136. Caim

Um cachorrinho malhado abanava o rabo e exibia-se com gracejos e manhas na calçada cheia de gente; o máximo que alcançava era a indiferença das pessoas. As crianças paravam para vê-lo, mas logo eram puxadas pelos adultos e o cachorrinho terminava enxotado por pés furiosos. Tristonho, sentou-se num canto e pôs-se a descansar.

Pouco tempo depois, passou por aquela calçada um homem de olhos simpáticos. Apesar de o cãozinho ter detectado a simpatia – o homem vinha assoviando – resolveu ficar na retaguarda; já ganhara uns bons safanões e estava cansado. Mas que surpresa quando o homem veio em sua direção com o rosto sorridente! Saiu a fazer-lhe festa.

O homem pegou-o no colo – afinal, era um pequeno filhote – e afastaram-se daquela calçada. Calçada nunca mais.

Apesar do aconchego do novo lar, o cãozinho uivou e chorou noite adentro. De que lhe valiam a caixa de papelão forrada com um lençol velho ou as cuias de comida e água? Era um lugar estranho e o homem, depois de acomodá-lo ali, foi-se embora. Dormiu de cansaço.

Na manhã seguinte, reapareceu o homem. Trocou a comida e a água. Espero que o cão comesse. E dizia em voz alta: “Você precisa de um nome…”. Parece fácil dar nome para cachorro; às vezes o nome vem rápido, outras não. O homem morava sozinho; se houvesse uma criança em casa, a questão seria solucionada rapidamente.

O homem observava o pequeno cachorro que se dedicava a devorar ruidosamente restos de comida. “Você chorou a noite toda, hem, pequeno? Caim, caim, caim… a noite toda… acho que vou pôr você para dormir comigo….”. O cão, quando ouviu a imitação de seu choro, latiu para o homem, que quis ver nisso um gracejo do cão. Um repetia ‘caim, caim’ e o outro latia fininho. “Já sei! Você vai se chamar Caim… combina com você…”.

À noite, depois de brincar pela casa com o homem, a caixa de papelão forrada e o jornal foram postos no chão do quarto. O homem deitou-se na cama; Caim ficou quieto na sua caixinha e dormiu a noite toda. De manhã, o homem sentiu que algo pinicava-lhe a mão caída para fora da cama… era Caim que acordara primeiro e mordiscava diligentemente a mão exposta.

Passavam já quinze anos desde o primeiro encontro entre Caim e o homem na calçada suja e movimentada. Caim cresceu e tornou-se um cachorro de tamanho médio; o homem envelheceu um bocado. Todos os dias – menos quando chovia – o homem levava Caim para passear pelo bairro, de coleira. Um cachorro amável e brincalhão; as crianças o adoravam e ele também gostava das crianças.

Passeavam por um caminho fixo ao qual tanto o homem quanto Caim acostumaram pés e patas; um dia, um puxão diferente na guia da coleira… iam mudar de caminho. Atravessaram a rua e subiram a ladeira; ele nunca passara por ali, exultava com a cauda.

Ia caminhando à frente do dono quando, de súbito, reconheceu alguma coisa no seu entendimento canino do mundo: aquele calçamento… aqueles pés… estava novamente na calçada de onde foi recolhido; parou de abanar a cauda. E por algum motivo que lhe era desconhecido, o homem parou de andar. Caim estacou assustado e olhou ao redor; olhou para cima, para ver o dono, e viu que ele tinha as duas mãos à altura do peito e emitia um gemido contínuo… Caim começou a ganir; pressentiu algo.

O homem primeiro caiu de joelhos; tinha no rosto um esgar de dor e a última coisa que viu foi o desespero de do cachorro. Ficou caído de bruços, com o rosto voltado para a direita. Caim começou a latir loucamente, sabia que tinha algo errado. Com as patas, raspava as costas e o braço do homem; e gania. O homem ainda respirava Começou a juntar gente; a primeira pessoa que tentou se aproximar, um senhor gordo, foi repelido por Caim que se transformara numa fera. Outra pessoa tentou aproximar-se, outro homem, foi violentamente repelido do mesmo jeito, pelos mesmos caninos arreganhados. Caim agora era rosnados e dentes arreganhados.

Várias pessoas tentaram espantá-lo, mas a sua inaudita ferocidade deixou as pessoas pasmas: “Olha, mas não é aquela cachorro da rua de baixo…? Que era tão calminho?”. O homem parara de respirar. Com caniços, paus e pedras tentaram tirar o cachorro dali, em vão. TIveram de chamar, além do resgate, a carrocinha. Caim prosseguia ao lado do cadáver do homem, em guarda e rosnando, com os pelos das costas, até então sinal de placidez, em riste como uma touça de palitos de dente.

Antes da ambulância, chegaram os laçadores do centro de zoonoses; aproximaram-se com seus laços reforçados e, de um golpe, conseguiram pegar o cachorro que se estorcia de ódio entre ganidos e latidos infernais. As pessoas assistiam àquilo tudo estarrecidas.

Chegou o caminhão da Medicina Legal: a ambulância já não adiantava mais. Depois de tanta luta para defender o homem, Caim deixou-se cair com o último latido lancinante. A última coisa que viu foi uma centena de pés calçados.

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