182. Orgulho de quê?

As redes sociais mostraram-se vitais nas recentes revoltas nos países árabes: através delas os insurgentes organizaram-se e chegaram a derrubar governos. Em nome da democracia? Duvido: no Mundo Árabe o poder é de quem o ocupa e isso basta para legitimá-lo. Para eles, eleições e democracia é conversa fiada do Ocidente: Alá escolhe, Alá tira, Alá sabe o que faz. Ben Ali era legítimo até que o derrubassem; o mesmo vale para Mubarak e o mesmo será para Kadafi.

Mas o principal é que as redes sociais ajuda pessoas com o mesmo intuito – para bem ou para mal – a reunirem-se e organizarem-se.

O que me motiva a escrever esse texto é um acontecimento totalmente sem importância; mas como a vida é um suceder de acontecimentos sem importância, gasto um pouco as pontas do meu dedo para exarar algumas opiniões.

Desde meu perfil do Twitter, acompanho muitas ondas de manifestações: as ditas hashtags notificam-me disso. É gente querendo a cabeça do Sarney, um grupelho mostrando seu mau gosto musical, outro fazendo apologia a drogas, enfim, tudo aquilo que os sujeitos creem importante tornar público e encontrar outros adeptos.

Chama-me a atenção a polarização feita em torno das figuras políticas também, como o ex-presidente da República, o sr. Luís Inácio da Silva. Admiradores desse cidadão entopem nossas timelimes com mensagens das mais várias, inclusive justificando grandes absurdos, o que prova mais uma coisa: a militância política no Brasil é algo que está mais para romaria de Nossa Senhora de Aparecida: existem mártires, defensores da fé e inquisidores prontos para julgar os infiéis e por infiel leia-se todo aquele que levantar a mais mínima objeção às políticas sociais, ao aliciamento das classes baixas por meio de programas assistenciais. Essas são as tão propaladas conquistas.

Do outro lado do ringue virtual, a oposição amarelada. Um partido que parece já ter a icterícia na sua compleição. Também eles têm sua divindade a qual louvam de maneira mais discreta: o sociólogo e também ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso.

Os méritos de FHC, conforme rezam seus sectários, são: a privatização das empresas estatais, o início do saneamento das finanças públicas, a formulação do plano Real, o combate a inflação e mais outros que ainda poderia citar, mas fiquemos com esses que são os mais comentados.

Alguns méritos de FHC são considerados pecados capitais pelos lulistas: a privatização das empresas estatais é o mais condenado.

Ambos os ex-presidentes têm seus méritos e têm também seus graves defeitos. Lula disse ter tirado 30 milhões da miséria. Mas a que custo? Com que autonomia? Essa gente ainda precisará muito tempo da ajuda governamental porque nada além disso se fez, como um programa que leve a dinamização da indústria e do comércio para os bolsões de pobreza.

Fernando Henrique promoveu a privatização das companhias de telecomunicações, o que foi bom. Ruim foi ele ter acreditado que tal feito se daria sem nenhum tipo de percalço ou conjuração por parte dos compradores. O erro de FHC nesse caso foi ter sido ingênuo. Apenas isso: foi ter confiado excessivamente na lisura dos interessados. A culpa então é dupla.

Em compensação, os militantes petistas não querem nem ouvir falar do mensalão. Posso dizer com uma certa segurança que deve ser a maior compra de parlamentares tanta “na história desse país” como na de qualquer outro. O Parlamento da República vendeu-se como prostitutas desesperadas. Culpa de Lula et caterva e culpa também dos próprios parlamentares. Culpa dupla.

* * *

Isso tudo posto, tenho a dizer que ambos têm lá seus pequenos méritos e seus grandes vícios. Possivelmente ambos seriam inaptos para governar.Quem seria? Não faço a menor ideia. Agora, não vou comprar bandeiras e bater-me por gente que pouco vale: quem quiser que o faça. Nas últimas eleições gerais, fiquei com o PSDB na base da escolha “menos danosa”, mas ele também está longe das minhas concepções políticas. Nenhum partido brasileiro atende às minhas concepções políticas.

E nas redes sociais, os militantes entabulam verdadeiros xadrezes humanos pró-Lula ou pró-FHC, como nessa recente hashtag “Orgulho FHC”. Ora, eu tenho orgulho dos pais da Pátria, dos músicos, dos escritores. A Política administra apenas, a Cultura permanece (ou deveria).

Ainda alguns tentaram levantar outras bandeiras como “Orgulho GV” (Getúlio Vargas). Ora, não deixemos que o tempo nos cegue: Getúlio perdeu as eleições e tomou o poder. Que mérito tem esse senhor? O seu populismo: o primeiro presidente apodado de “Pai dos Pobres”, que serve de espelho ao hirsuto e megalomaníaco Lula.

Também um “Orgulho JK”. Ora, Juscelino trouxe para o Brasil as indústrias automobilísticas e fez Brasília. Só o fato de ter feito uma capital no meio do nada é motivo para mandá-lo ao hospício. Não importa que estava na Constituição de 1946 (e nas outras anteriores). O país não tinha fundos para aquilo e foi levantá-los no exterior. Juscelino é aquele elemento que tem um baita carrão na garagem enquanto a casa, que nem laje tem, cai aos pedaços.

Dos políticos não temos de ter orgulho. Eles têm de fazer o que lhes compete, para aquilo que forem eleitos. FHC não fez mais do que suas obrigações (arrisco dizer que fez menos), Lula nem com elas cumpre. Orgulho deles? Não.

P.S. tardio: comentários que eu considerar ofensivos ou que não acrescentam nada não serão aprovados. Afinal, o que vale é a qualidade da opinião e não a quantidade.

181. A demência democrática

Dom João III.

Ouvia os seus conselheiros, e tinha sobre o juízo que devia fazer dos pareceres que ouvia, a opinião lucidíssima que Frei Luiz de Souza traduz em palavras concisas: «nos conselhos dos Principes a calidade e sustancia dos pareceres se deve respeitar e seguir: não o numero» (Annays, parte I, cap. 12).

Doutrina contrária, e absurda, por todos os motivos, havia de implantar-se entre nós, dois séculos e meio depois, introduzida pela demência democrática, para quem a legitimidade do Poder está única e exclusivamente no número, de sorte que o número n de pessoas a falar a verdade, mente, se se lhe opõe o número n +1 a mentir!

PIMENTA, Alfredo. Dom João Terceiro. Livraria Tavares Martins: Porto, 1936. p. 24

180.Histórias desconhecidas: o Bacharel de São Bernardo

Único retrato conhecido do Bacharel de São Bernardo. É notável como esse documento esquecido pela História inspirou a figuração do Pai Ubu.

Quando Martim Afonso de Souza chegou ao litoral paulista e fundou São Vicente, não tomou conhecimento apenas da existência do enigmático João Ramalho, que já em idade avançada, tinha ampla descendência entre os índios e com eles vivia mais acima, no planalto. Menos generosa é a História quando se trata do Bacharel de São Bernardo, figura igualmente enigmática.

A alguma distância do aldeamento de Ramalho, que logo seria a vila de Santo André, viviam também alguns aborígenes organizados por essa estranha figura; ao contrário de Ramalho, que simplesmente se esqueceu da Europa e vivia com tranquilidade entre os índios, o Bacharel apresentava-se como descendente da nobreza e oficialmente designado pelo Rei de Portugal como ‘regedor’ daquelas terras.

Com roupas feitas de plumas e uma coroa de madeira, fazia-se chamar pelos índios de “Vossa Alteza” e mandara esculpir um Jesus também em madeira que era sua imagem e semelhança.

Na aldeia de São Bernardo (ou reino outorgado, como dizia o Bacharel), circulava moeda também esculpida em madeira e havia uma grande oca onde tomava lugar a Grande Assembleia Geral, todos a soldo do Bacharel.

Por conta da escassez de meio circulante e da dificuldade em entrar nas fainas para obtê-lo, grande parte da população vinculava-se ao serviço do Bacharel ou vivia de um estipêndio por ele concedido, na forma que prouvera em forma de regulamento. Os que viviam de estipêndio, nada faziam; os que trabalhavam diretamente para o serviço do Bacharel também não.

Meia-dúzia de índios plantava para aquele monte de gente, mais de duzentos. E qualquer reclamação sua era ridicularizada por meio de um painel de madeira, o Tronco Oficial, onde o Bacharel mandava esculpir tanto suas peças de oratória quanto éditos, decretos e regulamentos. Eram tantos que havia, em verdade, um bosque oficial.

Não é preciso lá ser muito inteligente para prever que assim que travaram contato, o Bacharel e Martim Afonso tiveram graves e grandes rusgas. O Bacharel não aceitava a autoridade de Martim Afonso e usou de todo seu poder para isolar o seu reino da autoridade do Capitão. Por meio de sua guarda pessoal e da estatal Brasopau (extração de pau-brasil) e do Banco da Botocúndia (responsável pela ‘cunhagem da moeda’ e pelo erário – ou seria lignário – público), iniciou ampla campanha publicitária em seus domínios e também agentes ao aldeamento de João Ramalho.

Curioso é que após um acordo entre Martim Afonso e o Bacharel, onde o primeiro concedia ao segundo o cargo de escrivão de seu serviço, o aldeamento de São Bernardo e seu Bosque Oficial param de ser mencionados. O “leal e mui valoroso” Bacharel de São Bernardo morreu em sua quinta em Setúbal, cercado de todo luxo e conforto – e de todo o vinho que aguentasse beber -, alguns anos do seu retorno a Portugal.

Nada mais se sabe a respeito do Bacharel. Procurou-se sua filiação e nada se achou. Procurou-se a origem do seu título de Bacharel: igualmente nada. Tampouco sabe-se dos seus administrados, mas se especula que em uma cláusula secreta no acordo eles teriam sido passados a Martim Afonso como escravos.

179. Rex et Sacerdos

Que seria do baralho
se depusessem o Rei
e elegessem o Valete
pra presidente da grei?

178. Fernão de Magalhães, um perfil

 

Fernão de Magalhães

 

Carlos V achou bem, deu uma Armada de cinco navios a Fernão de Magalhães, e este partiu. Saiu de Sevilha, passou pelas Canárias, dirigiu-se ao Cabo dos Baixos de Ambor, desceu a costa, «até o ryo que se chama Yaneyro»; continuou a descer; teve brigas com os capitães dos navios; matou dois, Luiz e Mendonça, à punhalada; a Gaspar de Queixada, degolou-o; fez desembarcar outro, João de Cartagena, na companhia de um clérigo, em terra «onde nan avya nem molher». Pôde fazer isto tudo, porque «a jente bayxa a mor parte era com ele».

PIMENTA, Alfredo. Dom João Terceiro. Livraria Tavares Martins: Porto, 1936. p. 135.

177. Lição de História

Seis anos de choro
e de pouco valeu.
O giz guincha na lousa;
os alunos, guerreando,
ignoram-nos no peso
gorduroso do hoje.

176. Solenidade

Plátano do Horto de Pádua, Itália

O mínimo de solenidade é necessário. Não aquela pomposa de catedrais e palácios reais. Andar por sob os eucaliptos alinhados pela faina humana pode ser solene. A vulgaridade mercadológica e monetária cria florestas simétricas que involuntariamente simulam as catedrais com colunas de troncos e domos e abóbadas de ramos e folhas, longas naves consagradas à reta e a sensação do infinito e tetos de sala de palácio renascentista. Vem à linha do pensamento alguma melodia que traz a solenidade… até mesmo a sombra compacta das copas dos eucaliptos pode lembrar as palavras de Händel postas na boca de Xerxes I a observar a beleza de um plátano.