154. “Nossa Bandeira” e “À Santificada”

Prosseguindo com a série de postagens sobre Guilherme de Almeida, deixo aqui a impressão sobre dois poemas do mesmo tema, a bandeira paulista.

* * *

Há dois poemas de Guilherme de Almeida sobre a bandeira paulista. Uma, Nossa Bandeira, escrita no calor da Revolução de 1932, quando o projeto de Júlio Ribeiro para a bandeira do Brasil republicano foi resgatado para servir de símbolo da Revolução por um Brasil melhor, e outra, feita em 1946, quando da restauração dos símbolos estaduais e municipais pela nova Constituição, e a flâmula de Ribeiro foi adotada oficialmente como bandeira do Estado.

Primeiro, o mais antigo:

Nossa bandeira

Bandeira da minha terra,
Bandeira das treze listas:
São treze lanças de guerra
Cercando o chão dos paulistas!

Prece alternada, responso
Entre a cor branca e a cor preta:
Velas de Martim Afonso,
Sotaina do Padre Anchieta!

Bandeira de Bandeirantes,
Branca e rota de tal sorte,
Que entre os rasgões tremulantes,
Mostrou as sombras da morte.

Riscos negros sobre a prata:
São como o rastro sombrio,
Que na água deixara a chata
Das Monções subido o rio.

Página branca-pautada
Por Deus numa hora suprema,
Para que, um dia, uma espada
Sobre ela escrevesse um poema:

Poema do nosso orgulho
(Eu vibro quando me lembro)
Que vai de nove de julho
A vinte e oito de setembro!

Mapa da pátria guerreira
Traçado pela vitória:
Cada lista é uma trincheira;
Cada trincheira é uma glória!

Tiras retas, firmes: quando
O inimigo surge à frente,
São barras de aço guardando
Nossa terra e nossa gente.

São os dois rápidos brilhos
Do trem de ferro que passa:
Faixa negra dos seus trilhos
Faixa branca da fumaça.

Fuligem das oficinas;
Cal que das cidades empoa;
Fumo negro das usinas
Estirado na garoa!

Linhas que avançam; há nelas,
Correndo num mesmo fito,
O impulso das paralelas
Que procuram o infinito.

Desfile de operários;
É o cafezal alinhado;
São filas de voluntários;
São sulcos do nosso arado!

Bandeira que é o nosso espelho!
Bandeira que é a nossa pista!
Que traz, no topo vermelho,
O Coração do Paulista!

Simples e pungente. O esquema dos versos em redondilha maior aproxima-o aos ritmos poéticos mais populares; o que também vale para a organização de estrofes em quadras, com esquema de rimas ABAB.

O esquema de comparação das faixas pretas e brancas alternadas da bandeira com aspectos encontrados na História paulista deu um sabor pitoresco ao poema.

Agora, o segundo:

À santificada

Voltas ao reduto.
Com sete tarjas de luto,
Seis faixas brancas da paz,
E teu penacho vermelho,
e São Paulo dobra o Joelho,
Ao beijo que tu lhe dás.

Vens…
Tu fostes a condenada.
A réproba incinerada,
Que de um ímpio auto-fé,
Deixa na história em resumo,
Negro carvão, branco fumo,

Vermelho flama de fé.
Retemperou-te a fogueira,
Vens como vinha a bandeira,
Da fornalha de sertão,
Santificou-te o suplício,
Repetiu-se o sacríficio,
De Joana D’Arc e Ruão.

Voltas a nós vigilante,
Mãe, esposa, irmã, amante,
Noiva, filha, volta, pois,
É preciso que proves.
Que existiu um nove
de julho de trinta e dois.

E há uma velha faculdade,
Ensinando a mocidade,
Com ela foi que aprendeu.
E houve um brasão mameluco,
Que disse “Non Ducor, Duco!”
E um São Paulo que disse “EU!”

E houve uma noite de heroísmo,
Que marcou o teu batismo,
De glória: É por isso que
Tens quatro letras gravadas
Nas quatro estrelas douradas
Do topo: M.M.D.C.

Já a garoa, nosso incenso,
Beija o teu pano suspenso,
Ao teu mastro, que é uma cruz,
Vês? É um altar em cada casa,
Sobre a qual estende a asa,
Rajada de sombra e de luz.

Fala! É preciso que fales
De tudo, de Fernão Sales,
De Cunha, Funel e Buri,
De Etentério [?] da Pedreira,
Do soldado da trincheira
Que só falavam de ti.

Lembra a mulher da cantina,
Do hospital e da Oficina,
Beleza do nosso bem!
E as crianças num sorriso,
Jurando: “Se for preciso
nós partiremos também.”

Recorda a campanha do ouro
Acumulando um tesouro,
Que nunca se esgotará!
Depois a prisão, o exílio,
A saudade, o nobre auxílio,
Da mão distante que dá.

E agora…agora de novo
Abençoado este povo.
Que tanto soube esperar
Esperança dos Paulistas,
Bandeira das treze listras
Desfraldada em cada lar.

Reza a oração que dizia:
– Preto e branco, noite e dia,
Pois dia e noite estarei
Como um apóstolo, soldado,
Gente Paulista a teu lado,
Pela lei e pela Grei.

Também em A Santificada a menção às faixas, já como resultado do conflito de 1932. O nome dado ao poema entra em relação com a cerimônia, promovida pelo Estado Novo getulista em 1937: foi queimada porque não representava ainda São Paulo (que não tinha bandeira oficial), mas o esforço dos paulistas pela Constituição. Junto com a Treze Listras, foram queimadas as bandeiras dos vinte e dois Estados existentes então. Fantam-me fontes, mas parece que a paulista foi a primeira a ser queimada…

É por isso a primeira estrofe: “Tu fostes a condenada. / A reproba incinerada, / Que de um ímpio auto-de-fé, / Deixa na história em resumo, / Negro carvão, branco fumo, / Vermelho flama de fé. / Retemperou-te a fogueira, […]”

A disposição é diferente do primeiro poema: estrofes mais longas, de seis versos, mas densos que quadras. Redondilhas também, mas com rimas AABCCB, marcando um retorno no som.

O último verso, “Pela lei, pela grei”, encontra-se inscrito no monumento que comemora a revolução de 1932 no município de Araraquara. Monumento simbolicamente interessante que, quando for possível, dedicarei a ele uma postagem especial.

P. S.: Somente a título e curiosidade, Júlio Ribeiro era mineiro. Radicado em São Paulo e como já dito mais acima, projetou a bandeira para que fosse o pavilhão nacional. Em 1932, acabou por ser o símbolo dos paulistas pela Constituição.

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5 Comentários

  1. Maria L.M.Amato

     /  20/10/2011

    Declamei a poesia À Santificada há simplesmente 55 anos atráz, na formatura do ginásio.Ainda guardo na memória todos os versos (tenho 73 anos) e as vezes a declamo em algumas ocasiões. Notei alguns erros na vossa apresentação, que acredito prejudicam a maravilha que é esta poesia de Guilherme de Almeida. Sugiro pesquisarem
    um pouco mais pois tenho certeza que o vosso trabalho é fantástico. Parabens.
    maluamato@hotmail.com

    Responder
  2. SAMIRA BEDRAN

     /  09/07/2013

    Declamo essa poesia desde os 03 anos de idade,De tanto ouvir meu pai,Raul Bedran declamar Guilherme de Almeida, com 03 anos já sabia decor várias poesias,,e fazia muito sucesso rssss,declamando-as em eventos beneficentes.Hoje com quase 60 anos,me recordo com saudades aqueles bons tempos.De fato, existem erros na apresentação dessa poesia que voces transcreveram acima.Saudações. samirabedran@gmail.com

    Responder
  3. A “Bandeira das treze listas” e “A Santificada” cresceram comigo. Desde pequeno ouvia pai, grande advogado criminalista, declamá-las. Ouvindo-as sempre, acabei por decorá-las. Declamaei tanto uma como outra nos meus tempos de Ginásio, quando nos reunía-mos no Salão Nobre da E.E.E. Plínio Rodrigues de Moraes, em Tietê, SP. Grande lembraças, de tempos que, infelizmente, não voltam mais. Grande Guilherme de Almeida, onde estejas, que Deus lhe acalente nos seu braços imortais! Sylvio Martins Bonilha Filho, Advogado, Tietê, SP. CEP 18530.000.

    Responder
  4. Paulistas, nós somos. Dizer mais o que?

    Responder
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