127. História de prédios desconhecidos

Sempre quando entro em ambientes novos, reparo mais na forma que têm do que naquilo que contêm. Objetos dispostos são sempre secundários. Vejo os pedreiros levantando as paredes enquanto trocam impressões da última rodada do campeonato de futebol e fumam cigarro barato, os pintores com seus chapéus de jornal e ouvindo um prosaico rádio a pilha e, por fim, o marceneiro, ao qual lhe faltam dois dentes dianteiros, que vem pôr os rodapés. Somente depois vêm entregadores com caixas de móveis e montadores. É a última parte.

* * *

Trabalhei em alguns lugares, mas o prédio que mais me traz lembranças é aquele ocupava a empresa que me deu o primeiro emprego. Para ser mais fiel à memória, meu primeiro emprego dividiu-se entre dois lugares; quando fiz a entrevista (cabe dizer que foi a única entrevista da iniciativa privada até hoje em que fui aprovado, possivelmente por inaptidão da entrevistadora), a empresa ocupava um galpão na zona leste, relativamente estreito e com um pátio grande que lhe servia de estacionamento; tão grande que um helicóptero pousaria ali sem problemas; logo quando fiz a entrevista, a minha futura chefe informou-me: “Olha, estamos prestes a nos mudar… vamos para um prédio perto de Santo Amaro… tem algum problema?”. Alguém que esteja precisando de um emprego – ou de um estágio curricular obrigatório – como era o meu caso, não tem muitas restrições: “Não, problema nenhum”. Foram quinze dias contados nesse galpão que me era de muito fácil acesso.

É do prédio número dois que quero falar, o prédio “quase em Santo Amaro” e que na verdade estava perdido nas travessas da avenida Cupecê; prédio no qual trabalhei – e olhei para o teto algumas vezes – durante quase dois anos. Para dar uma idéia, eram dois prédios, uma espécie de complexo empresarial pobretão; um deles dividido no meio, justamente o prédio onde estavam os escritórios da empresa. Dos dois prédios, a empresa ocupava essa metade e o outro ao lado. Nos meses que antecediam a Páscoa, uma fábrica de chocolate ordinário alugava temporariamente a metade vazia e, na hora do almoço, víamos as moças com os cabelos presos em toucas tomando sol. O prédio contíguo, separado por um corredor interno, era somente um galpão de pé-direito alto, usado como garagem e que os pombos usavam também como dormitório e banheiro.

Não custa dizer que ambos os prédios haviam sido terminados recentemente. Não exatamente terminados no sentido estrito do termo: haviam sido entregues para o uso e seu aspecto imperfeito denunciava a pressa da conclusão e a má-qualidade da mão-de-obra. Rebarbas, imperfeições, juntas imensas pelas quais passavam dois dedos; tudo em magníficas vigas pré-moldadas e paredes de bloco aparente pintadas de látex vagabundo por dentro e caiadas por fora. Penso que o proprietário somente não caiou o prédio por dentro porque, onde quer que encostássemos, ficaríamos brancos de cal.

Quando cheguei às repartições internas do edifício, os móveis já estavam no lugar. A displicência nos acabamentos permitiam-me ver quem os fizera. Gente contratada às pressas e que fez o serviço às pressas. As divisórias todas tinham jogo, assim como os espelhos dos interruptores estavam bambos. Aliás, toda a fiação – elétrica e de rede – corria por canos metálicos externos e por canaletas. Para que o luxo de condutores embutidos?

O chão era um capítulo a parte: ondulações a perder de vista, volta e meia visitadas pelo bico do sapato ou do tênis dos desavisados. Isso porque era o chão todo revestido de forração cinza, aquele quase-carpete. Tudo: salas, corredores; só os banheiros escapavam, tinham um piso cujo aspecto de sujo nada tirava. Depois de alguns meses, rasgos generosos começaram a aparecer pela forração ali e acolá, deixando entrever o cimentado rústico dos pisos ou o contra-piso sem-vergonha que havia sobre as lajes. Claro, era um edifício de térreo e mais dois andares.

Essa empresa, cheia de gente, certo dia, começou a minguar, minguar; mandou funcionários embora e, finalmente, fechou as portas e entregou o prédio ao senhorio. Quatro anos de funcionamento. Dois meses depois, a metade do prédio que dava para os fundos ruiu totalmente, como num terremoto. Não vi, mas eu tinha colegas que moravam próximo ao local e com os quais mantive contacto durante algum tempo; tempo suficiente para que o prédio ruísse antes dos tênues liames profissionais que me ligavam àquelas pessoas também se desfizessem O primeiro prédio, o da zona leste, virou depósito de papel higiênico, milhares de fardos que chegam de caminhão, eu mesmo vi. Eu prossigo, nem sei como.

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