148. Questões de cultura nacional

Em se tratando de Brasil, é difícil definir um caráter nacional. Toda tentativa de abrangência total é pífia, já se sabe. Resulta em sociofatos que sabem ao gosto dos nossos detestáveis meios de comunicação.

Mesmo assim, existe uma cultura brasileira fragmentária e um ideário relativamente comum que pode ser assim considerado.

Afinal, por que perder tempo com essas questões? Começo assim para tratar de um assunto espinhoso, mas que passa despercebido pela grande maioria das pessoas; comecemos, pois.

I

Há vários sinais de afirmação de uma identidade nacional que se incutem diariamente na nossa vivência. São perceptíveis? Para um observador atento são. Na televisão eles abundam, principalmente em um padrão carioca de brasilidade. Não gosto de brasilidade, mas não vejo outra opção. Um Brasil que ainda tem por capital do Rio de Janeiro, das praias, da malandragem – em menor grau – como patrimônio imaterial da nacionalidade.

A televisão é o maior veículo de uma ideologia nacional não-estatal, se é que assim se pode dizer. Durante o regime militar houve uma ideologia estatal direcionada para o ufanismo, o que deixou uma geração traumatizada com hinos de símbolos nacionais.

Há coisas mais subtis que os meios de comunicação. Coisas que, por exemplo, você pode carregá-las no seu bolso, dentro da sua carteira. Exatamente: o meio circulante; cédulas e moedas.

II

Talvez minha atenção recaia sobre o papel-moeda por conta da minha precoce coleção; junto as notas desde criança e tenho itens de várias nações, o que me dá uma base de comparação razoável.

Vejamos então o caso do papel moeda brasileiro. As primeiras séries do cruzeiro (1942-1967) tinham estampados: Cr$ 1, o Almirante Tamandaré, patrono da Marinha do Brasil; Cr$ 2, o Duque de Caxias, patrono do Exército e herói da Guerra do Paraguai; Cr$ 5, o Barão do Rio Branco, grande diplomata; Cr$ 10, o presidente da República atuante até 1946 e entre 1951-54, Getúlio Vargas; Cr$ 20, o Marechal Deodoro, responsável pela proclamação da República e seu primeiro Presidente; Cr$ 50, a Princesa Isabel, herdeira do Trono e responsável pela assinatura da Lei Áurea; Cr$ 100, Dom Pedro II, último imperador; Cr$ 200, Dom Pedro I, primeiro imperador e responsável pela Independência do Brasil; Cr$ 500, Dom João VI, último monarca português reinante no Brasil e responsável por grandes mudanças institucionais na colônia que passou a ser sede da monarquia; Cr$ 1.000, Pedro Álvares Cabral, navegador tratado como descobridor do Brasil; Cr$ 5.000, Tiradentes, o mártir da Inconfidência Mineira e, finalmente, a cédula de Cr$ 10.000 que mostrava a efígie e Alberto Santos-Dumont, considerado o inventor do avião.

Além dos egrégios vultos na parte da frente das cédulas, no verso havia alegorias fazendo referência ou à vida dos retratados ou de seus atos em prol da pátria.

As séries de cédulas seguiram assim, com algumas exceções, até 1994, com o advento do plano Real, com um novo padrão monetário e uma nova família de cédulas.

Até então, tivemos muita gente homenageada nas cédulas: Carlos Drummond de Andrade (NCr$ 50, 1989-1990), Carlos Chagas (Cz$ 10.000, 1988-1990), Rui Barbosa (Cr$ 10.000/Cz$ 10, 1985-1989), Juscelino Kubitschek (Cr$ 100.000/Cz$ 100,00, 1986-1990), Marechal Rondon (Cr$ 1.000, 1990-1992); e até mesmo gente pouco conhecida como Augusto Ruschi (NCz$ 500/Cr$ 500, 1989-1992).

Ou seja, gente que fez algo pelo país não falta para homenagear.

Agora, analisemos as cédulas do real, vigente desde 1994. A antiga cédula de R$ 1 tinha estampada um beija-flor. A de R$ 2, cédula que, junto com a de R$ 20, são as mais novas da série, mostra uma tartaruga-marinha; a de R$ 5, uma garça; R$ 10, uma arara; R$ 20, um mico-leão-dourado; R$ 50, uma onça-pintada e a de R$ 100, uma garoupa. Exceção feita à cédula comemorativa de R$ 10, confeccionada em polímero, que estampava o rosto de Pedro Álvares Cabral.

O que houve? Trocou-se as personalidades por animais. Grave? Sim, é grave.

A predileção pela natureza física (leia-se aqui conjunto de flora e fauna) de um país, em detrimento de seus vultos históricos é sintoma grave de debilidade das instituições. Não há mais crédito, a História não tem mais valor. Quando se troca Pedro II por um macaquinho ou Marechal Rondon por um peixe, o que se mostra é o descaso e o desrespeito dos Governos para com a História nacional, para com a nacionalidade. Pondo bichos no papel-moeda, nega-se o direito à dignidade do povo. O que um peixe fez ou faz pelo país além de viver nos seus rios e comer minhocas? Nada.

Isso mostra a debilidade moral da nacionalidade. É a negação dos vultos formadores, de tradição ocidental em prol de um multiculturalismo ecológico assaz duvidoso; tal escolha, moralmente ridícula e esteticamente pavorosa: nosso dinheiro parece-se mais com as cédulas do Banco Imobiliário ou do Jogo da Vida. Mas não é característica nossa exclusiva. A África do Sul também se pôs a estampar bichos nas cédulas, como se os big Five tivessem feito, em sua existência semi-consciente e meramente gregária, muito mais pela África do Sul do que jan van Rieebeck, o antigo homenageado cujo rosto ficou associado com o apartheid por aparecer nas velhas cédulas de rand.

Em suma, a quem não vê malefícios em bichos inofensivos estarem estampados nas cédulas, fica a dica: são o apagamento de traços culturais; símbolo máximo das inversão de valores que se vive hoje.

Alguém pode falar das moedas. Mas as moedas, pelo seu baixo valor, pouca gente presta atenção a elas. E também constitui fato curioso de vultos nacionais estamparem itens de tão baixo valor, o que expõe a escala de valores buscada pelo democratismo pós-regime.

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