142. As línguas e a percepção que temos delas

Há alguns dias, dei de cara com um livro de letras de música; acho que era de uma banda de rock americana. O volume, além das letras em inglês tinham sua versão na língua de Camões. Soavam todas completamente estúpidas.

Não credito a estupidez aos compositores ou aos ouvintes da banda. O problema é de cognição linguística. Já me explico.

Voltemos ali, rapidamente, ao primeiro parágrafo. Ali está a tão batida perífrase “língua de Camões”, o expoente máximo da poesia de língua portuguesa. Equivale a dizer “a língua de Dante” para o italiano ou “a língua de Góngora” para o castelhano. Antes de escrever “inglês”, pensei em usar “a língua de Milton”. Não me soou bem.

O que pretendo introduzir pode ser taxado de esteriótipo, mas corresponde a uma verdade parcial e maior do que aparenta ser.

O inglês, como sabemos, tem uma estrutura morfossintática relativamente simples (honi soit…), como podemos deduzir, por exemplo, da conjugação de verbos ou do processo de criação de verbos. Ou ainda, posso citar processos curiosos e simples de criação de adjetivos a partir de formas mistas com aspecto de particípio passado, por exemplo, “blackhaired”, para designar uma pessoa que tem os cabelos negros, ou “blue-eyed”, para alguém que tem olhos azuis.

Expressões assim são possíveis em línguas que são sintaticamente mais maleáveis. O que não é o caso do português. Herdamos um sistema relativamente pesado da tradição latina. Morfemas de modo, tempo e pessoa estão em cada forma conjugada. Isso nos dá uma morfologia muito mais fixa no sentido da criação e uso de termos. Pese ainda de, durante o longo processo de passagem do latim para o português, perdemos a noção de caso de manifestação morfêmica, substituído pela relação de caso através de um certo número de preposições.

Esses fatos dão a um texto em língua portuguesa (e românicas em geral) um certo ar de gravidade, frente a um texto em inglês (germânica), de estrutura mais leve pela concisão (apesar de também não ter mais casos, exceto o genitivo de posse).

As letras de rock traduzidas – infelizmente não vou me lembrar de nenhum exemplo factível – lidas em voz alta, soavam francamente ridículas, como se fossem os balbucios de Arnaldo Antunes, ou até coisa pior. Credito o ‘mau som’ das traduções a essa quebra de estrutura, impossível de transpor ao português.

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