166. Sobre poesia

Provavelmente uma enfiada de obviedades, mas senti a necessidade de escrever este pequeno texto.

* * *

Creio que a poesia seja a forma mais próxima da arte que a palavra escrita pode chegar. Sem prejuízo da literatura em prosa, claro. Mas o fantástico da poesia é chegar a significados que não estão textualmente escritos e valer-se de relações subliminares de associação inicialmente não previstas.

A poesia não pode ser lida como se lê um romance ou um conto ou mesmo uma notícia de jornal. Certo que tal afirmação chega às raias da obviedade, mas a função conotativa da linguagem é algo pouco exercitado mesmo em leitores contumazes.

Também parece lógico que, embora não façam referência direta, as metáforas ou imagens vinculadas em um poema não podem ser excessivamente herméticas, sob pena do texto ser absolutamente intransponível ou somente fazer sentido ao seu autor.

A graça, se me permitem a jocosidade e o vocábulo-coringa, é a polissemia, as relações possíveis de significado – ou entre significados – que faz da leitura de um poema uma experiência estético-discursiva particular a cada leitor, as várias soluções possíveis ao quebra-cabeças lógico-cognitivo que se lhes apresenta distribuído em versos e estrofes.

A concepção comum de poesia (na verdade, de poema) sempre esbarra, para o grande público, nas questões formais, mais notoriamente na rima e, em segundo plano, na métrica; isso se deve a popularidade de quadrinhas e das letras das canções.

Porém – e por sorte -, poesia e a sua materialização, o poema, é muito mais que isso. É essencialmente imagens possíveis e a cadeia associativa entre elas.

Isso sob um ponto de vista mais atual, pois há a poesia narrativa; mas mesmo essa vale-se de imagens por meio da mitologia, como nas grandes obras legadas pela tradição, a Ilíada, a Odisseia e Os Lusíadas.

Para a poesia, o que mais vale é a imagem. Uma imagem da realidade emprírica, mas apresentada sob uma nova chave de leitura, dada pelo autor.

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1 comentário

  1. Thiago Dias

     /  08/03/2011

    Imagens que me tocaram recentemente, feitas por um poeta dito menor. Segundo a edição que tenho de Paroles , Alicante é o nome de um porto no sul da Espanha. Prévert fez uma viagem à Espanha com Jacqueline Laurent em 1936.

    Alicante

    Une orange sur la table
    Ta robe sur le tapis
    Et toi dans mon lit
    …Doux présent du présent
    Fraîcheur de la nuit
    Chaleur de ma vie
    (Jacques Prévert)

    Responder

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