115. Bestiário da República: Mainardi e eu

A tradição deste meu blogue é que eu não fale de política; mas vista a situação geral em que nos encontramos, recuso-me a ficar calado e vendo que os urubus, encastoados no topo de poleiros de ouro, caguem na cabeça de quem lhes grita contra e ainda se creiam inatingíveis. Espero que não se valham das minhas opiniões políticas para me chamarem de poetastro; mas dos militantes ensandecidos, nada é impossível. Então, ponho minhas mãos no fogo

* * *

Durante o período que fiz o colegial, considerava-me comunista; exaltava a URSS e dizia que o regime havia caído por causa de “u’a minoria egoísta que queria comprar despertadores americanos”. Foi assim até que eu entrasse na Faculdade.

Na Faculdade cheguei a participar de algumas ‘plenárias’, em detrimento de aulas; embora nunca pus-me ao púlpito, mas acompanhava com certo interesse e repetia o discurso. Achava que o único intuito do PSDB era destruir o país e o “patrimônio do povo brasileiro”. Mas houve um estalo: percebi que havia algo errado quando, durante uma assembleia, alguém pediu a palavra e propôs à assistência a aprovação de u’a moção contra a guerra do Iraque.

Durante alguns segundos, meus sentidos obnubilaram-se e fiquei pensando qual o sentido de u’a moção daquelas numa assembleia de estudantes de Letras. Inicialmente, nenhuma.

Depois disso, comecei a afastar-me das assembleias ridículas e descabidas e comecei a preocupar-me mais em questões acadêmicas ou do coração. Iraque ali, não cabia. Mas o silêncio era impossível, um zumbido contínuo apoderava-se da minha audição: aquilo não seria somente uma imbecilidade, mas um fator distrator a problemas reais. Quem não tem problema, os cria para manter a malta sob controle. Mas não passam de questões da pequena política inócua de centro acadêmico, dominada pela esquerda e cuja repercussão não chega aos jardins dianteiros das instituições: um playmobil socialista, ou, como costumava eu ver por aí, o socialismo de botique, de calças artificialmente rasgadas e camisetas furadas do MST e com silk-screen da face de Che Guevara.

Problema de verdade estava na política maior. O ano de 2002 foi ano de eleições gerais, na qual cometi os que considero os maiores erros da minha vida, se bem que podem ser considerados erros da juventude: votei em Lula para a Presidência da República e votei em José Genoíno para o Governo do Estado. Eis a sandice que as esquerdas podem nos levar a fazer.

O pior é que eu era alertado e mesmo assim babava de raiva contra quem se me opunha. O grande amigo Orlando disse-me: “você é honesto e nenhum militante de esquerda pode ser honesto…”; espumava de raiva, mas eis que a razão um dia toma o posto que lhe é devido na cabeça. Fica aqui meu reconhecimento público ao amigo que me abriu os olhos. Há mais gente, mas que talvez não goste de ver seu nome aqui.

Por causa do começo da minha desconfiança política, nas eleições de 2006, abstive-me de Lula, dando o voto em gente ainda mais radical, para o PSOL de Heloísa Helena. Para o Governo do Estado, anulei meu voto. Mais um erro que considero crasso.

O não-voto em Lula foi motivado também pelas denúncias do esquema de pagamento de propina a parlamentares, que ficou conhecido como Mensalão e que era alimentado com o dinheiro de Daniel Dantas através do famigerado Valerioduto. Não sou tão ingênuo a ponto de crer que PSDB e DEM não tenham corruptos. Principalmente este último deu grandes nomes para a infinita constelação da corrupção brasileira. O que se faz insuportável é de como o PT, que era a esperança de muita gente e considerado o último bastião de moralidade política, conseguiu sujar-se tanto no mar de estrume que tanto denunciou.

Depois disso, fui ler. O PT é filiado a um certo Foro de São Paulo, organização que agrupa partidos de esquerda. Um amigo me disse: “O que tem demais?”; em suma? Nada. A não ser o fato de que tal organização teve sua existência desmentida mil vezes pelos dirigentes da esquerda, como sendo “maluquice da direita”, sempre se embasando que eram os “filhotes da ditadura” que conspiravam contra os que defendiam o povo.

O tal foro inclui o PT, o PC cubano, o PSUV venezuelano. Só gente boa. O socialismo da companheirada. Aliás, nada que prevê a pata do Estado em tudo pode ser muito bom. Por isso que os regimes comunistas do Leste Europeu cairam: por inaptidão econômica e por ingerência extrema na vida de seus cidadãos; que o diga a Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental, por exemplo.

Acuso o governo petista de tramar algo similar para manter-se no poder; chamam-me louco. O PNDH-3 está aí para isso. E o grande trunfo da esquerda é desfarçar esse tipo de arapuca com folhas do politicamente correto: em nome da defesa dos direitos humanos, está se prevendo uma censura legal pelo Estado aos meios de comunicação. E pior, em termos totalmente envoltos em névoa. Esse tipo de pretenção tirânica é a mais difícil de ser notada, porque é dissimulada. Ninguém espere que o PT vá dar um golpe. Isso jamais ocorrerá: a ideia principal é corroer, com apoio de vários setores da sociedade, as bases do Estado.

Como confiar num partido tão escuso? Como confiar num partido que defende um sistema político que se mostrou incompetente, do ponto de vista econômico, e repressivo, do ponto de vista das liberdades individuais.

Por conta dessas minhas opiniões, tenho enfrentado sérias arengas com amigos e com desconhecidos, que não concebem que a herança lulista é um polvo cujos tentáculos funcionam por meios que qualquer democrata deve rejeitar: primeiro, os crimes econômicos e de falsidade ideológica, no caso do Mensalão e agora, através de gente que está comprada por benessesm falar mal de Lula está virando um crime. Qualquer palavra dita contra o Nosso Guia dita, seu emissor passa a ser tratado como um pária.

E, finalizando, sexta-feira aconteceu algo muito curioso no Twitter. Recebi um Follow Friday que me deixou um pouco perplexo. Esclareço para quem desconhece que o tal Follow Friday é um costume criado pelos usuários do microblogue que consiste em indicar para serem seguidos os perfis que alguém considera mais interessantes. Pois bem, recebi um FF junto com algumas pessoas, incluindo o perfil de Diogo Mainardi.

Algo assim teria me deixado perplexo há seis, sete anos. Algo assim me deixa perplexo. Porém antes, eu espumaria de raiva e atacaria aquele quem eu considerava qual pária, sem mesmo ter lido (o que sanei mais tarde). Hoje, essa menção deixa-me igualmenter perplexo, mas pelo oposto: deixa-me feliz ser posto do lado a quem os mensaleiros e tiranetes da esquerda consideram o pária a soldo dos tucanos. Fico verdadeiramente feliz.

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1 comentário

  1. Daniel

     /  03/05/2010

    Caro Sérgio,
    Presto aqui meu total apoio ao que escreve no artigo supramencionado. De tal perplexidade eu também fui coberto, pois ao ler seu artigo, lembrei-me de ter ‘lulado’ duas vezes! Para agravar minha burrice juvenil, votei no Genoino. Sinto-me genuinamente idiota por isso. Ótimas também foram suas colocações sobre o Foro de São Paulo, mas ainda faltaram as alianças com as Farc e criminosos do MIR Chileno.
    O PNDH-3 segue muito bem o que a revolução cultural começou, cortando as liberdades pelos cantos, sem grandes escândalos, sem que o Lula ou, num futuro negro, a ‘companheira Estela’ grite ‘É tudo nosso!’. Tudo muito devagar, a universidade já era e as escolas também. Falta ver o que mais vai entrar nesse engodo político-certinho que esses urubus (como muito bem você os chama) criaram.
    Nelson Rodrigues tinha razão quando perguntado sobre o que há de melhor na juventude, respondendo: “O que o jovem faz de melhor é ficar velho”.
    Abraços

    Responder

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