133. Viajando

Estação da Luz, São Paulo/SP

Vivre, vivre
Même sans soleil, même sans été
Vivre, vivre
C’est ma dernière volonté

(Vivre/Laat me, Ramses Shaffy)

As viagens que faço são quase sempre de ônibus. E à noite. Gosto da sensação de estar fugindo; não sei de quê e nem para quê, mas gosto. Chegar ao guichê nos últimos momentos do dia civil e pedir uma poltrona no último ônibus.

Aproveito bem alguma frugal refeição em um dos restaurantes da rodoviária, u’a massa e uma cerveja long neck; ou, se não estiver lá com muita fome (sempre há a possibilidade de comer no meio do caminho, na parada que o ônibus faz), tomo uma xícara de café no café mais vazio que houver. Esse é meu critério maior: lugares vazios ou com o mínimo de gente possível. Sempre há nesses cafés os jornais do dia e, como já é fim do dia, vejo as notícias velhas como quem vê uma novidade, afinal, fiquei o dia todo preso num cubículo de paredes pintadas em tons claros e indeterminados e não sei de absolutamente nada. Vejo quem bombardeia quem, quem pressiona quem, qual agremiação política esperneia mais, o que o governo fez de ruim.

São já horas de meter-se no ônibus. Desço até as plataformas e busco a que coincide com o meu bilhete. Entrego bilhete de ônibus e de identidade ao motorista que, sem olhar na minha cara, confere os dados que eu autografei no bilhete do ônibus com o da minha identidade. “Boa viagem”. Acomodo minha única mala no bagageiro superior e sento-me no assento marcado no bilhete; preferencialmente na janela. Reclino o banco.

O ônibus sai. Invade-me novamente a deliciosa sensação de estar fugindo. O ônibus navega na avenida cheia de carros ainda, as lanternas lançam luz avermelhada para dentro do ônibus; mas logo vem o viaduto e um estranho obelisco: é o começo da estrada. A escuridão toma conta do interior do ônibus; as poucas luzes de leitura acionadas não interferem em nada. A cidade e suas neuras vão ficando longe, tanto em distância quanto em existência. Mais para frente, quando o ônibus navega entre os campos, junta-se o escuro que vem de fora; às vezes há lua, outras não. Somente o doce ronronar do ônibus faz-se ouvir, como um gatinho gentil e peludo. A simples sensação que o ônibus vara a escuridão; uma escuridão que passa pela outra, a impressão de que navega pelo mar de terra, entre campinas, montes e vales de rios.

Naquele ônibus, sou apenas mais um, sem nome, sem passado: uma ossada recoberta dos correspondentes músculos e tendões. Deixo as placas contarem-me dos lugares e marcar a quilometragem. É algo que me acalenta, é algo que, no meio da escuridão, faz com que me sinta vivo. Estranhamente vivo.

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