117. Amador Bueno

Talvez um poema épico não seja coisa para os nossos tempos, mas não me ensimesmo em emular um. E escolho um herói praticamente desconhecido, mas de peso: Amador Bueno da Ribeira, o Aclamado. O quase-rei de São Paulo que, num ato de lealdade a Dom João IV, recém aclamado Rei de Portugal, nega a coroa que lhe oferecem os cidadãos espanhóis do burgo de São Paulo.

Esta primeira parte, ainda fragmentária, conta antecedentes, ou seja, o sumiço de Dom Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir e os problemas da sucessão, até que o trono é atribuído, pelas armas, a Dom Felipe II, Rei de Espanha e descendente legítimo porque tinha laços de sangue com a dinastia de Avis. Começam os sessenta anos do período que seria conhecido como União Ibérica.

* * *

I

A notícia chegou no meio do breu,
a voz rouca do arauto acorda as ruas,
assustadas com os tons de bronteu
“O Rei é morto! Levaram-lhe as Luas”;
a tanto desespero não há freu,
deixando as gentes de esperanças nuas
As janelas abrem de par em par;
há só pranto, lágrimas e cismar.

E eis que agora é Portugal quem perece.
Cessa do Poeta o tanger da Lira,
o sangue na Lusa veia arrefece
e todo o povo português se admira.
Alçam-se sentidas vozes em prece
p’ra que o Rei volte envolto em caxemira.
Somam-se os dias e vão é o alento;
volteja ora o Fado, abutre agourento.

O Cardeal veio desde Alcobaça
e com a real desdita, é Henrique
que tem das Quinas a coroa baça;
Rei aclamam-no com ralo repique.
Portugal sente-se fora da Graça,
pede aos Elíseos sem par despique,
de Marte o ímpeto pelos cativos
a trazer à Terra os Louros votivos.

Não há mais o brio da juventude
e na faina das Cortes, vem-lhe a morte.
O Preterido agora é a Virtude:
O Prior do Crato vê em augúrio sorte.
À liça, contra a castelhana incude!
Mas o Duque impõe-lhe justa forte,
e exila Antônio com mão traiçoeira
na longitude agre da Ilha Terceira.

Há quem queira Brasil e Moçambique,
se herdeiro não há na Casa de Avis,
pois sem rei não há coroa que fique.
faz que soem pelo ar os anafis
e com feitos de espada, maça ou pique
ou qualquer outra vil classe de ardis.
Vem à Terra Felipe de Castela;
nas naus, a Cruz de Borgonha na vela.

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2 Comentários

  1. Juliana

     /  07/05/2010

    Você trocou a primeira estrofe. Ficou bom também.

    Responder
  1. Glossa ordinaria (encara) « Perure Alfonso פירורי אלפונשו

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