152. Guilherme de Almeida

Provavelmente uma das maiores almas poéticas do solo paulista mas que, por conta de suas posições políticas e seu viés ideológico regionalista, foi banido do currículo da Academia.

Poeta, crítico de cinema, ensaísta, tradutor. Talvez a sua participação intermitente no movimento modernista seja outro motivo para ser deixado de lado. Mesmo assim, é considerado o primeiro “modernista” a ingressar na Academia Brasileira de Letras, em 1930.

Combateu na Revolução Constitucionalista de 1932, obviamente do lado paulista e dedicou vários poemas ao tema, como Moeda Paulista, feito em lembrança da campanha “Ouro para São Paulo”, para levantar fundos para o fronte de batalha, entre outros. Por conta de sua participação no conflito, foi condecorado com a Medalha da Constituição, honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

Moeda Paulista

Moeda Paulista, feita só de alianças,
feita do anel com que Nosso Senhor
uniu na terra duas esperanças:
feita dos elos imortais do amor!

Quanto vale essa moeda? — Vale tudo!
Seu ouro eternizava um grande ideal:
e ela traduz o sacrifício mudo
daquela eternidade de metal.

Ela, que vem na mão dos que se amaram,
Vale esse instante, que não teve fim,
em que dois sonhos juntos se ajoelharam,
quando a felicidade disse :”SIM”.

Vale o que vale a união de duas vidas,
que riram e choraram a uma só voz
e, simbolicamente desunidas,
vão rolar desgraçadamente sós.

Vale a grande renúncia derradeira
das mãos que acariciaram maternais,
o menino que vai para a trincheira,
e que talvez… talvez não volte mais…

Vale mais do que o ouro maciço:
vale a glória de amar, sorrir, chorar,
lutar, morrer e vencer… Vale tudo isso
que moeda alguma poderá comprar!

Também é de Guilherme de Almeida a Exortação, lido no rádio em 7 de 1932, por César Ladeira.

E também é sua a letra de O Passo do Soldado, uma das canções mais emblemáticas da Revolução de 1932, com música de Marcelo Tupinambá (pseudônimo de Fernando Lobo).

O Passo do Soldado

Marca o passo, soldado, não vês,
Que essa terra foi ele quem fez;
Que seu passo é compasso seguro;
Seu passado, o presente e o futuro.

Vem, soldado, que grande tu és.
Tua terra se atira aos teus pés.
Estremece de orgulho e ergue os braços.
Ergue braços e beira os seus passos.

:| Marcha, soldado paulista,
Marca seu passo na história.
Deixa na terra uma pista,
Deixa um rastilho de glória |: (Bis)

Dono de obra extensa em vários campos da palavra escrita, está sepultado no Mausoléu dos Combatentes da Revolução.

É autor também do Hino dos Bandeirantes, adotado com Hino do Estado de São Paulo, da Canção do Expedicionário (da Força Expedicionária Brasileira que lutou ao lado dos Aliados na Segunda Guerra Mundial).

Também é o introdutor do hai-kai na poesia brasileira.

Há muito de São Paulo em sua obra: um amor à história da sua terra e dos homens que a fizeram. Um bom exemplo é o poema Prece a Anchieta:

Prece a Anchieta

Santo: erguesses a cruz na selva escura;
Herói: plantasses nossa velha aldeia;
Mestre: ensinasses a doutrina pura;
Poeta: escrevesses versos sobre a areia!

Golpeia a cruz a foice inculta e dura;
Invade a vila multidão alheia;
Morre a voz santa entre a distância e a altura;
Apaga o poema a onda espumejante e cheia…

Santo, herói, mestre e poeta: — Pela glória
que destes a esta Terra e a sua História,
Pela dor que sofremos sempre nós.

Pelo bem que quisesses a este povo,
O novo Cristo deste Mundo Novo,
Padre José de Anchieta, orai por nós!

E é isso que se ganha no Brasil por querê-lo melhor: desprezo e esquecimento. Como tantos outros vultos que deram sua vida e o melhor de si somem no mar de vacuidade e no menosprezo que existe pela História e pela Cultura.

A modernidade considera a poesia com tons épicos e com temas históricos algo a ser desprezado. Por isso reina a carência de sentido e a subjetividade extrema, que chega às raias do imcompreensível. Para a modernidade Guilherme de Almeida, o vate paulista, não passa de velharia inútil.

Guilherme de Almeida faleceu em São Paulo capital, em 1969. Sua casa, no bairro paulistano das Perdizes, é hoje um museu dedicado à sua obra e à sua memória. O mínimo que o Estado poderia fazer por aquele que foi o vate da gloriosa gesta paulista de 1932.



Ex-libris de Guilherme de Almeida

Anúncios
Deixe um comentário

1 comentário

  1. Marianne

     /  12/01/2011

    Perfeito! Ele é um dos símbolos do patriotismo paulista, com certeza.

    @missblahnik

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: