140. Desenho em tinta vermelha

Ele saía de casa todos os dias à mesma hora e ia para o ponto de ônibus; nunca duas vezes no mesmo ponto, mas cada dia em um dos seis ou sete pontos que costumava frequentar. A indumentária básica fazia dele um camaleão de roupa cinza. Levava uma zero-zero-sete e um maço de cigarros no bolso da camisa.

No ponto, ficava observando as pessoas. Para dizer a verdade, ficava observando as mulheres e suas formas; quanto mais arredondadas, mais lhe aprazia. Ficava parado e observava, com a zero-zero-sete no chão, presa entre os pés. Vinha um ônibus e levava boa parte das pessoas. Ele fumava um cigarro. Chegava mais gente. Vinha outro ônibus e levava um pouco mais. Ele acendia um cigarro novo naquele que se extinguia.

Não ficava mais de uma hora. Achando de bom tamanho, o homem pegava sua maleta, olhava para o relógio de pulso – que não tinha bateria há dez anos – e voltava para casa. Na sua habitação decadente, punha-se a desenhar contornos femininos, centenares deles, e colava-os nas paredes. Em um dos cômodos – no qual estava a prancheta de desenho – não se vislumbrava paredes entre tantas coxas, seios e perfis de rostos, todos em traços de tinha vermelha. Não só nas paredes, mas alguns – os mais explícitos – estavam colados no teto. Uma Sistina profana.

À tarde, sentado na mesa da cozinha e observando o vento que, sob o sol, carregava uma nuvem de poeira e sacolas, seu Ovídio pensava em escrever um livro para aquele monte de ilustrações. Chamar-se-ia “A arte de amar”.

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