175. Uma prece para os tradutores

São Jerônimo, tradutor da Bíblia (a versão dita "Vulgata"), por El Greco

Docteur excellent, lumière de la sainte Église, bienheureux Jerôme, je vais entreprendre une tâche pleine de difficultés, et dès à présent, je vous supplie de m’aider par vos prières, afin que je puisse traduire en français cet ouvrage avec l’esprit même dans lequel il a eté composé.

Doutor excelso, luz da santa Igreja, bem-aventurado Jerônimo, vou empreender uma tarefa cheia de dificuldade e, desde já, suplico-vos que me ajudeis por vossas preces, a fim de que eu possa traduzir essa obra para o português* com o mesmo espírito no qual ela foi escrita.

 Sob a invocação de São Jerônimo, de Valery Larbaud, pág. 53. Editora Mandarim, 2001. Tradução de Joana Angélica d’Avila Melo.

 * O português, pusemo-lo aqui por nossa conta.

174. Concreto

Concreto,
essa pedra que o homem,
brincando de geologia,
aprendeu a fazer.

O novo mármore
sem glória romana.
Muito mais em conta,
é padrão dos nossos tempos
tão concretos.

O concreto que dá forma
à estação rodoviária
é insensível à dor da partida.
O concreto que molda
o prédio do velório,
faz-se de mudo.
O concreto nivelador
de todas as calçadas
nem sente a borracheira
que faz os bêbados deixarem os dentes
na sua aspereza
que se quer pétrea.

O concreto
tão nosso,
tão geneticamente nosso…
Basta secar
e eis o olhar de pedra.

173. Fundação profana

Aqui em baixo, havia um pântano.
Ali em cima, fizeram um colégio
e ergueram uma cruz de madeira.

Depois, vieram povos alheios
e muitas cruzes de concreto.

Aqui em baixo,
prossegue o pântano.

172. Foyer

Alguém disse
que teatro é vida
e que vida é teatro.

Nos tempos dos telhados de vidro.
a vida era um ária de ópera.

171. Todo o começo é duro

Todo o começo é duro
e lento.
O gelo não derrete a pancadas.

Mesmo o chumbo,
essa moleza tipográfica,
precisa de seus trezentos graus.

“Tipografia, pai? O que é?”
A arte de imprimir livros…
“Livros?”

Todo o começo é duro.

170. Tarde de ontem

O telefone não toca nunca. O monofone sempre me sorri com desprezo com seus dentes de plástico luminoso. Sento-me no banheiro para as necessidades mais elementares: ele toca. É afanosa a corrida pela ligação que não chega nunca. E se for…? Precariamente chego ao aparelho.

Atendo e perguntam quem é. Mania engraçada que têm as pessoas no interior. Pergunto quem quer falar. A voz de mulher velha responde-me que quer falar com o Jorginho, o das camisetas. Digo-lhe de do lado de cá não há Jorguinho algum. Ela insiste: pergunta qual é o número daqui. Também não sei. Tenho de sair desesperado à cata da agenda que está em algum lugar ignorado. Acho-a depois de quase um minuto e repito o número. De fato, a mulher velha havia telefonado errado.

Tenho vontade de culpá-la pela interrupção do ato fisiológico. Mas que fazer? Desligo, largo a agenda e volto ao banheiro.

169. Cinzas

O teu sorriso amarelo
é tão verdadeiro
quanto confete em chão de loja.

168. Supermercado

A comodidade é
um travesseiro de plumas
e um cartão de crédito.

167. Curriculum vitae parvuli

Esta é a nossa vida:
ser anexo de número.

É tempo de escolher uma gravata
e ir para a rua.

166. Sobre poesia

Provavelmente uma enfiada de obviedades, mas senti a necessidade de escrever este pequeno texto.

* * *

Creio que a poesia seja a forma mais próxima da arte que a palavra escrita pode chegar. Sem prejuízo da literatura em prosa, claro. Mas o fantástico da poesia é chegar a significados que não estão textualmente escritos e valer-se de relações subliminares de associação inicialmente não previstas.

A poesia não pode ser lida como se lê um romance ou um conto ou mesmo uma notícia de jornal. Certo que tal afirmação chega às raias da obviedade, mas a função conotativa da linguagem é algo pouco exercitado mesmo em leitores contumazes.

Também parece lógico que, embora não façam referência direta, as metáforas ou imagens vinculadas em um poema não podem ser excessivamente herméticas, sob pena do texto ser absolutamente intransponível ou somente fazer sentido ao seu autor.

A graça, se me permitem a jocosidade e o vocábulo-coringa, é a polissemia, as relações possíveis de significado – ou entre significados – que faz da leitura de um poema uma experiência estético-discursiva particular a cada leitor, as várias soluções possíveis ao quebra-cabeças lógico-cognitivo que se lhes apresenta distribuído em versos e estrofes.

A concepção comum de poesia (na verdade, de poema) sempre esbarra, para o grande público, nas questões formais, mais notoriamente na rima e, em segundo plano, na métrica; isso se deve a popularidade de quadrinhas e das letras das canções.

Porém – e por sorte -, poesia e a sua materialização, o poema, é muito mais que isso. É essencialmente imagens possíveis e a cadeia associativa entre elas.

Isso sob um ponto de vista mais atual, pois há a poesia narrativa; mas mesmo essa vale-se de imagens por meio da mitologia, como nas grandes obras legadas pela tradição, a Ilíada, a Odisseia e Os Lusíadas.

Para a poesia, o que mais vale é a imagem. Uma imagem da realidade emprírica, mas apresentada sob uma nova chave de leitura, dada pelo autor.

165. Minuto particular

Às vezes,
ser e estar
não precisa
de predicado.

164. Fugere urbem

As pernas batem-se em fuga.
A urbe rói os últimos horizontes;
a ideia afunda-se em campos de cana.

163. Copo de soda

Em cada pequena bolha
um destino possível.

Todos falsos.

162. Milagre industrial

Um real e quinze centavos
para transformar a água
em algo mais palatável.

161. Bilhete

Animais que rastejam,

Preciso deixar o bar
e ir para casa
dormir o sono pesado dos ébrios.