150. Reflexões da tarde

Hoje à tarde, enquanto ouvia algumas obras de Bach, lia o encarte do disco que trazia a sua biografia. Reparava nas datas 1710, 1709; Bach vivia em 1709, Pachelbel morrera em 1706. Por esses poucos indícios, percebe-se a existência de alta cultura instalada nas Cortes naquele período: as vidas agitadas dos compositores como regentes das orquestras da cortes, mestres-organistas de Igrejas indica a importância deles e de suas ocupações para a sociedade de então. Que fosse de baixo alcance a alta cultura, mas existia.

Penso agora na nossa dobra de mundo vicentina. Em meados do século XVIII, Pedro Taques fez a sua Nobiliarchia Paulistana, uma obra muito preocupada com linhagens e descendências dos primeiros povoadores da capitania de São Vicente. Há ainda as Memórias para a História da Capitania de São Vicente, publicadas pela Academia das Ciências de Lisboa. São os primeiros vislumbres de produção cultural no planalto, se bem que com uma função ainda pesadamente cronista, mas são Taques e Frei Gaspar os primeiros intelectuais paulistas.

No século XVII, enquanto se produziam algumas das grandes manifestações culturais da Humanidade, principalmente na Europa Germânica e na Itália, o Planalto paulista preocupava-se com sua subsistência econômica tão-somente. Não é de se esperar grandes manifestações culturais em condições tão duras de existência.

Literatura e literatos – um importante indício de cultura – só são detectáveis em São Paulo no século XIX e com o advento do Romantismo. O centro dessa mudança: a instalação da Faculdade de Direito. Ou seja, os interesses culturais ou mesmo a existência cultural (o pensamento voltado para uma produção cultural intencional) só passa a existir depois desse marco. Literatos e filósofos no planalto são personalidades novas nas nossas terras altas: não têm mais duzentos anos.

149. Perfeição

Assim que abriu o escritório, sentou-se à prancheta. O primeiro dia de uma longa batalha pela perfeição com borrachas, canetas nanquim e curvas francesas.

Além dos pedidos e obras dos clientes, ia concentrar o tempo vago num projeto próprio: um condomínio que imitasse Veneza: com canais, casas com detalhes neoclássicos e imitando pedra. Ficaria fantástico.

Como o escritório era colado à casa, jantava com a família e retirava-se para a prancheta sobre a qual o facho de luz da luminária era direcionado; todo o resto do escritório ficava à penumbra com sobras alongadas.

Nas pequenas horas da madrugada, a Veneza condominial tomava forma. Canais, sistema de bombas, fachadas das casas, perspectivas coloridas com aquarela. Sobre o papel, o sonho fazia-se ver.

E foram meses assim. Clientes iam e vinham do seu escritório todos os dias, e, à noite, o condomínio brilhava na penumbra.

Certo dia, resolveu enquadrar a planta baixa do condomínio, ricamente detalhada para pendurá-la na parede nua do escritório. Com furadeira, parafuso e buchas, fixou a planta de quase um metro quadrado. Terminado o trabalho e o pó, contemplou satisfeito a planta e seus detalhes de iluminura.

Pela manhã, veio vê-lo um de seus clientes com que tratava a mais tempo, mal o cliente entrara, exclamou: “Mas que magnífico mapa de Veneza…!”; o desenhista tentou explicar que aquilo não era um mapa de Veneza, mas o tópico de conversação já havia mudado para o projeto do cliente.

Quando o cliente se foi, o desenhista procurou na internet um mapa de Veneza e o imprimiu na grande plotter que ocupava um bom canto do recinto.

Cotejou cada detalhe da sua planta com os do mapa e, com incomum serenidade, viu que batiam na dimensão dos centímetros.

Refletiu um pouco, abatido sobre a cadeira; tirou o mapa da parede e todos os desenhos que acumulara naquele quase-ano de trabalho e, no fundo de casa, fez uma fogueira com eles. E com um copo de vinho na mão, ficou vendo a oscilação das chamas até que das plantas não sobrasse mais que cinzas.

148. Questões de cultura nacional

Em se tratando de Brasil, é difícil definir um caráter nacional. Toda tentativa de abrangência total é pífia, já se sabe. Resulta em sociofatos que sabem ao gosto dos nossos detestáveis meios de comunicação.

Mesmo assim, existe uma cultura brasileira fragmentária e um ideário relativamente comum que pode ser assim considerado.

Afinal, por que perder tempo com essas questões? Começo assim para tratar de um assunto espinhoso, mas que passa despercebido pela grande maioria das pessoas; comecemos, pois.

I

Há vários sinais de afirmação de uma identidade nacional que se incutem diariamente na nossa vivência. São perceptíveis? Para um observador atento são. Na televisão eles abundam, principalmente em um padrão carioca de brasilidade. Não gosto de brasilidade, mas não vejo outra opção. Um Brasil que ainda tem por capital do Rio de Janeiro, das praias, da malandragem – em menor grau – como patrimônio imaterial da nacionalidade.

A televisão é o maior veículo de uma ideologia nacional não-estatal, se é que assim se pode dizer. Durante o regime militar houve uma ideologia estatal direcionada para o ufanismo, o que deixou uma geração traumatizada com hinos de símbolos nacionais.

Há coisas mais subtis que os meios de comunicação. Coisas que, por exemplo, você pode carregá-las no seu bolso, dentro da sua carteira. Exatamente: o meio circulante; cédulas e moedas.

II

Talvez minha atenção recaia sobre o papel-moeda por conta da minha precoce coleção; junto as notas desde criança e tenho itens de várias nações, o que me dá uma base de comparação razoável.

Vejamos então o caso do papel moeda brasileiro. As primeiras séries do cruzeiro (1942-1967) tinham estampados: Cr$ 1, o Almirante Tamandaré, patrono da Marinha do Brasil; Cr$ 2, o Duque de Caxias, patrono do Exército e herói da Guerra do Paraguai; Cr$ 5, o Barão do Rio Branco, grande diplomata; Cr$ 10, o presidente da República atuante até 1946 e entre 1951-54, Getúlio Vargas; Cr$ 20, o Marechal Deodoro, responsável pela proclamação da República e seu primeiro Presidente; Cr$ 50, a Princesa Isabel, herdeira do Trono e responsável pela assinatura da Lei Áurea; Cr$ 100, Dom Pedro II, último imperador; Cr$ 200, Dom Pedro I, primeiro imperador e responsável pela Independência do Brasil; Cr$ 500, Dom João VI, último monarca português reinante no Brasil e responsável por grandes mudanças institucionais na colônia que passou a ser sede da monarquia; Cr$ 1.000, Pedro Álvares Cabral, navegador tratado como descobridor do Brasil; Cr$ 5.000, Tiradentes, o mártir da Inconfidência Mineira e, finalmente, a cédula de Cr$ 10.000 que mostrava a efígie e Alberto Santos-Dumont, considerado o inventor do avião.

Além dos egrégios vultos na parte da frente das cédulas, no verso havia alegorias fazendo referência ou à vida dos retratados ou de seus atos em prol da pátria.

As séries de cédulas seguiram assim, com algumas exceções, até 1994, com o advento do plano Real, com um novo padrão monetário e uma nova família de cédulas.

Até então, tivemos muita gente homenageada nas cédulas: Carlos Drummond de Andrade (NCr$ 50, 1989-1990), Carlos Chagas (Cz$ 10.000, 1988-1990), Rui Barbosa (Cr$ 10.000/Cz$ 10, 1985-1989), Juscelino Kubitschek (Cr$ 100.000/Cz$ 100,00, 1986-1990), Marechal Rondon (Cr$ 1.000, 1990-1992); e até mesmo gente pouco conhecida como Augusto Ruschi (NCz$ 500/Cr$ 500, 1989-1992).

Ou seja, gente que fez algo pelo país não falta para homenagear.

Agora, analisemos as cédulas do real, vigente desde 1994. A antiga cédula de R$ 1 tinha estampada um beija-flor. A de R$ 2, cédula que, junto com a de R$ 20, são as mais novas da série, mostra uma tartaruga-marinha; a de R$ 5, uma garça; R$ 10, uma arara; R$ 20, um mico-leão-dourado; R$ 50, uma onça-pintada e a de R$ 100, uma garoupa. Exceção feita à cédula comemorativa de R$ 10, confeccionada em polímero, que estampava o rosto de Pedro Álvares Cabral.

O que houve? Trocou-se as personalidades por animais. Grave? Sim, é grave.

A predileção pela natureza física (leia-se aqui conjunto de flora e fauna) de um país, em detrimento de seus vultos históricos é sintoma grave de debilidade das instituições. Não há mais crédito, a História não tem mais valor. Quando se troca Pedro II por um macaquinho ou Marechal Rondon por um peixe, o que se mostra é o descaso e o desrespeito dos Governos para com a História nacional, para com a nacionalidade. Pondo bichos no papel-moeda, nega-se o direito à dignidade do povo. O que um peixe fez ou faz pelo país além de viver nos seus rios e comer minhocas? Nada.

Isso mostra a debilidade moral da nacionalidade. É a negação dos vultos formadores, de tradição ocidental em prol de um multiculturalismo ecológico assaz duvidoso; tal escolha, moralmente ridícula e esteticamente pavorosa: nosso dinheiro parece-se mais com as cédulas do Banco Imobiliário ou do Jogo da Vida. Mas não é característica nossa exclusiva. A África do Sul também se pôs a estampar bichos nas cédulas, como se os big Five tivessem feito, em sua existência semi-consciente e meramente gregária, muito mais pela África do Sul do que jan van Rieebeck, o antigo homenageado cujo rosto ficou associado com o apartheid por aparecer nas velhas cédulas de rand.

Em suma, a quem não vê malefícios em bichos inofensivos estarem estampados nas cédulas, fica a dica: são o apagamento de traços culturais; símbolo máximo das inversão de valores que se vive hoje.

Alguém pode falar das moedas. Mas as moedas, pelo seu baixo valor, pouca gente presta atenção a elas. E também constitui fato curioso de vultos nacionais estamparem itens de tão baixo valor, o que expõe a escala de valores buscada pelo democratismo pós-regime.

147. À beira do campo

O cavalo podre vem trotando.
Pasta nas volutas infernais,
come da pior grama
o esterco dos outros.

E relincha feio,
com os olhos esbugalhados
atrapalhando o sono alheio.

146. Adios, ríos; adios fontes (Rosalía de Castro)

Esse poema de Rosalía de Castro, é no meu ver, um dos que melhor representa a visão simultaneamente romantizada e realista do emigrante galego. A necessidade o empurra, mas ele tem tempo de observar a natureza das terras galegas e suas paisagens bucólicas. Um motivo central na obra da poetiza galega, que é um dos maiores nomes daquela literatura nacional.

A versão musicada por Amancio Prada é de singular beleza, ornando e valorizando o texto.

Adios, ríos; adios fontes

Adios, ríos; adios, fontes;
adios, regatos pequenos;
adios, vista dos meus ollos:
non sei cando nos veremos.

Miña terra, miña terra,
terra donde me eu criei,
hortiña que quero tanto,
figueiriñas que prantei,

prados, ríos, arboredas,
pinares que move o vento,
paxariños piadores,
casiña do meu contento,

muíño dos castañares,
noites craras de luar,
campaniñas trimbadoras
da igrexiña do lugar,

amoriñas das silveiras
que eu lle daba ó meu amor,
camiñiños antre o millo,
¡adios, para sempre adios!

¡Adios groria! ¡Adios contento!
¡Deixo a casa onde nacín,
deixo a aldea que conozo
por un mundo que non vin!

Deixo amigos por estraños,
deixo a veiga polo mar,
deixo, en fin, canto ben quero…
¡Quen pudera non deixar!…

Mais son probe e, ¡mal pecado!,
a miña terra n’é miña,
que hastra lle dan de prestado
a beira por que camiña
ó que naceu desdichado.

Téñovos, pois, que deixar,
hortiña que tanto amei,
fogueiriña do meu lar,
arboriños que prantei,
fontiña do cabañar.

Adios, adios, que me vou,
herbiñas do camposanto,
donde meu pai se enterrou,
herbiñas que biquei tanto,
terriña que nos criou.

Adios Virxe da Asunción,
branca como un serafín;
lévovos no corazón:
Pedídelle a Dios por min,
miña Virxe da Asunción.

Xa se oien lonxe, moi lonxe,
as campanas do Pomar;
para min, ¡ai!, coitadiño,
nunca máis han de tocar.

Xa se oien lonxe, máis lonxe
Cada balada é un dolor;
voume soio, sin arrimo…
Miña terra, ¡adios!, ¡adios!

¡Adios tamén, queridiña!…
¡Adios por sempre quizais!…
Dígoche este adios chorando
desde a beiriña do mar.

Non me olvides, queridiña,
si morro de soidás…
tantas légoas mar adentro…
¡Miña casiña!,¡meu lar!

Rosalía de Castro (1837-1885)