119. Leite «versus» Ellis Júnior

Estou com duas obras literárias, dois romances históricos para ser mais exato: Amador Bueno, o aclamado (1938), de Aureliano Leite e Amador Bueno, o Rei de São Paulo (1937), de Alfredo Ellis Júnior. Romances históricos que tratam do mesmo tema: o episódio da Aclamação de Amador Bueno da Ribeira ocorrida na cidade de São Paulo, em 1641, por conta de dissabores que envolvem o mais aparente, ou seja, a restauração da independência de Portugal, até divergências dos paulistas com a Companhia de Jesus e com o Governador do Rio de Janeiro Salvador Correia de Sá e Benevides.

Nem pretendo entrar no mérito da pesquisa histórica feita pelos autores porque sequer li os livros [1], mas quero marcar um pormenor que pode ter sido o ponto de partida – ou até a conclusão – de uma polêmica. Por enquanto, terminei o prefácio e o primeiro capítulo do livro de Leite e é justamente no prefácio que está o pormenor.

Prefácio interessantíssimo (sem troça alguma com o Mário ou pelo Mário) o do livro de Aureliano Leite: cita motivos, forças motrizes e fontes. Ao término do prolegômeno, uma notinha em letras menores:

Já estava este livro entregue às oficinas gráficas e tôdo composto, quando vim a saber do volume recente do Sr. Alfredo Ellis Júnior, intitulado Amador Bueno – O Rei de São Paulo. Comprei-o e li-o. O vulto de Amador quase nada aparece nêsse trabalho. Além disso, sofreu lastimável depreciação que procura tornar a grande figura colonial um indivíduo mofino e ridículo. Isto se opõe, como a noite ao dia, aos meus conceitos, que são aliás os comuns e bebem as suas razões nas límpidas nascentes da história.

Aureliano Leite, Amador Bueno, o aclamado, p. 18

Curioso é que no copioso elenco das obras utilizadas encontramos duas obras de Ellis Júnior: Bandeirismo Paulista e Recuo do Meridiano; o autor está identificado como Alfredo Elis; com um ele só e sem o Júnior (p. 16).

Não bastasse essa chispa, há uma questão mais patente, mas na qual não se entra no mérito. Leite vale-se, aparentemente do acordo ortográfico de 1931, que chegou a ser ratificado pelo Governo brasileiro e depois foi revogado; Ellis Júnior, mais tradicionalista, fica com a grafia vigente até então e que somente foi alterada com o acordo de 1943.

Certamente estamos diante de uma polêmica de bastidores entre dois literatos. O problema é que o tempo escondeu as possíveis evidências e será necessário cavá-las. Provavelmente os jornais da época dizem algo…

* * *

[1] Quando escrevi este texto não havia começado a ler, agora me encontro já ingressado no terceiro capítulo do livro de Leite.

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1 comentário

  1. Juliana

     /  21/05/2010

    Gostei do novo lay-out. Quanto a polêmica, você ainda terá muito assunto quando acabar os dois livros.

    Responder

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