121. Um dia

O que interessa a vida das pessoas comuns? Depende do que contam e como contam. Posso contar algo sob uma óptica que a torna interessante, outro pode simplesmente desprezar certo pormenor que dá todo um sentido a uma narrativa.

E narrar um dia próprio? Talvez, por um mero detalhe, esse relato de cunho pessoal vá parar em alguma antologia ou livro dedicado para uma atestação ou com valor anedótico.

As pessoas de mais idade costumavam manter diários e cadernos de anotações. Tive um exemplo desse tipo de comportamento há não muito tempo, quando da morte do avô da minha namorada. Legou-nos o senhor uma caixa com os mais variados tipos de documento, com os quais foi possível reconstruir uma vida. Para uns, pode ser uma caixa cheia de papéis amarelados e quebradiços; para outros, quase um remontar poético do passado.

* * *

Hoje, 25 de maio de 2010. Por conta de detalhes menores, não trabalhei. A cidade toda abriu-se aos meus pés; sob o sol eu estava livre; eu, o chão e meus pés para onde calhasse ir. Lembrei-me de uma canção do Zeca Afonso que diz:

Desde então a lavrar
No meu peito a Alegria.
Ouço alguém a bradar
Aproveita que é dia.

Por instantes e por causa ainda de ser cedo, passei pela mente a ideia mesmo de ir a Santos. Coisa rápida fora de temporada e a visão do mar sempre me regenera. Enquanto tentava achar o caminho certo num dédalo de ruas todas iguais, dissuadi-me da ideia; hoje será inaugurada uma nova linha do metrô, a tal linha quatro. Decidi: passaria por Pinheiros e pegaria o metrô na primeira viagem aberta ao público.

Por que Pinheiros, assim, do nada? Quem se despede de uma cidade e ainda mais a cidade onde nasceu e cresceu tem certas amarguras por não conhecê-la toda. Os pés e as rodas levam-me a Pinheiros, não só: as últimas leituras também. Pinheiros fora o aldeamento jesuíta muito fora das muralhas de taipa de São Paulo. Foi nesse aldeamento que entrou, certo dia, um índio dançando e tirou Jesus de sua cruz, dizendo-se o filho da Terra ser ele próprio filho de Deus. Lugar que até o terceiro decênio do século XX foi um distrito rural da Capital. Olho-me no reflexo do vidro do ônibus, perpendicular à porta. Pela primeira vez não vejo um rapaz, mas um homem de óculos e barba, traços graves.

Curioso como aquelas ruas planas contidas entre a Marginal do Pinheiros e a Faria Lima têm um quê de antiguidade, apesar do ruído incessante do trânsito, os ônibus, a poluição visual e das calçadas periclitantes e esburacadas.

No meio de um largo que acabou por se tornar mero apêndice da rua que o ladeia, a igreja de Pinheiros, Nossa Senhora do Monte Serrat. Certamente o prédio não é mais o mesmo, mas herdeiro da igreja primitiva do aldeamento. Um igreja de bairro como se fazia antigamente. Coluninhas, pinturas, arcos, bancos com genuflexórios doados pelas famílias mais importantes do local e com a plaquinha metálica gravada em letra cursiva.

Uma imagem das tantas no templo destaca-se pela alvor da lavra recente; qual a surpresa quando o santo de óculos (sim, de óculos) é São Josemaria Escrivá de Balanguer, o fundador da Opus Dei. No mínimo curiosa a imagem, a qual me comprometo fotografar.

Mais uns minutos, algumas pessoas ajoelhadas aproveitando a digestão para uma prece de última hora; inclusive ao tão procurado Santo Expedido. Tomo novamente a rua. A placa chama a atenção também: rua Fernão Dias.

Duas quadras além, a estação Faria Lima do metrô refulge de nova. Será inaugurada dentro de algum tempo, uns quarenta minutos. Não gosto de aglomerações, mas algo me atrai para ali. Consigo instalar-me num canto e daí, graças a um degrau junto à parede, tenho uma visão privilegiada. Mais gente chega. Há um homem grisalho, mas não muito velho, camisa deformada pela barriga protuberante e óculos escuros; está ali no meio, mas a sua voz irritante e estentórea faz-se ouvir por cima das cabeças. Também tem uma bandeira brasileira que a agita; chama pelas autoridades lá dentro da estação, agita a bandeira, clama pelo técnico da seleção, conversa ameaçadoramente com as pessoas. Toda multidão tem seu louco e aquela não poderia ser diferente.

Começaram a berrar pelas autoridades: Goldman, Kassab. Com o silêncio de dentro, um outro senhor começou a imitar o Chacrinha… “Vem aí o Dilson Funaro!”; “Dona Marieta, como vai a sua mãe?!”. A turba continua berrando por políticos já idos: Mário Covas, Franco Montoro, Juscelino, Getúlio. Penso que é melhor que abram logo os portões de alumínio, antes que o passado nos coma a todos.

As autoridades já tinham descido e vi-as entrar e sair. Kassab é como aparece na televisão. Quanto a Goldman, pensei que fosse maior ou suas pernas ficaram tomando sol no Palácio dos Bandeirantes. Provavelmente passou todo um séquito de secretários de Estado, mas não os conheço a ponto de identificá-los. Achei ter visto Krähenbühl, mas ele é da Habitação, o que faria ali?

O homem da bandeira agitava-a a cada movimento. De vez em quando, alguém mais longe berrava: “O da bandeira, agita aí, trouxa!”; e o homem freneticamente agitava o lábaro. “O bunda-branca, chacoalha a bandeira!” e risos sobre risos.

Velhas junto ao portão reclamam com os seguranças. O homem da bandeira, o ‘Chacrinha’, a turba grita ‘Corinthians!’. Depois de muita espera e variações do mesmo tema no barulho circunstante, o portão é aberto; estou entre as primeiras cem pessoas que descem. A turba esmaga-se contra o portão; o homem que tem a bandeira joga uns cinco ou seis de escanteio para entrar na frente. Vem-me à cabeça a exortação lida no rádio por Guilherme de Almeida, no fatídico 1932:

O paulista não mudou! Há três séculos, quando a epopeia das Bandeiras subia brilhando ao delírio da riqueza…

Por aquela cena é óbvio e patente que mudou sim, ou foi mudado, e para pior. Havia uma molecada que desceu a escada rolante berrando “Tricolor, Tricolor!”; e logo acima de mim, duas meninas chamando aos que berravam de ‘bambis’ e ‘viados’. Tudo em impecável civilidade. Após uns lanços de escada rolante, eis a plataforma. Ia parar diante de uma das portas de embarque da plataforma, mas percebi a presença do homem da bandeira e evitei aquela porta… mas não consegui evitar de estar no mesmo vagão.

Já no vagão, que foi recebido com entusiásticas palmas, encontrei mais dois nômades do meu trabalho, igualmente atraídos instintivamente para a inauguração. O trajeto entre as estações Faria Lima e Paulista foi feito em menos de quatro minutos e o acesso entre Paulista e Consolação é interessante.

É piegas, mas creio que, assim como minha mãe me conta da banda e dos fogos na inauguração da linha 1 (então Norte-Sul) do metrô em 1974, eu terei esse registro na minha memória, com menos solenidade, certamente, mas é um registro.

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