130. De nascituros

A esta árvore vêm os pássaros / regalar-se com as sementes / redondas e saborosas.

Mas é veneno seu sumo; / às aves vão-se as penas / e vêm ocos os seus ovos.

129. Manual: (I) Cidade

A largura das ruas deve ser milimetricamente ajustada para os veículos. As casas devem ter acabamento impecável e tudo deve ser bem arborizado. Gente? Muito pouca e nas calçadas; sempre. Nada de esmoleiros ou flanelinhas. A cidade perfeita deve estar isolada da cidade imperfeita – a outra dimensão e necessariamente oposta – por uma redoma de vidro seletivo. A cidade perfeita deve ser ecologicamente correta e auto-sustentável para não depender da cidade imperfeita; nem que para isso, seja criada a imperfeição controlada por meio da manipulação de idéias. E a cidade imperfeita, de formas e gente imperfeitas, que padeça na sua tortuosidade e nos escombros de ideias sob telhados de fibrocimento.

128. O recurso de autocompletar e os danos irreversíveis ao meu cérebro

A informática é de fato algo surpreendente. Digo isso recorrendo a um chavão porque não há outra maneira de dizê-lo. É fantástico: escreve-se um texto num processador de texto (como eu sempre faço com os textos do blogue: primeiro um editor de texto; não suporto escrever na maldita janelinha) e de uma digitação imprime-se quantas cópias se desejar. E melhor, com todas as revisões possíveis. O texto não lhe agradou? É só corrigi-lo, editá-lo, manipulá-lo como convier.

Porém, a informática doméstica e seus desdobramentos, como a rede, também estão transformando o meu (o nosso?) cérebro em purê. O raciocínio fica esperando o maldito autocompletar: você põe duas ou três letras do endereço na barra do navegador e veja, que gracioso: ele busca os endereços que coincidem com a combinação de letras, fantástico. E você depois não consegue guardar na cabeça meia-dúzia de endereços de sítios ou de correio eletrônico: há caches, bookmarks, agendas de e-mail. Esqueceu o endereço daquele sítio? Ora, procure no Google. O Google sabe tudo… O Word corrige seus textos, às vezes de modo inconveniente… e o seu raciocínio decresce.

Que será de nós mais adiante? Uns zumbis…

127. História de prédios desconhecidos

Sempre quando entro em ambientes novos, reparo mais na forma que têm do que naquilo que contêm. Objetos dispostos são sempre secundários. Vejo os pedreiros levantando as paredes enquanto trocam impressões da última rodada do campeonato de futebol e fumam cigarro barato, os pintores com seus chapéus de jornal e ouvindo um prosaico rádio a pilha e, por fim, o marceneiro, ao qual lhe faltam dois dentes dianteiros, que vem pôr os rodapés. Somente depois vêm entregadores com caixas de móveis e montadores. É a última parte.

* * *

Trabalhei em alguns lugares, mas o prédio que mais me traz lembranças é aquele ocupava a empresa que me deu o primeiro emprego. Para ser mais fiel à memória, meu primeiro emprego dividiu-se entre dois lugares; quando fiz a entrevista (cabe dizer que foi a única entrevista da iniciativa privada até hoje em que fui aprovado, possivelmente por inaptidão da entrevistadora), a empresa ocupava um galpão na zona leste, relativamente estreito e com um pátio grande que lhe servia de estacionamento; tão grande que um helicóptero pousaria ali sem problemas; logo quando fiz a entrevista, a minha futura chefe informou-me: “Olha, estamos prestes a nos mudar… vamos para um prédio perto de Santo Amaro… tem algum problema?”. Alguém que esteja precisando de um emprego – ou de um estágio curricular obrigatório – como era o meu caso, não tem muitas restrições: “Não, problema nenhum”. Foram quinze dias contados nesse galpão que me era de muito fácil acesso.

É do prédio número dois que quero falar, o prédio “quase em Santo Amaro” e que na verdade estava perdido nas travessas da avenida Cupecê; prédio no qual trabalhei – e olhei para o teto algumas vezes – durante quase dois anos. Para dar uma idéia, eram dois prédios, uma espécie de complexo empresarial pobretão; um deles dividido no meio, justamente o prédio onde estavam os escritórios da empresa. Dos dois prédios, a empresa ocupava essa metade e o outro ao lado. Nos meses que antecediam a Páscoa, uma fábrica de chocolate ordinário alugava temporariamente a metade vazia e, na hora do almoço, víamos as moças com os cabelos presos em toucas tomando sol. O prédio contíguo, separado por um corredor interno, era somente um galpão de pé-direito alto, usado como garagem e que os pombos usavam também como dormitório e banheiro.

Não custa dizer que ambos os prédios haviam sido terminados recentemente. Não exatamente terminados no sentido estrito do termo: haviam sido entregues para o uso e seu aspecto imperfeito denunciava a pressa da conclusão e a má-qualidade da mão-de-obra. Rebarbas, imperfeições, juntas imensas pelas quais passavam dois dedos; tudo em magníficas vigas pré-moldadas e paredes de bloco aparente pintadas de látex vagabundo por dentro e caiadas por fora. Penso que o proprietário somente não caiou o prédio por dentro porque, onde quer que encostássemos, ficaríamos brancos de cal.

Quando cheguei às repartições internas do edifício, os móveis já estavam no lugar. A displicência nos acabamentos permitiam-me ver quem os fizera. Gente contratada às pressas e que fez o serviço às pressas. As divisórias todas tinham jogo, assim como os espelhos dos interruptores estavam bambos. Aliás, toda a fiação – elétrica e de rede – corria por canos metálicos externos e por canaletas. Para que o luxo de condutores embutidos?

O chão era um capítulo a parte: ondulações a perder de vista, volta e meia visitadas pelo bico do sapato ou do tênis dos desavisados. Isso porque era o chão todo revestido de forração cinza, aquele quase-carpete. Tudo: salas, corredores; só os banheiros escapavam, tinham um piso cujo aspecto de sujo nada tirava. Depois de alguns meses, rasgos generosos começaram a aparecer pela forração ali e acolá, deixando entrever o cimentado rústico dos pisos ou o contra-piso sem-vergonha que havia sobre as lajes. Claro, era um edifício de térreo e mais dois andares.

Essa empresa, cheia de gente, certo dia, começou a minguar, minguar; mandou funcionários embora e, finalmente, fechou as portas e entregou o prédio ao senhorio. Quatro anos de funcionamento. Dois meses depois, a metade do prédio que dava para os fundos ruiu totalmente, como num terremoto. Não vi, mas eu tinha colegas que moravam próximo ao local e com os quais mantive contacto durante algum tempo; tempo suficiente para que o prédio ruísse antes dos tênues liames profissionais que me ligavam àquelas pessoas também se desfizessem O primeiro prédio, o da zona leste, virou depósito de papel higiênico, milhares de fardos que chegam de caminhão, eu mesmo vi. Eu prossigo, nem sei como.

126. Cruz na porta da livraria

1922-2010

Eu tinha um outro texto em mente, mas, ao ter aberto o portal do Estadão e ter dado de cara com a funesta manchete, não posso abster-me de dizer algumas palavras.

* * *

Alguém morreu? Sim, o velho Saramago. Alguns o consideravam prolixo, outros, enfadonho; outros ainda, plagiador. Que posso eu, simples leitor, dizer dele?

Um dos primeiros livros que li foi seu: “Memorial do Convento”, li quando tinha uns onze, doze anos. Bom livro; reli-o mais tarde, já na casa dos vinte, continuava a ser um grande livro.

Saramago intitulava-se comunista. Coisa que, inicialmente, achava fantástica e que hoje me causa ojeriza. Mas estamos falando do homem escritor e não do político. A política, ultimamente, só tem servido a fazer apodrecer nossa alma. Como escritor, Saramago é irrepreensível: tem seu estilo, suas estórias e seus personagens; alguns reinicidentes, como o tipo solitário que é tanto o revisor do “História do Cerco de Lisboa” e o funcionário de conservatória de “Todos os Nomes”.

Autoexilou-se por conta de “O Evangelho segundo Jesus Cristo” e foi morar em Espanha, não a peninsular e opressora vizinha, mas em uma das suas ilhotas no Atlântico, oprimidas pelo mar: Lanzarote, nas Canárias.

Bom ou mau, de acordo com as várias opiniões, é um escritor a menos num mundo cada vez mais dominado pelos engenheiros, administradores e gerentes de recursos humanos. Hoje, o vamos dormir mais áridos.

125. Capítulo I (?)

Será que quem planeia as publicidades crê realmente que somos todos topeiras? As miragens projetadas pelo tubo do televisor. De fato, os televisores de tubo são quase passado e nele ficarão, junto com os rádios a válvula e as máquinas de escrever.

As miragens projetadas no escuro pela claridade pastosa do televisor. Um rosto que está estático na luz e cujos olhos refletem o movimento das imagens. É uma noite de sábado.

Não é fácil revoltar-se. Basta ver como as revoluções coloniais tanto demoravam a se desenvolverem. Resta o comedimento e os hábitos monásticos.

e outro lado, o rádio transmite as resultados dos jogos do campeonato de futebol. Campeonato sempre igual, cujos ganhadores são sempre os mesmos. Cartolagem.

Que resta? Não muito. Está frio e há cobertores. A mão fria desliza pela parede em busca do interruptor. Ir para baixo das cobertas é o que resta. Dormir para esquecer e esquecer de tudo o que o cerca. Das áreas pobres visivelmente estacadas nas fotografias de satélite: estão todas pintadas pelo cinza do amianto. Ah, a efemeridade da comunicação de hoje, a rapidez da rede, o acúmulo de informação. O que nos reserva o futuro.

Existe futuro? Porque, chegado nele, ele vira presente. Não existe futuro. Nunca houve.

* * *

Na noite de terça-feira, João põe-se a dormir. Serão oito da noite já? Talvez. Ninguém anunciou o jantar. Em breve, o pai entraria em casa com o jantar. O que João alegaria?

“Não estou com fome, pai. Me dói a cabeça.”

Ou então:

“Não estou com vontade… coma lá…”

Agora, restava a gozar a lenta sensação do corpo que vai lentamente se aquecendo… a tepidez que se alastra pelas pernas, pelos braços. Pelas pontas dos dedos que até há alguns momentos, estavam insensíveis. O vento bate contra as janelas e agita as persianas. O sol foi-se aquecer outras paragens. Aqui só há o vento gélido…

“…a presença da massa polar estacionada sobre o Estado…” – o rádio anunciava sem que sequer João prestasse atenção. Era só ele, os cobertores e o calor que se expandia sob a lã. Ouviu um ranger de porta e um barulho de molho de chaves. Era o pai.

Passos. A porta do quarto lentamente se abriu e, no filete de luz que se formava, o vulto de uma cabeça. Era o pai.

“João? Está tudo bem aí? Está dormindo já? São dez pras oito… trouxe o jantar.”

João ouviu o barulho do cartucho de papel com o pão ser erguido. Teriam sanduíches de novo. Sanduíches.

“Estou com dor de cabeça, pai. Vim dormir mais cedo… já tomei dois analgésicos”; veio do escuro do quarto.

“Certo”, respondeu-lhe o pai. “Amanhã é um dia importante…”

“Sim, eu sei!”, disse João ríspido, já com intenção de atalhar.

“Tudo bem, então… se cuida”, e o fio de luz sumiu com um rangido.

Amanhã, amanhã; amanhã é o futuro. Que quando for, será presente já. E haverá sempre um futuro que nunca chega como aquele dos carros que voariam e das mochilas com turbinas. Chegará?

João ficou ali, no escuro. Os raciocínios simples faziam barulho; mais do que o da máquina fisiológica, coração, pulmão. Domingo, recortara um anúncio de jornal. Um emprego; era o que ele precisava. É o que muita gente precisa.

O trabalho enobrece o homem. O trabalho empobrece o homem. Já havia trabalhado na loja de pipas do vizinho. Recebia cinco reais a cada cem pipas montadas. O cheiro da cola, os cortes na mão por causa das linhas, as farpas do bambu sob a pele. Que esse novo trabalho seja menos doído.

Amanhã teria de apresentar-se em um escritório na rua Marconi, no Centro. Na Cidade. Às oito da manhã (impreterivelmente).

Amanhã, impreterivelmente.

124. Padaria de bairro

Piso gasto, balcões ruinosos. Do alto de um deles, uma cafeteira de convecção e ao redor, banquinhos sebosos. A conversa circunstante: o futebol e a falta de convicção na política. Assuntos de já há tanto tempo. O rapazinho lava os copos; moreno e mirrado, quase some dentro do jaleco cinza bordado em branco: “Panificadora Rainha do Jardim”.

O caixa é lá no fundo, escondido na penumbra e quase soterrado de maços de cigarro que lhe fazem uma fortaleza. Uma Nossa Senhora da Poeira descrente observa o ambiente. Do forro de gesso, um ventilador com dois motores opostos; o fio todo decorado pelas moscas. O pão, a mortadela, o queijo-prato, tudo tão cansado. Pelo único retângulo possível no vidro do caixa, vê-se o rosto do atendente bocejando entre moedas que se lhe escorrem pelos dedos, num troco sempre incerto.

Quantos anos terá a padaria? A madeira carcomida do forro talvez dissesse algo se lhe fosse perguntado. O atual proprietário é o último de uma linha impossível de contar; mais fácil enumerar à memória os Césares ou os Faraós de alguma dinastia perdida na poeira dos desertos.  Uma televisão com péssima imagem – a recepção na vila é muito ruim – passa ou um filme vagabundo da tarde ou um jogo onde o campo alterna verde e cinza. A flâmula de um time da segunda divisão, desde um canto triste, bafeja um adeus.

Fora, o vidro pintado do luminoso já desbotado a ponto de que se confundam azul e cinza, também não diz nada. A chaminé de tijolos enegrecidos também não: há muito que o forno é elétrico e ela só serve como hotel de pombos.

Nada diz nada.

123. Vida velha

Passo a bateia no leito arenoso
do rio cuja foz desconheço.
No meio da areia cinzenta
rutila pequena pepita
pequena luz de céu todo
rebrilha no fundo da íris.
Corta-me a visão o gume de escamas
cinza-prata esvoaçada;
deixo a bateia no fundo
e ergo o peixe em lançada;
foge o ouro pro mundo.