125. Capítulo I (?)

Será que quem planeia as publicidades crê realmente que somos todos topeiras? As miragens projetadas pelo tubo do televisor. De fato, os televisores de tubo são quase passado e nele ficarão, junto com os rádios a válvula e as máquinas de escrever.

As miragens projetadas no escuro pela claridade pastosa do televisor. Um rosto que está estático na luz e cujos olhos refletem o movimento das imagens. É uma noite de sábado.

Não é fácil revoltar-se. Basta ver como as revoluções coloniais tanto demoravam a se desenvolverem. Resta o comedimento e os hábitos monásticos.

e outro lado, o rádio transmite as resultados dos jogos do campeonato de futebol. Campeonato sempre igual, cujos ganhadores são sempre os mesmos. Cartolagem.

Que resta? Não muito. Está frio e há cobertores. A mão fria desliza pela parede em busca do interruptor. Ir para baixo das cobertas é o que resta. Dormir para esquecer e esquecer de tudo o que o cerca. Das áreas pobres visivelmente estacadas nas fotografias de satélite: estão todas pintadas pelo cinza do amianto. Ah, a efemeridade da comunicação de hoje, a rapidez da rede, o acúmulo de informação. O que nos reserva o futuro.

Existe futuro? Porque, chegado nele, ele vira presente. Não existe futuro. Nunca houve.

* * *

Na noite de terça-feira, João põe-se a dormir. Serão oito da noite já? Talvez. Ninguém anunciou o jantar. Em breve, o pai entraria em casa com o jantar. O que João alegaria?

“Não estou com fome, pai. Me dói a cabeça.”

Ou então:

“Não estou com vontade… coma lá…”

Agora, restava a gozar a lenta sensação do corpo que vai lentamente se aquecendo… a tepidez que se alastra pelas pernas, pelos braços. Pelas pontas dos dedos que até há alguns momentos, estavam insensíveis. O vento bate contra as janelas e agita as persianas. O sol foi-se aquecer outras paragens. Aqui só há o vento gélido…

“…a presença da massa polar estacionada sobre o Estado…” – o rádio anunciava sem que sequer João prestasse atenção. Era só ele, os cobertores e o calor que se expandia sob a lã. Ouviu um ranger de porta e um barulho de molho de chaves. Era o pai.

Passos. A porta do quarto lentamente se abriu e, no filete de luz que se formava, o vulto de uma cabeça. Era o pai.

“João? Está tudo bem aí? Está dormindo já? São dez pras oito… trouxe o jantar.”

João ouviu o barulho do cartucho de papel com o pão ser erguido. Teriam sanduíches de novo. Sanduíches.

“Estou com dor de cabeça, pai. Vim dormir mais cedo… já tomei dois analgésicos”; veio do escuro do quarto.

“Certo”, respondeu-lhe o pai. “Amanhã é um dia importante…”

“Sim, eu sei!”, disse João ríspido, já com intenção de atalhar.

“Tudo bem, então… se cuida”, e o fio de luz sumiu com um rangido.

Amanhã, amanhã; amanhã é o futuro. Que quando for, será presente já. E haverá sempre um futuro que nunca chega como aquele dos carros que voariam e das mochilas com turbinas. Chegará?

João ficou ali, no escuro. Os raciocínios simples faziam barulho; mais do que o da máquina fisiológica, coração, pulmão. Domingo, recortara um anúncio de jornal. Um emprego; era o que ele precisava. É o que muita gente precisa.

O trabalho enobrece o homem. O trabalho empobrece o homem. Já havia trabalhado na loja de pipas do vizinho. Recebia cinco reais a cada cem pipas montadas. O cheiro da cola, os cortes na mão por causa das linhas, as farpas do bambu sob a pele. Que esse novo trabalho seja menos doído.

Amanhã teria de apresentar-se em um escritório na rua Marconi, no Centro. Na Cidade. Às oito da manhã (impreterivelmente).

Amanhã, impreterivelmente.

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