180.Histórias desconhecidas: o Bacharel de São Bernardo

Único retrato conhecido do Bacharel de São Bernardo. É notável como esse documento esquecido pela História inspirou a figuração do Pai Ubu.

Quando Martim Afonso de Souza chegou ao litoral paulista e fundou São Vicente, não tomou conhecimento apenas da existência do enigmático João Ramalho, que já em idade avançada, tinha ampla descendência entre os índios e com eles vivia mais acima, no planalto. Menos generosa é a História quando se trata do Bacharel de São Bernardo, figura igualmente enigmática.

A alguma distância do aldeamento de Ramalho, que logo seria a vila de Santo André, viviam também alguns aborígenes organizados por essa estranha figura; ao contrário de Ramalho, que simplesmente se esqueceu da Europa e vivia com tranquilidade entre os índios, o Bacharel apresentava-se como descendente da nobreza e oficialmente designado pelo Rei de Portugal como ‘regedor’ daquelas terras.

Com roupas feitas de plumas e uma coroa de madeira, fazia-se chamar pelos índios de “Vossa Alteza” e mandara esculpir um Jesus também em madeira que era sua imagem e semelhança.

Na aldeia de São Bernardo (ou reino outorgado, como dizia o Bacharel), circulava moeda também esculpida em madeira e havia uma grande oca onde tomava lugar a Grande Assembleia Geral, todos a soldo do Bacharel.

Por conta da escassez de meio circulante e da dificuldade em entrar nas fainas para obtê-lo, grande parte da população vinculava-se ao serviço do Bacharel ou vivia de um estipêndio por ele concedido, na forma que prouvera em forma de regulamento. Os que viviam de estipêndio, nada faziam; os que trabalhavam diretamente para o serviço do Bacharel também não.

Meia-dúzia de índios plantava para aquele monte de gente, mais de duzentos. E qualquer reclamação sua era ridicularizada por meio de um painel de madeira, o Tronco Oficial, onde o Bacharel mandava esculpir tanto suas peças de oratória quanto éditos, decretos e regulamentos. Eram tantos que havia, em verdade, um bosque oficial.

Não é preciso lá ser muito inteligente para prever que assim que travaram contato, o Bacharel e Martim Afonso tiveram graves e grandes rusgas. O Bacharel não aceitava a autoridade de Martim Afonso e usou de todo seu poder para isolar o seu reino da autoridade do Capitão. Por meio de sua guarda pessoal e da estatal Brasopau (extração de pau-brasil) e do Banco da Botocúndia (responsável pela ‘cunhagem da moeda’ e pelo erário – ou seria lignário – público), iniciou ampla campanha publicitária em seus domínios e também agentes ao aldeamento de João Ramalho.

Curioso é que após um acordo entre Martim Afonso e o Bacharel, onde o primeiro concedia ao segundo o cargo de escrivão de seu serviço, o aldeamento de São Bernardo e seu Bosque Oficial param de ser mencionados. O “leal e mui valoroso” Bacharel de São Bernardo morreu em sua quinta em Setúbal, cercado de todo luxo e conforto – e de todo o vinho que aguentasse beber -, alguns anos do seu retorno a Portugal.

Nada mais se sabe a respeito do Bacharel. Procurou-se sua filiação e nada se achou. Procurou-se a origem do seu título de Bacharel: igualmente nada. Tampouco sabe-se dos seus administrados, mas se especula que em uma cláusula secreta no acordo eles teriam sido passados a Martim Afonso como escravos.

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