141. Harrie e uma escultura da praça da Sé

Reinventando algo de Cornelis Jacobus Langenhoven, de quem procuro alguma coisa em inglês para ler e não acho nada.

Andava eu pela praça da Sé, como todo dia: saía do metrô e caminhava pra o ponto de ônibus na Benjamin Constant; de súbito, percebi com maiores detalhes uma escultura que vejo todos os dias; até então via, mas não olhava. Hoje, olhei-a. E escultura é mera força de expressão: consiste a obra em grandes cacos de mármore empilhados, como se fossem restos de um grande vaso. A coisa toda tem cerca de uns três ou quatro metros de altura.

No exato momento em que olho a obra, vejo que estão pousados no cimo pelo menos uns dez pombos. Também percebo que Harrie, com seus olhos paquidérmicos desde algum canto, pergunta se eu gosto da escultura. Reflito uns instantes e respondo-lhe:

— Não sei. Talvez seja uma porcaria sem sentido… mas os pombos gostam…

140. Desenho em tinta vermelha

Ele saía de casa todos os dias à mesma hora e ia para o ponto de ônibus; nunca duas vezes no mesmo ponto, mas cada dia em um dos seis ou sete pontos que costumava frequentar. A indumentária básica fazia dele um camaleão de roupa cinza. Levava uma zero-zero-sete e um maço de cigarros no bolso da camisa.

No ponto, ficava observando as pessoas. Para dizer a verdade, ficava observando as mulheres e suas formas; quanto mais arredondadas, mais lhe aprazia. Ficava parado e observava, com a zero-zero-sete no chão, presa entre os pés. Vinha um ônibus e levava boa parte das pessoas. Ele fumava um cigarro. Chegava mais gente. Vinha outro ônibus e levava um pouco mais. Ele acendia um cigarro novo naquele que se extinguia.

Não ficava mais de uma hora. Achando de bom tamanho, o homem pegava sua maleta, olhava para o relógio de pulso – que não tinha bateria há dez anos – e voltava para casa. Na sua habitação decadente, punha-se a desenhar contornos femininos, centenares deles, e colava-os nas paredes. Em um dos cômodos – no qual estava a prancheta de desenho – não se vislumbrava paredes entre tantas coxas, seios e perfis de rostos, todos em traços de tinha vermelha. Não só nas paredes, mas alguns – os mais explícitos – estavam colados no teto. Uma Sistina profana.

À tarde, sentado na mesa da cozinha e observando o vento que, sob o sol, carregava uma nuvem de poeira e sacolas, seu Ovídio pensava em escrever um livro para aquele monte de ilustrações. Chamar-se-ia “A arte de amar”.

139. Modus operandi

Primeiro parei de ler jornais – quando ainda me definia como ‘admirador da esquerda’. Achava que todos os jornais mentiam e que a ‘Rolha’ e o ‘Estrago de São Saulo’ queriam ver Antônio Ermírio presidente da República.

Hoje, abstenho-me ainda da televisão e sua indigesta sopa de desgraças. Toda imagem que dela emana, recende a sangue e flato. É impossível que num país tão grande como o nosso, só ocorram desgraças.

Abstenho-me dessas notícias pela minha saúde mental. Hoje observo os relógios do terminal rodoviário como quem vê a Terra girar solta no espaço. Leio e vejo somente o que me interessa; aplaudo o que me agrada, rio da pretensa seriedade e gravidade alheias. Se políticos e figuras públicas fazem o que querem, ¿para que precisam da minha ciência?

Atualmente, preocupo-me em juntar dinheiro para 1) não precisar  mais trabalhar dentro de quinze ou vinte anos e 2) comprar um sítio e enfiar-me lá com a minha esposa, meus livros e meus bichos.

138. Dicionário sentimental: Dignidade

Inspirado pelo benfazejo espírito de Giorgio Gaber.

É fácil definir uma existência mais pelo que falta nela do que com aquilo que a forma. O que existe torna-se invisível com o tempo e não cuidamos mais. Não me refiro a nada material; a falta do material chega a ser contornável. Refiro-me a uma abstração que não pode ter uma definição dicionarizada – às vezes os dicionários não nos valem de nada – mas somente demonstrando – ou tentando fazê-lo – a sua existência. Ou melhor, a sua inexistência.

Trata-se de dignidade, outra palavra absolutamente desgastada apelo senso comum. Ou aparece somente como rima de samba ou pagode, num contexto falto de significado – a busca das rimas vagabundas; ou tem seu sentido totalmente invertido.

Hodiernamente, associa-se a dignidade à vida tranquila. Ou seja, você tem a sua casinha, o seu emprego, as suas pernas, o seu telefone celular de última geração, não precisa de ajuda para ir ao banheiro… E isso tudo faz de você um ser humano digno.

Porém, qual o preço de manter essa pseudodignidade? Alto. Implica na perda da dignidade real; sem afobação: a dignidade real define-se por contraste tão-somente. Esse adjetivo real dá espaço até para uma brincadeira: a única pessoa com uma acerta dignidade, eu diria ser a rainha Elizabeth. E aí nem colocaria outro monarca: o rei da Espanha parece-me um pouco parvo – justiça seja feita ao fatídico pronunciamento do 23 de fevereiro de 1981 – o rei da Bélgica e a rainha dos Países Baixos são quase inexistentes, o mesmo é aplicável aos reis da Suécia e Noruega – pois é, a Noruega é uma monarquia – só Betinha se salva.

Vamos lá. Para manter a sua pseudodignidade, você tem de trabalhar. Geralmente, são oito horas por dia, com uma para o almoço. Nove horas. Contabilizo nove porque essa hora de pausa continua contaminada pela atividade do trabalho, principalmente quando você vai almoçar com os colegas de penúria. Mora longe? Certamente. Hoje em dia, principalmente nos grandes centros, é difícil morar perto do trabalho. Digamos que você gaste uma hora e meia de deslocamento, uma e meia para ir e outra uma e meia para voltar; três horas. Somadas às nove de trabalho efetivo, são doze horas.

Para poder viver com uma certa paz, oito horas de sono são religiosamente necessárias. Menos, você se torna um zumbi e os zumbis do sono têm a dignidade real ainda menor do que a média da população. Dormindo oito horas, com mais as doze de trabalho e deslocamento, sobraram quatro horas. Desconte ainda banho, café da manhã, jantar. Menos uma hora se você for rápido. Sobraram três.

Mora com a família. Que bonito. Saiba que o tempo perdido com conversa fiada pode exceder a uma hora e meia. Afinal, você chega, o jantar ainda está por sair. O “já está quase pronto” da sua esposa ou da sua mãe vai levar pelo menos meia hora. Ou você assistira aos deprimentes telejornais – não há nada melhor na faixa horária entre as 7 e as 9 da noite – ou vai conversar com o seu pai, irmão, ou quem quer que seja, sobre… nada! Sobre conversa fiada: tempo, futebol, mesquinharias, preços dos víveres, das ferragens, fofocas da vizinhança. Fora a conversa após a janta.

Em suma. Vai sobrar-lhe pouco mais de uma hora. O que você faz em uma hora? Bem, você pode dormir… ler algumas páginas de um livro. Isso se não aparecer alguma outra questão mais premente por alguém da casa: algo que se quebra, algo que tem de ser visto… você pode usar o tempo para ler na condução, se isso não lhe der enjoo, claro está.

Você não tem tempo. Onde fica a sua dignidade?

Você tem um emprego que lhe ocupa nove horas. Você chega de manhã, mal despe a blusa – se frio estiver – e já lhe vêm com uma pilha de coisas para resolver até o meio-dia, porque é urgente. Tudo que vem precedido ou seguido por urgente dá-me engulhos. A vontade é de deixar apodrecer o cadáver até que os vermes façam seu trabalho derradeiro. Mas não. Você precisa do emprego, então aceitará ser psicológica e laboralmente sodomizado pelas chefias. Você corre a manhã toda, deixa tudo pronto. Meio-dia e aquilo tudo está pronto; vá lá: corra e avise o chefe. Você bate na porta, põe a cabeça pela porta entreaberta e anuncia ao mandatário de que a tarefa que lhe fora confiada pela manhã… está pronta e a tempo!

O chefe ergue os olhos cansado e envoltos numa camada dupla de gordura e lhe diz: “ótimo, mande alguém embrulhar porque às três e meia vem o motoboy buscar”. Nem um obrigado e nem para tão já. Perdeu paciência e gastou as artérias correndo igual a um coelhinho a pilha – o do tamborzinho, lembra? – para ser tratado igual a um pedaço sórdido de matéria fecal.

Você vai almoçar. Por tanta raiva, a comida nem desce direito. Você volta e, na parte da tarde, trabalha um pouco mais devagar, sem tanta pressão, para compensar o corre-corre da manhã. Por volta das quatro horas, o chefe sai do seu báratro e caminha em direção à sua mesa, com um copo de café – nunca se iluda: o cafezinho é o álibi perfeito das maiores desgraças corporativas – encosta na sua mesa como quem não quer nada. Fala do tempo, da chuva e do sol – outro mau prenúncio – diz que o mercado de trabalho assemelha-se muito às condições atmosféricas – lá vem… Uns instantes de silêncio. Ele subitamente lembra-se daquele projeto com os japoneses e que eles querem um relatório para… amanhã. Veja só que coincidência, ele estava com a pasta do projeto na outra mão – você ficou olhando para o copo de café, viu, tonto? E pede – pedir aqui, note-se, tem um valor irônico – se você pode – quanta sutileza! – responsabilizar-se por aquela tarefa.

É óbvio que você diz que sim. Ah, os chefes: todos psicólogos sem diploma, reis na engenharia reversa. Falam do tempo, dos trovões e das tarefas. Se você disser não, o trovão racha sua cabeça. Você vai fazer serão e vai chegar em casa onze horas da noite. Vai cair na cama feito um paquiderme e vai dormir mal e acordar cedo de novo.

Você precisa do emprego. Onde fica a sua dignidade?

Você precisa do dinheiro que vem do emprego. E claro são necessárias mais coisas e é para isso que serve o dinheiro. O problema é que o dinheiro nunca dá: você paga as contas, compra comida e sobra (?) o mínimo. Uns cinquenta reais. Só que você quer um celular novo com recursos que você sequer sabe para que servem; um computador moderno e veloz com uma conexão rápida a internet… é que os vídeos educativos são pesados e você tem vergonha de comprar os piratas no camelô, ali junto da estação Anhangabaú. Passa olha, finge que está vendo outra coisa e se escapa; ou você acha que as pessoas não percebem?

E para tantas necessidades, você precisa recorrer ao crediário. Parcelas que comprometerão ainda mais um pedaço do seu magro soldo. Aqueles cinquenta reais de crédito que sobravam… puff! São sobram mais. Aparece um déficit mensal de duzentos reais. Ah, a salvação do cheque especial. A salvação regida pelo diabo.

Você se embola com as finanças pessoas, embola-se com o banco, embola-se com os carnês e faturas. Tem as coisas mas só tem preocupações; esqueceu de pagar? O Serasa o lembrará.

Você precisa do dinheiro e das coisas. Onde fica a sua dignidade?

Ah, um sábado! Você acorda às dez e tem planos para o dia: um shopping, um cineminha. Vê os e-mails e sai de casa. Parece que todo o mundo teve a mesma ideia que você. O shopping está mais cheio que quermesse. Fila no cinema. Você anda tendo de desviar das pessoas; metrô lotado, ônibus cheio em pleno sábado. No fim da tarde, chuva. E você deixou o guarda-chuva em casa…

Volta para casa com raiva, molhado e já são nove horas da noite. Você não fez nada.

Mesmo durante a semana, você nem repara pelos lugares onde passa. Pode ser que passe do lado da Catedral da Sé e nunca se demorou um pouco mais olhando apara o alto, vendo os pináculos da catedral; ou da Basílica de São Bento, da Estação da Luz. Você passa como todo o mundo e não vê nada; se não vê beleza, pelo menos atente o que pode, por algum acaso cair na sua cabeça.

Você anda por aí, com essa cara de nada. Aquela mulher ali, que tem o rosto redondo como a superfície de uma panela de polenta e dois olhos saltados, como bolas de isopor emersas da mesma polenta. Usando seu celular caríssimo para massacrar a orelha de um atendente das Casas Bahia, dentro do metrô cheio, com um cotovelo no rim e alguém passando-lhe sabe-se lá qual membro nas costas.

Você teve seu tempo roubado. Onde fica a sua dignidade?

E você, empregado, cheio de coisas, sempre atarefado, com pressa, vem me falar de dignidade? Ora, passe amanhã!