a cultura das gerações passadas possa ser comprehensível aos que vêm depois. Querer ou almejar que a graphia accompanhe a língua falada é facto que se precipita no abysmo da pura sandice. E não duvido que haja ahi gente cuja intenção seja exactamente essa: precipitar toda a cultura e a sciência pelo ralo de um relativismo barato.

Uma graphia de origem etymológica garantiria uma correlação mais rápida entre os vários elementos mórphicos da língua e sua assimilação no apprendizado, inversamente ao que pontificam os pretensos estudiosos da linguagem.

Certamente, um poncto a favor tem de ser dado às regras de accentuação gráphica, que são dotadas de grande coherência.

Será que teremos de fazer como Monteiro Lobato? Ou seja, frente à desordem reinante, adoptar uma graphia mais coherente por nós mesmos? Certo que qualquer iniciativa nesse sentido dará com os burros n’água, uma vez que somos um povo que despreza a cultura e suas manifestações, substituindo-a por manifestações espontâneas, de carácter excessivamente populares, em nome da mal velada acídia. Simplesmente pela falta geral de sciência -ou de pura vergonha na cara-, fazemos refém toda uma communidade de falantes? Questões como a adopção de um tractado de ortographia deveriam (nestes nossos tempos tão democráticos!) passar pelo crivo da consulta. Referendo, plebiscito. Preocupamo-nos com questões nìtidamente menores como desarmamento e outras mesquinharias.

Menos auctoridade aïnda tem a propalada Academia Brasileira de Letras. É a velha estória: quanto mais gente há para regular algo, das duas, uma: ou está absolutamente fora de controle ou simplesmente não tem solução.

É tempo de pensar exactamente qual marca queremos deixar: o que será a cultura para as gerações vindouras? Seremos marcados por um nihilismo absurdo e -Deus queira!- desprezados pelas novas gerações. Que poderão os vindouros aponctar em nós que poderá valher-lhes de algo?

Mesmo o nosso systema pretensamente phonético comporta algumas incongruências. Por exemplo:

1) o dígrapho ‘sc’, como era presente em ‘sciência’, reduziu-se a ‘c’ apenas, resultando em palavras como ‘ciência’. Por que o mesmo conjuncto é mantido quando apparece no meio dos vocábulos? Como em ‘consciência’? Por que não se adoptou a solução orthográfica do castelhano então, que simplesmente escreve ‘conciencia’?

2) as terminações pluraes em -ães, -ões, por que não foram reduzidas a -ãis e -õis, respectivamente? Parece-me que Portugal, durante algum tempo assim o fez. E isso enquanto as terminações de palavras como ‘plural, plurais’ passaram a ser escriptas com ‘-i-‘ em vez de um mais coherente ‘pluraes’.

As reducções das vogaes duplas em simples também traz alguns transtornos. Era mais fácil ver a diferença etymológica entre o verbo ‘callar’ e de ‘intercalar’. A graphia comportava taes diferenciações. A língua não ficou mais simples após taes alterações: ficou nìtidamente mais pobre, muito mais pobre. Perdeu-se a distincção etymológica que carregava nos seus vocábulos.

Uma distincção interessante criada pelo accordo de 1943 e abolida em 1971 -vejam a fugacidade das reformas!- é a questão do accento secundário nas palavras derivadas. Com elle, sabia-se exactamente de qual palavra originava-se aquella. Valia a regra para, por exemplo, advérbios formados de um substantivo acrescido do suffixo ‘-mente’: ou seja, de ‘intrínseco’, formava-se ‘intrìnsecamente’, com acento grave; ou em substantivos derivados: ‘cafèzinho’, de ‘café’.

O ‘ph’ sempre tão enxovalhado… servia para que se pudesse identificar palavras oriündas do grego: o ‘f’ em ‘facto’ é uma cousa; o ‘ph’ de ‘phýsica’ ou de ‘photographia’ é outra. Mesmo caso o ‘ch’ de ‘máchina’ ou de ‘chímica’, indicavam o étymo grego dessas tão imprescindíveis palavras.

O trema é outra perda consistente. Não apenas os casos aïnda perdidos recentemente, que distinguiam a pronúncia de ‘u’ nos dígraphos ‘que’ e ‘gue’, mas também a simples separação de vogaes como em ‘reünião’, ‘reünir’, para que não fosse pronunciadas como simples diphtongos, se bem que esse último uso reservava-se mais à linguagem poética.

Reformas orthográphicas, infelizmente, são characterizadas sempre por perdas irreparáveis e empobrecimento. O busílis da questão é que se tenha sempre uma visão utilitarista da língua, como se ella fosse uma chave-de-roda ou uma torneira.

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Figura retirada de http://heavensinki.blogspot.com/.

184. Reis e heróis

Francisco Adolfo de Varnhagen

Os reis são como os heróis. Se sabemos muito de seus defeitos ou se eles são excessivamente parecidos conosco, deixam de fazer referência a algo mais elevado, tornando-se, portanto, desnecesários. Disso me lembrei por dois motivos: sobre um polêmico filme lançado na Turquia há algum tempo sobre Mustafá Kemâl Atatürk, um herói, por assim dizer; e também por conta do recente casamento do Principe William e da plebeia Catherine Middelton.

Os reis têm um estatuto diferenciado numa sociedade monárquica. Parte-se do pressuposto que ele é melhor do que o resto do povo para poder reinar. Várias casas europeias caíram nesse golpe de republicanizar suas famílias. Tão-logo tornem-se somente outra família britânica, o que lhes garantirá o direito ao reino? Certamente que tais uniões são louvadas, principalmente pelos republicanos que têm interesse na queda da monarquia.

Tendo esse curto raciocínio em mente, deixo aqui o trecho que uma peça de teatro escrita por Francisco Adolfo de Varnhagem, intitulada Amador Bueno, ou a Coroa do Brasil em 1641, publicada em 1858. A peça narra rapidamente a tentativa de aclamar Amador Bueno da Ribeira como rei de São Paulo, separando a capitania do reino de Portugal, que se libertava de Castela com a aclamação do Duque de Bragança como Dom João IV; a interpretação do feito difere de autor para autor. Varnhagem, como Aureliano Leite em 1938, creditam aos ardis espanhóis, cuja motivação seria, em realidade, a anexação das terras paulistas à Coroa de Castela. Alfredo Ellis Jr.; para esses dois autores, a negativa de Amador à aclamação é positiva no sentido de preservação da unidade dos territórios americanos casa de Bragança e pela unidade do futuro Brasil. Ellis Jr. nega o status de herói a Amador, considerando um pusilânime e indigno da Coroa que lhe ofertaram.

Independente das ideologias, Amador nega a Coroa que lhe fora oferecida pelo senatus et popolusque paulistarum.

Em sua peça, Varnhagem coloca na boca de Amador uma curiosa passagem sobre os valores monárquicos. Não se pode esquecer também que a peça vem dedicada à S. M. I. o Imperador Dom Pedro II, igualmente da casa de Bragança, como seu antepassado, Dom João IV, rei de Portugal. Trata-se de um triplo elogio: (1) à pessoa do Imperador reinante, por meio da dedicatória e da citação da casa, (2) à abnegação de Amador Bueno, fiel vassalo dos Bragança e (3) à própria instituição monárquica.

Por fim, o trecho:

Sim, mas no fim das contas, a coroa na minha cabeça não poderia dar a paz e a felicidade! Um trono há mister bases sólidas sobre que assente, e uma coroa só pode servir na cabeça que já para ela nasceu formada. Os reis são na terra uma família à parte de nós; reinam não só pelo esplendor que herdaram de seus maiores, mas também pelo da sua família, —dos mais reis, que todos eles se protegem como parentes que são entre si… E são invioláveis e sagrados por Deus! Estão acima de todos os partidos; pairam noutra atmosfera mais livre de ambições e de paixões más do que a nossa, e não se podem criar ficando os seus parentes peões […] Não nos é dado a nós igualar o que Deus desigualou. Poderiam jamais quaisquer leis terrestres igualar o tigre à inofensiva cotia? Ou a rolinha que geme ao milhafre que a arrebata? […] Que proclame a igualdade na terra a cobra cascavel para mais à vontade administrar a sua peçonha, […].

VARNHAGEN, Amador Bueno ou A coroa do Brasil em 1641, p.14. Imprenta del Atlas: Madri, 1858

 

183. “Honi soit qui mal y pense”, ou Algumas considerações sobre a moral

Passando os olhos pela página dos editoriais da “Folha de São Paulo” de 29 de abril, um deles chamou-me a atenção: o intitulado Para além da carruagem, de Eliane Catanhêde.

Chamou-me a atenção por estar destoando da página: quase todos os outros estão versando sobre temas de política interna e outros assuntos relevantes. O de Catanhêde tem um estranho tom de raiva babosa, dos cães acometidos por hidrofobia que atacam qualquer coisa.

A jornalista resolveu escrever sobre o casamento que ocorreria na Família Real inglesa, naquele mesmo dia. Plausível, afinal, a mídia tem dado muita atenção ao fato. Porém, por mais que se leia o texto, não é possível atinar aonde ela quis chegar.

Faz uma confusão tremenda entre realidade e conto de fadas, chama o regime britânico de “obsoleto e incompreensível que mantém [sob seu cetro, creio] até hoje quinze outros estados independentes, como os democráticos e contemporâneos Canadá, Austrália e Nova Zelândia”. Compara a monarquia britânica com a China; acha que “o Reino Unido desafia o mundo com sua sólida democracia e uma monarquia extratemporânea”.

O que Eliane Catanhêde não deve saber, em sua “modestíssima opinião” é que o Reino Unido é o berço da democracia ocidental moderna e esse processo ocorreu por meio da pessoa do monarca. Também lhe deve fugir à percepção que cada país adota – ou mantém – o regime que lhe é mais conveniente. Sabe-se muito bem que os índices de aprovação da monarquia britânica são altos; mesmo na longínqua Austrália, um referendo em 1999 deu a vitória à monarquia e as pesquisas davam como certa a vitória da república e o fim do último laço com Londres.

A monarquia britânica, assim como todos os regimes monárquicos europeus ainda vigentes, é de base parlamentar, ou seja, o poder efetivo é exercido pelo Parlamento eleito e pelo Primeiro-Ministro. Aí entra a questão que levanta a sra. Catanhêde: para que então um monarca?

A nós, como brasileiros, povo da latinidade dispersa, parece-nos absurdo termos um rei. Concordo. Um rei – ou imperador, como outrora – governando sobre o Brasil seria inviável, porque a um rei, respeita-se como a um pai e, nós, mal-educados e mal-agradecidos como somos, cuspiríamos na cara desse rei e o esculhambaríamos nos nossos péssimos humorísticos televisivos.

Temos a ideia pseudodemocrática da absoluta igualdade e não reconhecemos os méritos naturais – ou adquiridos – das pessoas. Basta ver que somos um povo que troça do conhecimento, espezinha a cultura e deixou que as suas escolas fossem demolidas. U’a monarquia comporta a ideia de que um rei, mesmo num regime parlamentar, é a reserva moral do povo sob seu cetro. Como um povo sem moral – ou que se crê sobre ela – pode aceitar um monarca ou mesmo a ideia de um monarca?

Voltando ao caso da monarquia britânica. A Rainha não tem poder algum a não ser o moral. Quando fala, quando vem à televisão, ou na abertura anual do Parlamento, na mensagem anual de Natal a seus súditos: as pessoas, seu povo, a ouve, como quem ouve a um parente mais velho, amado e respeitado. Afinal, o rex (regina no caso) é quem tem a regula, a medida, o juízo.

Catanhêde chama o regime britânico de obsoleto. Amante como deve ser dos nossos tempos tão modernos, ela não suporta as tradições e as descarta em nome de uma duvidosa modernidade. A Inglaterra tornou-se um país unificado em 927; desse ano até hoje, somente entre 1653 e 1660 houve um regime republicano de cunho aristocrático, comandado por Oliver Cromwell. O seu Commonwealth (“bem comum”, ou respublica), ao que parece, não deixou saudosistas.

Sob a coroa das várias dinastias que se sucederam, a Inglaterra foi um dos primeiros estados no mundo a dispor de um corpo parlamentar similar aos parlamentos modernos, uniu os outros reinos da ilha sob seu domínio político, tornou-se uma potência naval e colonial, guerreou contra a Alemanha em duas ocasiões e saiu vitoriosa e orgulhosa dessa batalhas.

Principalmente nas duas guerras mundiais, foi vital a união do monarca com o seu povo; o Rei vinha aos balcões do Plácio discursar e animar o povo e a esperança do povo fomentava também a dos monarcas. Novamente aí vemos que não basta democracia e meios financeiros: moral e orgulho também o são.

Engana-se também em ver pura subserviência: o monarca representa e pertence ao povo e não o contrário. A máxima de Sêneca está na mente e na língua dos britânicos: “Rex probavit non rempublicam suam esse, sed se reipublicae” (ou seja O rei comprovou que o país não lhe pertencia, e sim que ele pertencia ao país”).

Que seja obsoleta a Monarquia britânica como quer a jornalista da Folha. Mal-e-mal, tem mais de mil anos. Entende-se que um regime de mil anos possa tornar-se obsoleto: seria inclusive justo. Porém, é inexplicável que uma república de pouco mais de cento e vinte anos tenha se tornado não apenas obsoleta, mas também inoperante, com suas entranhas roídas pelos mais desprezíveis vícios.

Como explicar que uma república democrática, renascida há pouco mais de vinte anos de um regime republicano autoritário, já possa estar em grau tão avançado de putrefação? Com suas instituições laicas e republicanas já tão desgastadas e tão… sem moral. Qual a moral que inspira o Presidente da República? O Supremo Tribunal Federal? Muito pouca ou nenhuma, possivelmente.

O rei é quem tem a regra. O presidente é apenas aquele que se senta à frente. Um presidente que é eleito, que não foi educado desde sempre para ocupar aquele cargo, acaba por não ter um compromisso real com a coisa pública. Para ele, é apenas mais uma demonstração de poder, de como ele pode exercer de poder e fazer brotar das urnas os votos que lhe garantirão o cargo.

Eu diria mais: numa monarquia, unicamente o povo tem direito de vida e morte sobre um rei.

No Brasil, o poder é exercido por arrivistas e alpinistas sócio-políticos. Aí está a grande diferença entre nós e os outros. Como ver um poder moral em alguém que não o emana ou sequer sabe o que é isso?

A democracia veio com um estranho conceito de dessacralização da república, do Estado. Como fazê-la válido aos olhos do povo? Apenas com leis, não é possível. A democracia pura e simples, como provavelmente pensa Eliane Catanhêde não é possível. A um povo que não se respeita, como criar-lhe um governo, como tornar-se válido? Não há muitos meios…

Creio que após o comovente editorial da Folha, os britânicos enforcarão a Rainha e colocarão num navio todos os membros da Família Real, afinal, que insensatez manter uma monarquia e somente agora, com essa luz, eles puderam ver quanto mal as cabeças coroadas lhes faziam.