137. Cinema

Vi tantos nomes e sobrenomes
que parecem todos conhecidos.
E tantos rostos febris,
um turbilhão de narizes;
uma pilha de sapatos
junto à porta do cinema:
ele nunca pegou fogo.

Giorgio Gaber: «Eppure sembra un uomo»

A música que bem cabe como trilha sonora para o ser humano.

Eppure sempra un uomo (G. Gaber, 1970)

Eppure sembra un uomo
vive come un uomo
soffre come un uomo
è un uomo.

Nasce fragile e incerto
poi quando ha la ragione
si nutre di soprusi e di violenza
e vive e non sa il perché della sua esistenza.

È così compromesso
con ogni compromesso
che oramai più nulla né sente né vede
e il compromesso è l’unica sua fede.

Eppure sembra un uomo
vive come un uomo
soffre come un uomo
è un uomo.

Sul muro c’era scritto:
“alzateci il salario!”
l’ha cancellato un grande cartellone
con scritto: “Costa meno il mio sapone”.
Hanno arrestato un ragazzo
che aveva rubato tre mele…
vi prego, fate un po’ di beneficenza
sarete in pace così con la vostra coscienza.

Eppure sembra un uomo
vive come un uomo
soffre come un uomo
è un uomo.

In ditta c’è un salone
lavorano mille persone…
per me è già difficile la vita in due
e credo che prima o poi ci divideremo.
Mio padre è mio padre
mio padre è un brav’uomo
mio padre tratta tutti da cretini:
i vecchi bisogna ammazzarli da bambini.

Eppure sembra un uomo
vive come un uomo
soffre come un uomo
è un uomo?
È un uomo!

136. Caim

Um cachorrinho malhado abanava o rabo e exibia-se com gracejos e manhas na calçada cheia de gente; o máximo que alcançava era a indiferença das pessoas. As crianças paravam para vê-lo, mas logo eram puxadas pelos adultos e o cachorrinho terminava enxotado por pés furiosos. Tristonho, sentou-se num canto e pôs-se a descansar.

Pouco tempo depois, passou por aquela calçada um homem de olhos simpáticos. Apesar de o cãozinho ter detectado a simpatia – o homem vinha assoviando – resolveu ficar na retaguarda; já ganhara uns bons safanões e estava cansado. Mas que surpresa quando o homem veio em sua direção com o rosto sorridente! Saiu a fazer-lhe festa.

O homem pegou-o no colo – afinal, era um pequeno filhote – e afastaram-se daquela calçada. Calçada nunca mais.

Apesar do aconchego do novo lar, o cãozinho uivou e chorou noite adentro. De que lhe valiam a caixa de papelão forrada com um lençol velho ou as cuias de comida e água? Era um lugar estranho e o homem, depois de acomodá-lo ali, foi-se embora. Dormiu de cansaço.

Na manhã seguinte, reapareceu o homem. Trocou a comida e a água. Espero que o cão comesse. E dizia em voz alta: “Você precisa de um nome…”. Parece fácil dar nome para cachorro; às vezes o nome vem rápido, outras não. O homem morava sozinho; se houvesse uma criança em casa, a questão seria solucionada rapidamente.

O homem observava o pequeno cachorro que se dedicava a devorar ruidosamente restos de comida. “Você chorou a noite toda, hem, pequeno? Caim, caim, caim… a noite toda… acho que vou pôr você para dormir comigo….”. O cão, quando ouviu a imitação de seu choro, latiu para o homem, que quis ver nisso um gracejo do cão. Um repetia ‘caim, caim’ e o outro latia fininho. “Já sei! Você vai se chamar Caim… combina com você…”.

À noite, depois de brincar pela casa com o homem, a caixa de papelão forrada e o jornal foram postos no chão do quarto. O homem deitou-se na cama; Caim ficou quieto na sua caixinha e dormiu a noite toda. De manhã, o homem sentiu que algo pinicava-lhe a mão caída para fora da cama… era Caim que acordara primeiro e mordiscava diligentemente a mão exposta.

Passavam já quinze anos desde o primeiro encontro entre Caim e o homem na calçada suja e movimentada. Caim cresceu e tornou-se um cachorro de tamanho médio; o homem envelheceu um bocado. Todos os dias – menos quando chovia – o homem levava Caim para passear pelo bairro, de coleira. Um cachorro amável e brincalhão; as crianças o adoravam e ele também gostava das crianças.

Passeavam por um caminho fixo ao qual tanto o homem quanto Caim acostumaram pés e patas; um dia, um puxão diferente na guia da coleira… iam mudar de caminho. Atravessaram a rua e subiram a ladeira; ele nunca passara por ali, exultava com a cauda.

Ia caminhando à frente do dono quando, de súbito, reconheceu alguma coisa no seu entendimento canino do mundo: aquele calçamento… aqueles pés… estava novamente na calçada de onde foi recolhido; parou de abanar a cauda. E por algum motivo que lhe era desconhecido, o homem parou de andar. Caim estacou assustado e olhou ao redor; olhou para cima, para ver o dono, e viu que ele tinha as duas mãos à altura do peito e emitia um gemido contínuo… Caim começou a ganir; pressentiu algo.

O homem primeiro caiu de joelhos; tinha no rosto um esgar de dor e a última coisa que viu foi o desespero de do cachorro. Ficou caído de bruços, com o rosto voltado para a direita. Caim começou a latir loucamente, sabia que tinha algo errado. Com as patas, raspava as costas e o braço do homem; e gania. O homem ainda respirava Começou a juntar gente; a primeira pessoa que tentou se aproximar, um senhor gordo, foi repelido por Caim que se transformara numa fera. Outra pessoa tentou aproximar-se, outro homem, foi violentamente repelido do mesmo jeito, pelos mesmos caninos arreganhados. Caim agora era rosnados e dentes arreganhados.

Várias pessoas tentaram espantá-lo, mas a sua inaudita ferocidade deixou as pessoas pasmas: “Olha, mas não é aquela cachorro da rua de baixo…? Que era tão calminho?”. O homem parara de respirar. Com caniços, paus e pedras tentaram tirar o cachorro dali, em vão. TIveram de chamar, além do resgate, a carrocinha. Caim prosseguia ao lado do cadáver do homem, em guarda e rosnando, com os pelos das costas, até então sinal de placidez, em riste como uma touça de palitos de dente.

Antes da ambulância, chegaram os laçadores do centro de zoonoses; aproximaram-se com seus laços reforçados e, de um golpe, conseguiram pegar o cachorro que se estorcia de ódio entre ganidos e latidos infernais. As pessoas assistiam àquilo tudo estarrecidas.

Chegou o caminhão da Medicina Legal: a ambulância já não adiantava mais. Depois de tanta luta para defender o homem, Caim deixou-se cair com o último latido lancinante. A última coisa que viu foi uma centena de pés calçados.

135. Dobre

Sobre os telhados cansados
apoia-se a velha torre;
o seu olho de ponteiros
marca a cadência da vida.
Encimado por uma cruz,
o bronze dobra em resposta.

“…talvez sim, talvez não;
se diz talvez…”

A vila dobra-se em si.
As resposta sem perguntas
ao povo que abaixo vaga.
Os tijolos suam sono,
recolhe-se o povo à casa;
voltam a névoa e a noite;
a voz do bronze prossegue:

“…talvez sim, talvez não;
se diz talvez…”

134. Noções basilares/Museu

Noções basilares

As bases da sociedade
é a poeira dos mortos.

Cuidado ao bater os tapetes.

* * *

Museu

Aquele ar
sem alento
imortalizado
no acrílico.

133. Viajando

Estação da Luz, São Paulo/SP

Vivre, vivre
Même sans soleil, même sans été
Vivre, vivre
C’est ma dernière volonté

(Vivre/Laat me, Ramses Shaffy)

As viagens que faço são quase sempre de ônibus. E à noite. Gosto da sensação de estar fugindo; não sei de quê e nem para quê, mas gosto. Chegar ao guichê nos últimos momentos do dia civil e pedir uma poltrona no último ônibus.

Aproveito bem alguma frugal refeição em um dos restaurantes da rodoviária, u’a massa e uma cerveja long neck; ou, se não estiver lá com muita fome (sempre há a possibilidade de comer no meio do caminho, na parada que o ônibus faz), tomo uma xícara de café no café mais vazio que houver. Esse é meu critério maior: lugares vazios ou com o mínimo de gente possível. Sempre há nesses cafés os jornais do dia e, como já é fim do dia, vejo as notícias velhas como quem vê uma novidade, afinal, fiquei o dia todo preso num cubículo de paredes pintadas em tons claros e indeterminados e não sei de absolutamente nada. Vejo quem bombardeia quem, quem pressiona quem, qual agremiação política esperneia mais, o que o governo fez de ruim.

São já horas de meter-se no ônibus. Desço até as plataformas e busco a que coincide com o meu bilhete. Entrego bilhete de ônibus e de identidade ao motorista que, sem olhar na minha cara, confere os dados que eu autografei no bilhete do ônibus com o da minha identidade. “Boa viagem”. Acomodo minha única mala no bagageiro superior e sento-me no assento marcado no bilhete; preferencialmente na janela. Reclino o banco.

O ônibus sai. Invade-me novamente a deliciosa sensação de estar fugindo. O ônibus navega na avenida cheia de carros ainda, as lanternas lançam luz avermelhada para dentro do ônibus; mas logo vem o viaduto e um estranho obelisco: é o começo da estrada. A escuridão toma conta do interior do ônibus; as poucas luzes de leitura acionadas não interferem em nada. A cidade e suas neuras vão ficando longe, tanto em distância quanto em existência. Mais para frente, quando o ônibus navega entre os campos, junta-se o escuro que vem de fora; às vezes há lua, outras não. Somente o doce ronronar do ônibus faz-se ouvir, como um gatinho gentil e peludo. A simples sensação que o ônibus vara a escuridão; uma escuridão que passa pela outra, a impressão de que navega pelo mar de terra, entre campinas, montes e vales de rios.

Naquele ônibus, sou apenas mais um, sem nome, sem passado: uma ossada recoberta dos correspondentes músculos e tendões. Deixo as placas contarem-me dos lugares e marcar a quilometragem. É algo que me acalenta, é algo que, no meio da escuridão, faz com que me sinta vivo. Estranhamente vivo.

132. Inverno em São Paulo

O inverno reina lá fora. / Dentro, reina toda hora / o insuportável calor / que vem da grei toda junta.

A indiferença alanceia o ânimo.

131. Política de imagens

É por isso, meus caros, que trabalhamos com a deformação da imagem, a característica tácita da contemporaneidade ou da pós-modernidade, seja lá o que esses dois conceitos possam eventualmente significar. A maioria ignara marcha à menor mudança de cor. Mudemos uma cor e o planeta girará diferente. Mas somos mais pelas mudanças sutis, pois são elas que marcam o subconsciente; são indeléveis e não causam revoltas. Por isso que trabalhamos com o padrão cromático da publicidade – forma e cor; nunca se pensou que duas coisas tão triviais poderiam influenciar o ser humano; mas, justamente pelo bombardeio diário de publicidade e de imagens cambiantes, o trabalho é facílimo; o resultado vê-se rapidamente. É isso que fazemos: mexemos com imagens; com todas elas.