126. Cruz na porta da livraria

1922-2010

Eu tinha um outro texto em mente, mas, ao ter aberto o portal do Estadão e ter dado de cara com a funesta manchete, não posso abster-me de dizer algumas palavras.

* * *

Alguém morreu? Sim, o velho Saramago. Alguns o consideravam prolixo, outros, enfadonho; outros ainda, plagiador. Que posso eu, simples leitor, dizer dele?

Um dos primeiros livros que li foi seu: “Memorial do Convento”, li quando tinha uns onze, doze anos. Bom livro; reli-o mais tarde, já na casa dos vinte, continuava a ser um grande livro.

Saramago intitulava-se comunista. Coisa que, inicialmente, achava fantástica e que hoje me causa ojeriza. Mas estamos falando do homem escritor e não do político. A política, ultimamente, só tem servido a fazer apodrecer nossa alma. Como escritor, Saramago é irrepreensível: tem seu estilo, suas estórias e seus personagens; alguns reinicidentes, como o tipo solitário que é tanto o revisor do “História do Cerco de Lisboa” e o funcionário de conservatória de “Todos os Nomes”.

Autoexilou-se por conta de “O Evangelho segundo Jesus Cristo” e foi morar em Espanha, não a peninsular e opressora vizinha, mas em uma das suas ilhotas no Atlântico, oprimidas pelo mar: Lanzarote, nas Canárias.

Bom ou mau, de acordo com as várias opiniões, é um escritor a menos num mundo cada vez mais dominado pelos engenheiros, administradores e gerentes de recursos humanos. Hoje, o vamos dormir mais áridos.

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