149. Perfeição

Assim que abriu o escritório, sentou-se à prancheta. O primeiro dia de uma longa batalha pela perfeição com borrachas, canetas nanquim e curvas francesas.

Além dos pedidos e obras dos clientes, ia concentrar o tempo vago num projeto próprio: um condomínio que imitasse Veneza: com canais, casas com detalhes neoclássicos e imitando pedra. Ficaria fantástico.

Como o escritório era colado à casa, jantava com a família e retirava-se para a prancheta sobre a qual o facho de luz da luminária era direcionado; todo o resto do escritório ficava à penumbra com sobras alongadas.

Nas pequenas horas da madrugada, a Veneza condominial tomava forma. Canais, sistema de bombas, fachadas das casas, perspectivas coloridas com aquarela. Sobre o papel, o sonho fazia-se ver.

E foram meses assim. Clientes iam e vinham do seu escritório todos os dias, e, à noite, o condomínio brilhava na penumbra.

Certo dia, resolveu enquadrar a planta baixa do condomínio, ricamente detalhada para pendurá-la na parede nua do escritório. Com furadeira, parafuso e buchas, fixou a planta de quase um metro quadrado. Terminado o trabalho e o pó, contemplou satisfeito a planta e seus detalhes de iluminura.

Pela manhã, veio vê-lo um de seus clientes com que tratava a mais tempo, mal o cliente entrara, exclamou: “Mas que magnífico mapa de Veneza…!”; o desenhista tentou explicar que aquilo não era um mapa de Veneza, mas o tópico de conversação já havia mudado para o projeto do cliente.

Quando o cliente se foi, o desenhista procurou na internet um mapa de Veneza e o imprimiu na grande plotter que ocupava um bom canto do recinto.

Cotejou cada detalhe da sua planta com os do mapa e, com incomum serenidade, viu que batiam na dimensão dos centímetros.

Refletiu um pouco, abatido sobre a cadeira; tirou o mapa da parede e todos os desenhos que acumulara naquele quase-ano de trabalho e, no fundo de casa, fez uma fogueira com eles. E com um copo de vinho na mão, ficou vendo a oscilação das chamas até que das plantas não sobrasse mais que cinzas.

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