145. Orígenes Lessa, «O livro do vendedor»

O Vestuario

Está aqui uma questão primordial que quasi ninguem põe reparo.

Como apresentar-se?

É talvez esta a chave de grande numero de fracassos. Ninguem se lembra de que deve haver uma maneira especial ou pelo menos melhor de apresentar-se um vendedor á pessoa com quem pretende tratar.

E isso acontece desde as minimas coisas, a começar pelo vestuario.

Ponha cada um o caso em si e imagine que está no seu escriptorio, trabalhando. Vem alguem e comunica: «-está ahi fora um senhor…» Manda-se entrar. É vendedor. De automoveis, de tintas, pouco importa. O que chama logo a attenção é que elle está com a barba por fazer, ha dois ou tres dias. A impressão é desagradavel. Dá idéa de falta de asseio. Pensa-se logo que elle se esqueceu de tomar aquella manhã o seu banho habitual. A barba por fazer dá sempre essa idéa. ha companhias americanas que não toleram empregados que venham ao trabalho sem ter varrido o rosto com uma gilette ou uma boa navalha ao velho estilo. Isso nos predispõe mal. Descemos os olhos: uma vasta mancha na aba do paletó. Foi sopa ou feijão que cahiu ali e que elle se esqueceu de limpar. A gravata está amarrotada. O paletó, sovado. A calça, redonda, sem vinco, como quem pertence a um homem que desconhece a existência do ferro de engommar e das tinturarias. O sapato não passou perto do nariz de nenhuma engraxate nos ultimos tempos. Está coberto de poeira, sem lustro, tendo na sola uma boca-de-jacaré que as topadas desattentas foram abrindo.

Depois de um exame desses, o homem pode falar. Pode offerecer charutos, perfumes, machinas registradoras, machinas Singer, baratas Ford, o que for, que é trabalho perdido. Acabamos por despedi-lo com um:

– «Tá muito bem. Por agora não precisamos».

LESSA, Orígenes. O livro do vendedor. Bureau-Atlas: São Paulo, s/d (mas certamente anterior a 1943)

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