153-bis. Fala o Maestro Sérgio de Vasconcellos-Corrêa

Referente à postagem 153, “O misterioso caso do hino que não tem música”, recebi um comentário que me deixou lisonjeado. Trata-se da fala do Maestro Sérgio de Vasconcellos-Corrêa, compositor de uma das versões do hino paulista apresentadas naquela postagem. Com suas declarações, não hesito em incluir o Maestro Sérgio entre os grandes vultos desta terra, que tem consciência do que é ser paulista e do que é liberdade.

Com muita propriedade o Maestro recorre a uma citação de Ibrahim de Almeida Nobre, conhecido pelo epíteto de “Tribuno da Revolução”. Leiam:

Li atentamente o seu “O Misterioso caso do hino que não tem música” e venho, por meio deste comentário, cumprimentá-lo pelo desassombro das suas observações.

Não vou entrar no mérito político da questão, pois minha opinião é a de que, como pau-listas, temos absoluta convicção da nossa postura de brasileiros federalistas, que lutamos no passado e o faremos, custe o custar, a qualquer momento, pela defesa da Constituição Nacional. Cabe aos demais brasileiros, por a mão na consciência, deixar de lado os seus bairrismos e trabalhar, como nós trabalhamos, pelo bem da nossa querida Pátria.Sobre o Hino dos Bandeirantes, colaborando com as suas observações informo:

1. O poema do nosso querido Guilherme de Almeida não foi “adotado” pelo Esta-do de São Paulo, ele venceu o “Concurso” instituído para a escolha da “Letra Oficial” do Hino do Estado de São Paulo.

2. O nosso Hino não tem música oficial, pela simples razão de que: Instituído o concurso para a escolha da música oficial – isso poderá ser constatado através do D. O. – a Comissão Julgadora deu parecer contrário alegando – como ouvi de um dos integrantes da referida comissão – que “a letra era longa demais para um hino”. Ora! A letra não estava em julgamento, ela já era a “Letra Oficial por concurso”.

3. Quando o amigo diz: “algo que era relativamente forte até algumas décadas atrás e hoje está totalmente esvaziado”, não posso deixar de relembrar as palavras de Ibrahim Nobre, do alto do Banco do Estado “… a terra pode ser São Paulo, mas o povo não é mais paulista”.

4. Sobre a falta de interesse do Estado em adotar um dos três hinos remanescentes,é um fato incontestável. Já a sugestão de se abrir um novo concurso, não me pa-rece a melhor solução, pois, iria prejudicar os autores que participaram do pri-meiro e que, nesse caso, seriam obrigados a escrever um novo hino, além da a-gravante de que: tanto o Maestro Spartaco Rossi como o Maestro Mozart Kahil, já não se encontram entre nós.

Minha opinião – que pode parecer suspeita – é a de que a melhor solução seria:

a) A gravação dos três Hinos pela banda e coro da Polícia Militar, ou por qual-quer outra corporação musical.

b) Divulgação dos mesmos através de todos os meios de comunicação (Escolas / Rádio / TV / Internet / Apresentações públicas etc…

c) Escolha final pelo público, através de votação, por meio de urnas eletrônicas que impeçam qualquer tipo de manipulação do resultado.

d) Sobre as citadas: “Canção do Expedicionário” e “Marchas consagradas da Revolução Constitucionalista”, não me parece uma boa solução, pelo fato de que, essas canções, que foram compostas com outros objetivos, perten-cem a outros momentos da nossa história e tem como agravante impeditiva o fato de ser o poema de Guilherme de Almeida, a Letra Oficial do Hino dos Bandeirantes.

A vergonha e o amor pela terra, a que o amigo se refere, não devem ser credita-dos aos paulistas como nós e sim, aos falsos paulistas; àqueles que não sabem – ou não querem – nos representar.

Sou Paulista, com muito orgulho.

Paulistano de quatro costados.

Caipira da Penha, sim Senhor.

Um grande abraço do xará Piratiningano,

Sérgio de Vasconcellos-Corrêa

E aqui, a minha resposta ao Maestro:

Agradeço a leitura e a ilustre visita…

Então, quando digo “adotado”, assim o digo por conta da lei que o institui como hino oficial, ou seja, o resultado do concurso foi feito norma…

De fato, é um pecado que nenhuma das melodias tenha sido escolhida para acompanhar a letra… é fato também que o poema de Guilherme de Almeida é assaz complexa para uma melodia… o verso livre não se adapta bem à monumentalidade que pede um hino… para tal, fosse melhor um texto em decassílabos… mas isso deveria ter sido visto quando da escolha da letra…

Concordo que a questão da escolha deveria ser posta em votação, com ampla divulgação das melodias… se bem que, infelizmente, não conheço a do Maestro Kahil… mas o que esperar de um governo que tem receio de assumir tais posturas? Parece que há uma certa “vergonha” em assumir ser paulista. Lembro-me de um dos discursos do ex-Governador Serra que dizia “os brasileiros de São Paulo”. Tudo bem, é pura verdade, mas por que não usar simplesmente “paulista”, uma vez que brasileiro está subentendido. Além do mais, o migrante ou imigrante que adotou São Paulo como sua terra, é também paulista, uma vez que tal identidade prescinde de documentos… creio eu.

No mais, é assunto polêmico, mas que não pretendo deixar de lado, pois aqui é a minha terra, terra dos meus avós por parte de pai e por escolha dos por parte de mãe.

Um grande abraço,
Sérgio.

Para maiores esclarecimentos, leiam O Misterioso caso do Hino que não tem música.

Anúncios

156. Cancioneiro da Navarra (II)

Exórdio

Invoco ora as pirenaicas musas
porque já me proponho a grande faina:
o marceneiro, a poética plaina
sou; livrai-me das palavras confusas
pois não quero deixar mal-entendidos,
e quero meus leitores entretidos
com inúmeras façanhas abstrusas.

Que não me falte o divinho engenho
que vomitórios já tenho comigo
e purgantes brevemente consigo
para expelir esta história que cá tenho.
Eia, sus! Avante, fiel amigo!
Há muito que contar do sujo umbigo
de tantos nobres da face de lenho.

Ai de ti, minha Navarra sofrida!
Se ainda tens algo belo a admirar
é que os duques, em sono salutar
têm a avidez também adormecida.
Ora, só resta às províncias implorar
que não venha algum tributo exemplar
para roer a renda já roída.

Iniciamos pois a falar do agora
ou recuaremos a tempos passados?
Do domínio francês, bastante fados,
mas tantos, que a Musa, minha senhora,
ao segredar-mos, harpeja e tropeça
pois quer que eu eleja um tema com pressa
e diz-me já ser-lhe de dormir hora.

Vamos adiante, Musa preguiçosa!
Ou urge que eu te dê inspiração?
Não me estranharia tal situação,
já que no profundo dessa água lodosa
nutre-se aí tamanha podridão
capaz de destruir a inspiração
mesmo a u’a Musa tão gloriosa.

I

O Vice-Rei do Reino de Navarra
tanta asnidade tem por aí dito
que, valha-nos São Benedito!
é das Espanhas a maior bocarra
e seus turpilóquios a podre sabem,
nos quais só os muito parvos caem
incautos e tontos em sua garra;

Esse Vice-Rei que a muitos horroriza
diz-se Dom Capopede Calamares.
A ele damos loas nestes cantares,
em que nossa Pena pátria eterniza
as ricas horas de tão magna mula
das quais não nos salva nem papal bula.
Nada nos livra dessa leprosa coriza infernal.

155. Violência

A insistência dos telejornais (e da mídia em geral) com notícias relacionadas à violência é algo que ultrapassa o normal. Claro que não se vive num conto-de-fadas e nem se busca tal coisa, mas fatos relacionados com violência são o grosso no noticiário.

Será que não acontece mais nada digno de nota? Certamente que acontece, mas, como eu já disse algumas outras vezes, desgraça vende. As pessoas têm o gosto mórbido pela violência, o medo prazeiroso, pois, povo inculto que somos, que teríamos para falar à mesa do jantar se não fosse algum assalto ou assassinato?

A violência preenche uma lacuna da sociedade brasileira como um todo. A falta de interesse por conhecimento ou outro tipo de distrações nos tornam telespectadores assíduos do reality show que se tornou a violência para a mídia.

Justamente por ter sido banalizada, todo fato violento é apresentado do mesmo jeito na televisão: são rápidas chamadas ou no máximo mostrando vítima ou alguém chorando. Não só a violência, mas as catástrofes naturais também.

Dias atrás, vi pela televisão o caso da moça que foi amarrada e assassinada num conjunto habitacional de São Carlos, interior do Estado de São Paulo. A moça cuidava de um bebê, seu sobrinho, na casa da cunhada. Foi amarrada e foi assassinada a facadas.

Não vou dizer aqui que há diferenças entre violências, mas sim naturezas diversas que, se nos pormos a pensar, são de enlouquecer.

Imaginemos um latrocínio. O indivíduo rouba e mata. Muito bem: temos um morto e um ladrão. A vítima não ressuscitará por conta do nosso raciocínio, mas esse tipo de crime é da categoria dos compreensíveis (não menos reprovável): teve alguma motivação compreensível, por mais imunda que possa ser. O elemento queria dinheiro para drogas, estava com fome: não importa. Existe um motivo. Ele será julgado e condenado como prevê a lei (em tese).

Agora, peguemos o caso da moça de São Carlos. A moça cuidava de um bebê. Quando o parente chegou, a casa devidamente trancada e, do lado de dentro, o bebê chorava. Arrombada a porta, o bebê chorando, a moça caída numa poça de sangue, sem vida. Nada foi roubado. Isso é incompreensível: a violência por si só, um prazer sádico em tirar a vida alheia, um mero assassino frio.

Repito que o caso 1 – o do latrocínio – não se justifica igualmente, mas existe uma motivação, seja ela dinheiro, bens materiais, drogas. Mas o caso dois encerra uma perversidade ainda maior, imensurável e incompreensível.

Garanto que virão os psicanalistas, psicoterapeutas e outros tantos com mil teorias. Não sei se cobrem o caso. Enquanto ninguém raciocina sobre as diferenças, a mídia continua a nos servir o seu principal prato: mais violência.

154. “Nossa Bandeira” e “À Santificada”

Prosseguindo com a série de postagens sobre Guilherme de Almeida, deixo aqui a impressão sobre dois poemas do mesmo tema, a bandeira paulista.

* * *

Há dois poemas de Guilherme de Almeida sobre a bandeira paulista. Uma, Nossa Bandeira, escrita no calor da Revolução de 1932, quando o projeto de Júlio Ribeiro para a bandeira do Brasil republicano foi resgatado para servir de símbolo da Revolução por um Brasil melhor, e outra, feita em 1946, quando da restauração dos símbolos estaduais e municipais pela nova Constituição, e a flâmula de Ribeiro foi adotada oficialmente como bandeira do Estado.

Primeiro, o mais antigo:

Nossa bandeira

Bandeira da minha terra,
Bandeira das treze listas:
São treze lanças de guerra
Cercando o chão dos paulistas!

Prece alternada, responso
Entre a cor branca e a cor preta:
Velas de Martim Afonso,
Sotaina do Padre Anchieta!

Bandeira de Bandeirantes,
Branca e rota de tal sorte,
Que entre os rasgões tremulantes,
Mostrou as sombras da morte.

Riscos negros sobre a prata:
São como o rastro sombrio,
Que na água deixara a chata
Das Monções subido o rio.

Página branca-pautada
Por Deus numa hora suprema,
Para que, um dia, uma espada
Sobre ela escrevesse um poema:

Poema do nosso orgulho
(Eu vibro quando me lembro)
Que vai de nove de julho
A vinte e oito de setembro!

Mapa da pátria guerreira
Traçado pela vitória:
Cada lista é uma trincheira;
Cada trincheira é uma glória!

Tiras retas, firmes: quando
O inimigo surge à frente,
São barras de aço guardando
Nossa terra e nossa gente.

São os dois rápidos brilhos
Do trem de ferro que passa:
Faixa negra dos seus trilhos
Faixa branca da fumaça.

Fuligem das oficinas;
Cal que das cidades empoa;
Fumo negro das usinas
Estirado na garoa!

Linhas que avançam; há nelas,
Correndo num mesmo fito,
O impulso das paralelas
Que procuram o infinito.

Desfile de operários;
É o cafezal alinhado;
São filas de voluntários;
São sulcos do nosso arado!

Bandeira que é o nosso espelho!
Bandeira que é a nossa pista!
Que traz, no topo vermelho,
O Coração do Paulista!

Simples e pungente. O esquema dos versos em redondilha maior aproxima-o aos ritmos poéticos mais populares; o que também vale para a organização de estrofes em quadras, com esquema de rimas ABAB.

O esquema de comparação das faixas pretas e brancas alternadas da bandeira com aspectos encontrados na História paulista deu um sabor pitoresco ao poema.

Agora, o segundo:

À santificada

Voltas ao reduto.
Com sete tarjas de luto,
Seis faixas brancas da paz,
E teu penacho vermelho,
e São Paulo dobra o Joelho,
Ao beijo que tu lhe dás.

Vens…
Tu fostes a condenada.
A réproba incinerada,
Que de um ímpio auto-fé,
Deixa na história em resumo,
Negro carvão, branco fumo,

Vermelho flama de fé.
Retemperou-te a fogueira,
Vens como vinha a bandeira,
Da fornalha de sertão,
Santificou-te o suplício,
Repetiu-se o sacríficio,
De Joana D’Arc e Ruão.

Voltas a nós vigilante,
Mãe, esposa, irmã, amante,
Noiva, filha, volta, pois,
É preciso que proves.
Que existiu um nove
de julho de trinta e dois.

E há uma velha faculdade,
Ensinando a mocidade,
Com ela foi que aprendeu.
E houve um brasão mameluco,
Que disse “Non Ducor, Duco!”
E um São Paulo que disse “EU!”

E houve uma noite de heroísmo,
Que marcou o teu batismo,
De glória: É por isso que
Tens quatro letras gravadas
Nas quatro estrelas douradas
Do topo: M.M.D.C.

Já a garoa, nosso incenso,
Beija o teu pano suspenso,
Ao teu mastro, que é uma cruz,
Vês? É um altar em cada casa,
Sobre a qual estende a asa,
Rajada de sombra e de luz.

Fala! É preciso que fales
De tudo, de Fernão Sales,
De Cunha, Funel e Buri,
De Etentério [?] da Pedreira,
Do soldado da trincheira
Que só falavam de ti.

Lembra a mulher da cantina,
Do hospital e da Oficina,
Beleza do nosso bem!
E as crianças num sorriso,
Jurando: “Se for preciso
nós partiremos também.”

Recorda a campanha do ouro
Acumulando um tesouro,
Que nunca se esgotará!
Depois a prisão, o exílio,
A saudade, o nobre auxílio,
Da mão distante que dá.

E agora…agora de novo
Abençoado este povo.
Que tanto soube esperar
Esperança dos Paulistas,
Bandeira das treze listras
Desfraldada em cada lar.

Reza a oração que dizia:
– Preto e branco, noite e dia,
Pois dia e noite estarei
Como um apóstolo, soldado,
Gente Paulista a teu lado,
Pela lei e pela Grei.

Também em A Santificada a menção às faixas, já como resultado do conflito de 1932. O nome dado ao poema entra em relação com a cerimônia, promovida pelo Estado Novo getulista em 1937: foi queimada porque não representava ainda São Paulo (que não tinha bandeira oficial), mas o esforço dos paulistas pela Constituição. Junto com a Treze Listras, foram queimadas as bandeiras dos vinte e dois Estados existentes então. Fantam-me fontes, mas parece que a paulista foi a primeira a ser queimada…

É por isso a primeira estrofe: “Tu fostes a condenada. / A reproba incinerada, / Que de um ímpio auto-de-fé, / Deixa na história em resumo, / Negro carvão, branco fumo, / Vermelho flama de fé. / Retemperou-te a fogueira, […]”

A disposição é diferente do primeiro poema: estrofes mais longas, de seis versos, mas densos que quadras. Redondilhas também, mas com rimas AABCCB, marcando um retorno no som.

O último verso, “Pela lei, pela grei”, encontra-se inscrito no monumento que comemora a revolução de 1932 no município de Araraquara. Monumento simbolicamente interessante que, quando for possível, dedicarei a ele uma postagem especial.

P. S.: Somente a título e curiosidade, Júlio Ribeiro era mineiro. Radicado em São Paulo e como já dito mais acima, projetou a bandeira para que fosse o pavilhão nacional. Em 1932, acabou por ser o símbolo dos paulistas pela Constituição.

153. O misterioso caso do hino que não tem música

Escrevendo sobre Guilherme de Almeida e tendo em vista de que um de seus poemas foi adotado como hino oficial do Estado de São Paulo, veio-me à mente outro tópico.

Sim, o poema Hino dos Bandeirantes foi adotado pelo Estado de São Paulo através da lei estadual nº 9.854, de 2 de outubro de 1967, sendo Governador Abreu Sobré e ratificado pela lei nº 337, de 10 de julho de 1974, sob o Governo de Laudo Natel.

Perfeito. Escolheu-se um poema de fundo cívico-histórico muito interessante de uma personalidade literária importante da vida intelectual do Estado. Agora um problema grave: o hino não tem música oficial.

Pode parecer a muitos desimportante esse tipo de questão, ainda mais num país com pretensões unitárias sob o véu de um débil federalismo. Mas é questão de identidade regional, algo que era relativamente forte até algumas décadas atrás e hoje está totalmente esvaziado.

Há várias versões musicais do hino. Aqui, a versão de Sérgio de Vasconcellos Corrêa:

Aqui, a versão de Spártaco Rossi:

Parece que ainda há uma terceira versão, que é a do Prof. Mozart Kail, mas não consegui localizá-la.

É sintomático que o Estado de São Paulo não tenha o seu hino: desde o fim da Revolução de 1932 estimulou-se uma “assimilação”, silenciosa e paulatina. Não duvido que inclusive as grandes migrações internas tenham sido estimuladas justamente com esse intuito. São Paulo forte e coeso mostrou assaz perigoso para os interesses unitaristas da classe política brasileira.

Noves fora, também parece que não há interesse do Governo do Estado em fazer algo pela precária situação do símbolo: nem adotar oficialmente uma das três versões existentes, nem promover um novo concurso e nem trocar o símbolo por outro hino. Dois fortes candidatos seriam O passo do Soldado (também com letra de Guilherme de Almeida) ou o Hino Constitucionalista, marchas consagradas pela Revolução Constitucionalista.

Mas parece que memória e amor pela terra são coisas que andam em extrema falta, para nossa vergonha e opróbrio.

Somos Brasil, mas por que nos é negado o direito de sermos Brasil à nossa moda. Afinal, sabe-se muito bem que a ideia de São Paulo é anterior à constituição do Brasil como estado-nação independente. As ditaduras que se sucederam e as tendências de esquerda atualmente no poder sempre tiveram uma velada ojeriza por São Paulo e parecem que seus estratagemas têm funcionado bem até agora: negando o patriotismo, estimulando os regionalismos que lhes são interessantes, ridicularizando o paulista e o ser paulista.

Atualização de 5/1/2017 – Temos ainda a versão do prof. Mozart Kail.

152. Guilherme de Almeida

Provavelmente uma das maiores almas poéticas do solo paulista mas que, por conta de suas posições políticas e seu viés ideológico regionalista, foi banido do currículo da Academia.

Poeta, crítico de cinema, ensaísta, tradutor. Talvez a sua participação intermitente no movimento modernista seja outro motivo para ser deixado de lado. Mesmo assim, é considerado o primeiro “modernista” a ingressar na Academia Brasileira de Letras, em 1930.

Combateu na Revolução Constitucionalista de 1932, obviamente do lado paulista e dedicou vários poemas ao tema, como Moeda Paulista, feito em lembrança da campanha “Ouro para São Paulo”, para levantar fundos para o fronte de batalha, entre outros. Por conta de sua participação no conflito, foi condecorado com a Medalha da Constituição, honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

Moeda Paulista

Moeda Paulista, feita só de alianças,
feita do anel com que Nosso Senhor
uniu na terra duas esperanças:
feita dos elos imortais do amor!

Quanto vale essa moeda? — Vale tudo!
Seu ouro eternizava um grande ideal:
e ela traduz o sacrifício mudo
daquela eternidade de metal.

Ela, que vem na mão dos que se amaram,
Vale esse instante, que não teve fim,
em que dois sonhos juntos se ajoelharam,
quando a felicidade disse :”SIM”.

Vale o que vale a união de duas vidas,
que riram e choraram a uma só voz
e, simbolicamente desunidas,
vão rolar desgraçadamente sós.

Vale a grande renúncia derradeira
das mãos que acariciaram maternais,
o menino que vai para a trincheira,
e que talvez… talvez não volte mais…

Vale mais do que o ouro maciço:
vale a glória de amar, sorrir, chorar,
lutar, morrer e vencer… Vale tudo isso
que moeda alguma poderá comprar!

Também é de Guilherme de Almeida a Exortação, lido no rádio em 7 de 1932, por César Ladeira.

E também é sua a letra de O Passo do Soldado, uma das canções mais emblemáticas da Revolução de 1932, com música de Marcelo Tupinambá (pseudônimo de Fernando Lobo).

O Passo do Soldado

Marca o passo, soldado, não vês,
Que essa terra foi ele quem fez;
Que seu passo é compasso seguro;
Seu passado, o presente e o futuro.

Vem, soldado, que grande tu és.
Tua terra se atira aos teus pés.
Estremece de orgulho e ergue os braços.
Ergue braços e beira os seus passos.

:| Marcha, soldado paulista,
Marca seu passo na história.
Deixa na terra uma pista,
Deixa um rastilho de glória |: (Bis)

Dono de obra extensa em vários campos da palavra escrita, está sepultado no Mausoléu dos Combatentes da Revolução.

É autor também do Hino dos Bandeirantes, adotado com Hino do Estado de São Paulo, da Canção do Expedicionário (da Força Expedicionária Brasileira que lutou ao lado dos Aliados na Segunda Guerra Mundial).

Também é o introdutor do hai-kai na poesia brasileira.

Há muito de São Paulo em sua obra: um amor à história da sua terra e dos homens que a fizeram. Um bom exemplo é o poema Prece a Anchieta:

Prece a Anchieta

Santo: erguesses a cruz na selva escura;
Herói: plantasses nossa velha aldeia;
Mestre: ensinasses a doutrina pura;
Poeta: escrevesses versos sobre a areia!

Golpeia a cruz a foice inculta e dura;
Invade a vila multidão alheia;
Morre a voz santa entre a distância e a altura;
Apaga o poema a onda espumejante e cheia…

Santo, herói, mestre e poeta: — Pela glória
que destes a esta Terra e a sua História,
Pela dor que sofremos sempre nós.

Pelo bem que quisesses a este povo,
O novo Cristo deste Mundo Novo,
Padre José de Anchieta, orai por nós!

E é isso que se ganha no Brasil por querê-lo melhor: desprezo e esquecimento. Como tantos outros vultos que deram sua vida e o melhor de si somem no mar de vacuidade e no menosprezo que existe pela História e pela Cultura.

A modernidade considera a poesia com tons épicos e com temas históricos algo a ser desprezado. Por isso reina a carência de sentido e a subjetividade extrema, que chega às raias do imcompreensível. Para a modernidade Guilherme de Almeida, o vate paulista, não passa de velharia inútil.

Guilherme de Almeida faleceu em São Paulo capital, em 1969. Sua casa, no bairro paulistano das Perdizes, é hoje um museu dedicado à sua obra e à sua memória. O mínimo que o Estado poderia fazer por aquele que foi o vate da gloriosa gesta paulista de 1932.



Ex-libris de Guilherme de Almeida

151. Amadeu Amaral, “O dialeto caipira”

Amadeu Amaral assombra pela sua capacidade. Autodidata, surpreendeu o meio intelectual com seus dotes de escritor, poeta, folclorista, ensaísta e filólogo. Para o campo do estudo da língua, contribuiu com o fantástico “O dialeto caipira” (1920), um documento importantíssimo que mostra bem o quanto o dialeto do interior paulista evoluiu a ponto de ser um germe de uma nova língua (como a relação entre o neerlandês e o africâner) e também demonstra quanto esse estado de língua acabou por recuar e praticamente desaparecer.

Sua obra está já em domínio público e, por tal, disponho aqui a obra acima mencionada, para deleite dos curiosos e estudiosos. Mais informações sobre o bandeirante da Linguística, a cargo da Wikipédia.

148-bis. Cai o Uruguai na mesma esparrela

O texto que se segue tem relação com a postagem de número 148, “Questões de cultura nacional”, um pouco mais abaixo.

Não é com pouca surpresa que, por mero acidente, descobri que o Banco do Uruguai, na sua nova série de moedas a ser lançada neste ano de 2010, substituiu a efígie de José Artigas, herói nacional do país, com todas as honras possíveis. Em lugar de Artigas, a série trará animais da fauna autóctona cisplatina. Abaixo, o texto extraído do sítio Monedas de Uruguay:

Monedas com animales autóctonos

El martes 11 de enero el Presidente del Banco Central del Uruguay, Mario Bergara, presentará formalmente el nuevo cono monetario uruguayo de monedas con imágenes de animales de la fauna autóctona. Allí se informará sobre su puesta en circulación. Por Resolución D/218/2010 del Directorio del BCU del 12 de mayo de 2010, la Real Casa de la Moneda – Fábrica Nacional de Moneda y Timbre (España) es quien acuñó las piezas de 1 y 2 Pesos Uruguayos, por un precio total de 561.200 Euros, y The Royal Mint (Reino Unido) es responsable de las monedas de 5 y 10 Pesos Uruguayos, por un precio total de 939.700 Libras Esterlinas. Todas llevan fecha 2011. Las proyectadas piezas de 50 Centésimos con la imagen de un Tero no se realizarán debido al retiro de circulación de ese valor facial. Las características de la acuñación son las siguientes:

A. 20.000.000 de monedas de 10 Pesos Uruguayos, con un puma (Puma concolor) pasante sobre sol naciente, en acero con núcleo recubierto de metal electrodepositado amarillo dorado y anillo externo recubierto de metal electrodepositado plateado.

B. 10.000.000 de monedas de 5 Pesos Uruguayos, con un ñandú (Rhea americana), en acero recubierto de metal electrodepositado amarillo dorado.

C. 20.000.000 de monedas de 2 Pesos Uruguayos, con un carpincho (Hydrochoerus hydrochaeris), en acero recubierto de metal electrodepositado amarillo dorado.

D. 20.000.000 de monedas de 1 Peso Uruguayo, con una mulita (Dasypus hybridus), en acero recubierto de metal electrodepositado amarillo dorado.

Este slideshow necessita de JavaScript.

É sem dúvida sintomático que tal decisão tenha sido tomada pelo governo de um ex-guerrilheiro que certamente nutre bronca contra o patriarca uruguaio e tendo-o em contra como ‘elitista’ e ‘oligarca’. É assim que um país se bundaliza. Parabéns, Mujica!