122. Assim eram os dias

“- E por que as coisas se gastam?”
Se gastam porque o gato dos minutos
se esfrega em todas as coisas.

Também é ele que dorme enrodilhado
nos rádios e nas molas dos relógios.

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121. Um dia

O que interessa a vida das pessoas comuns? Depende do que contam e como contam. Posso contar algo sob uma óptica que a torna interessante, outro pode simplesmente desprezar certo pormenor que dá todo um sentido a uma narrativa.

E narrar um dia próprio? Talvez, por um mero detalhe, esse relato de cunho pessoal vá parar em alguma antologia ou livro dedicado para uma atestação ou com valor anedótico.

As pessoas de mais idade costumavam manter diários e cadernos de anotações. Tive um exemplo desse tipo de comportamento há não muito tempo, quando da morte do avô da minha namorada. Legou-nos o senhor uma caixa com os mais variados tipos de documento, com os quais foi possível reconstruir uma vida. Para uns, pode ser uma caixa cheia de papéis amarelados e quebradiços; para outros, quase um remontar poético do passado.

* * *

Hoje, 25 de maio de 2010. Por conta de detalhes menores, não trabalhei. A cidade toda abriu-se aos meus pés; sob o sol eu estava livre; eu, o chão e meus pés para onde calhasse ir. Lembrei-me de uma canção do Zeca Afonso que diz:

Desde então a lavrar
No meu peito a Alegria.
Ouço alguém a bradar
Aproveita que é dia.

Por instantes e por causa ainda de ser cedo, passei pela mente a ideia mesmo de ir a Santos. Coisa rápida fora de temporada e a visão do mar sempre me regenera. Enquanto tentava achar o caminho certo num dédalo de ruas todas iguais, dissuadi-me da ideia; hoje será inaugurada uma nova linha do metrô, a tal linha quatro. Decidi: passaria por Pinheiros e pegaria o metrô na primeira viagem aberta ao público.

Por que Pinheiros, assim, do nada? Quem se despede de uma cidade e ainda mais a cidade onde nasceu e cresceu tem certas amarguras por não conhecê-la toda. Os pés e as rodas levam-me a Pinheiros, não só: as últimas leituras também. Pinheiros fora o aldeamento jesuíta muito fora das muralhas de taipa de São Paulo. Foi nesse aldeamento que entrou, certo dia, um índio dançando e tirou Jesus de sua cruz, dizendo-se o filho da Terra ser ele próprio filho de Deus. Lugar que até o terceiro decênio do século XX foi um distrito rural da Capital. Olho-me no reflexo do vidro do ônibus, perpendicular à porta. Pela primeira vez não vejo um rapaz, mas um homem de óculos e barba, traços graves.

Curioso como aquelas ruas planas contidas entre a Marginal do Pinheiros e a Faria Lima têm um quê de antiguidade, apesar do ruído incessante do trânsito, os ônibus, a poluição visual e das calçadas periclitantes e esburacadas.

No meio de um largo que acabou por se tornar mero apêndice da rua que o ladeia, a igreja de Pinheiros, Nossa Senhora do Monte Serrat. Certamente o prédio não é mais o mesmo, mas herdeiro da igreja primitiva do aldeamento. Um igreja de bairro como se fazia antigamente. Coluninhas, pinturas, arcos, bancos com genuflexórios doados pelas famílias mais importantes do local e com a plaquinha metálica gravada em letra cursiva.

Uma imagem das tantas no templo destaca-se pela alvor da lavra recente; qual a surpresa quando o santo de óculos (sim, de óculos) é São Josemaria Escrivá de Balanguer, o fundador da Opus Dei. No mínimo curiosa a imagem, a qual me comprometo fotografar.

Mais uns minutos, algumas pessoas ajoelhadas aproveitando a digestão para uma prece de última hora; inclusive ao tão procurado Santo Expedido. Tomo novamente a rua. A placa chama a atenção também: rua Fernão Dias.

Duas quadras além, a estação Faria Lima do metrô refulge de nova. Será inaugurada dentro de algum tempo, uns quarenta minutos. Não gosto de aglomerações, mas algo me atrai para ali. Consigo instalar-me num canto e daí, graças a um degrau junto à parede, tenho uma visão privilegiada. Mais gente chega. Há um homem grisalho, mas não muito velho, camisa deformada pela barriga protuberante e óculos escuros; está ali no meio, mas a sua voz irritante e estentórea faz-se ouvir por cima das cabeças. Também tem uma bandeira brasileira que a agita; chama pelas autoridades lá dentro da estação, agita a bandeira, clama pelo técnico da seleção, conversa ameaçadoramente com as pessoas. Toda multidão tem seu louco e aquela não poderia ser diferente.

Começaram a berrar pelas autoridades: Goldman, Kassab. Com o silêncio de dentro, um outro senhor começou a imitar o Chacrinha… “Vem aí o Dilson Funaro!”; “Dona Marieta, como vai a sua mãe?!”. A turba continua berrando por políticos já idos: Mário Covas, Franco Montoro, Juscelino, Getúlio. Penso que é melhor que abram logo os portões de alumínio, antes que o passado nos coma a todos.

As autoridades já tinham descido e vi-as entrar e sair. Kassab é como aparece na televisão. Quanto a Goldman, pensei que fosse maior ou suas pernas ficaram tomando sol no Palácio dos Bandeirantes. Provavelmente passou todo um séquito de secretários de Estado, mas não os conheço a ponto de identificá-los. Achei ter visto Krähenbühl, mas ele é da Habitação, o que faria ali?

O homem da bandeira agitava-a a cada movimento. De vez em quando, alguém mais longe berrava: “O da bandeira, agita aí, trouxa!”; e o homem freneticamente agitava o lábaro. “O bunda-branca, chacoalha a bandeira!” e risos sobre risos.

Velhas junto ao portão reclamam com os seguranças. O homem da bandeira, o ‘Chacrinha’, a turba grita ‘Corinthians!’. Depois de muita espera e variações do mesmo tema no barulho circunstante, o portão é aberto; estou entre as primeiras cem pessoas que descem. A turba esmaga-se contra o portão; o homem que tem a bandeira joga uns cinco ou seis de escanteio para entrar na frente. Vem-me à cabeça a exortação lida no rádio por Guilherme de Almeida, no fatídico 1932:

O paulista não mudou! Há três séculos, quando a epopeia das Bandeiras subia brilhando ao delírio da riqueza…

Por aquela cena é óbvio e patente que mudou sim, ou foi mudado, e para pior. Havia uma molecada que desceu a escada rolante berrando “Tricolor, Tricolor!”; e logo acima de mim, duas meninas chamando aos que berravam de ‘bambis’ e ‘viados’. Tudo em impecável civilidade. Após uns lanços de escada rolante, eis a plataforma. Ia parar diante de uma das portas de embarque da plataforma, mas percebi a presença do homem da bandeira e evitei aquela porta… mas não consegui evitar de estar no mesmo vagão.

Já no vagão, que foi recebido com entusiásticas palmas, encontrei mais dois nômades do meu trabalho, igualmente atraídos instintivamente para a inauguração. O trajeto entre as estações Faria Lima e Paulista foi feito em menos de quatro minutos e o acesso entre Paulista e Consolação é interessante.

É piegas, mas creio que, assim como minha mãe me conta da banda e dos fogos na inauguração da linha 1 (então Norte-Sul) do metrô em 1974, eu terei esse registro na minha memória, com menos solenidade, certamente, mas é um registro.

120. Histórias e Histórias

Deparo-me com um livro de História que se atém excessivamente à História Burocrática, ou seja, de como funcionavam as instituições do Brasil Colônia maiormente aplicadas às desacreditadas capitanias sulinas, com ênfase especial nas de Santo Amaro e de São Vicente.

Li-o superficialmente, atrás de subsídios dos meus estudos. Será excelente para saber o exato funcionamento da engrenagem burocrática na América Portuguesa: a questão das Relações, do Governo Geral, das Câmaras e Concelhos. Porém, pobre na questão da História ‘humana’ do período.

A História vista como ‘ciência’ (minhas aspas) e influenciada algo pela crítica marxista (sem referências, ainda estou no campo do mero achismo empírico), desconstrói a História humana, substituindo-a por uma ‘História da Burocracia’; uma, porque não há fontes documentais suficientes. Creio insuficiente tais afirmações: a partir do estudo das Atas da Câmara de São Paulo e dos inventários, foi possível a Belmonte e a Alcântara Machado reconstruir parte da História em dois grandes livros, que considero magnos em seu campo. A celeuma vem da História pretensamente científica que deve considerar tais obras como ‘diversões de diletantes’ ou como representantes da ‘historiografia tradicional paulista’, terminologia tida como pejorativa e que causa certa apreensão nas Academias.

Com que direito se descontroem os heróis de um povo? E põe-se no lugar o vulto borrado do ‘povo’, essa invenção da historiografia marxista. Tudo se faz em detrimento dos vultos históricos. Que um general era troglodita ou batia na esposa. O que importa tal comportamento não influenciou em fatos que confluiram para uma glória da nacionalidade? Nada. De nada vale a vida pessoal que não tenha relação com um todo.

O dito livro, do qual ainda me exmino de dizer nome e título, mas é um livro de acadêmicos, no seu afã burocratista, exime-se de citar os fatos que mudaram os destinos da nossa então capitania. Amador Bueno é citado em uma linha, num exemplo dado acerca do funcionamento da Câmara Municipal. Uma história apática e sem vultos, burocrática.

119. Leite «versus» Ellis Júnior

Estou com duas obras literárias, dois romances históricos para ser mais exato: Amador Bueno, o aclamado (1938), de Aureliano Leite e Amador Bueno, o Rei de São Paulo (1937), de Alfredo Ellis Júnior. Romances históricos que tratam do mesmo tema: o episódio da Aclamação de Amador Bueno da Ribeira ocorrida na cidade de São Paulo, em 1641, por conta de dissabores que envolvem o mais aparente, ou seja, a restauração da independência de Portugal, até divergências dos paulistas com a Companhia de Jesus e com o Governador do Rio de Janeiro Salvador Correia de Sá e Benevides.

Nem pretendo entrar no mérito da pesquisa histórica feita pelos autores porque sequer li os livros [1], mas quero marcar um pormenor que pode ter sido o ponto de partida – ou até a conclusão – de uma polêmica. Por enquanto, terminei o prefácio e o primeiro capítulo do livro de Leite e é justamente no prefácio que está o pormenor.

Prefácio interessantíssimo (sem troça alguma com o Mário ou pelo Mário) o do livro de Aureliano Leite: cita motivos, forças motrizes e fontes. Ao término do prolegômeno, uma notinha em letras menores:

Já estava este livro entregue às oficinas gráficas e tôdo composto, quando vim a saber do volume recente do Sr. Alfredo Ellis Júnior, intitulado Amador Bueno – O Rei de São Paulo. Comprei-o e li-o. O vulto de Amador quase nada aparece nêsse trabalho. Além disso, sofreu lastimável depreciação que procura tornar a grande figura colonial um indivíduo mofino e ridículo. Isto se opõe, como a noite ao dia, aos meus conceitos, que são aliás os comuns e bebem as suas razões nas límpidas nascentes da história.

Aureliano Leite, Amador Bueno, o aclamado, p. 18

Curioso é que no copioso elenco das obras utilizadas encontramos duas obras de Ellis Júnior: Bandeirismo Paulista e Recuo do Meridiano; o autor está identificado como Alfredo Elis; com um ele só e sem o Júnior (p. 16).

Não bastasse essa chispa, há uma questão mais patente, mas na qual não se entra no mérito. Leite vale-se, aparentemente do acordo ortográfico de 1931, que chegou a ser ratificado pelo Governo brasileiro e depois foi revogado; Ellis Júnior, mais tradicionalista, fica com a grafia vigente até então e que somente foi alterada com o acordo de 1943.

Certamente estamos diante de uma polêmica de bastidores entre dois literatos. O problema é que o tempo escondeu as possíveis evidências e será necessário cavá-las. Provavelmente os jornais da época dizem algo…

* * *

[1] Quando escrevi este texto não havia começado a ler, agora me encontro já ingressado no terceiro capítulo do livro de Leite.

118. A história dos livros

Os livros contam histórias; não somente aquelas que alojam os têm como suporte, mas as próprias edições ganham sua história particular e alheia. Basta ir a um sebo e abrir alguns volumes, quantos nomes, carimbos e datas… como cartões-postais, formam uma história sua e extra-páginas. Abaixo, mostro umas fotografias feitas e livros que tenho em casa e que foram comprados em sebos. Trazem marcas indeléveis da sua história particular. Ainda mais os meus livros, dos quais não tiro nem as etiquetas dos sebos.

Esta contra capa é de uma Antologia Arcaica de Literatura Portuguesa.

A anotação a lápis fica por conta do atual proprietário do volume.

A dedicatória dos netinhos italianos em uma edição de "La Storia", de Elza Morante.

A dedicatória-spam de Fillos de Galicia e da Xunta em edição d'"A vida do Padre Sarmiento", de Carlos Casares.

Primeira página de "History of Western Europe", de 1896, com seus vários proprietários no decorrer do século.

Livro sem anotação inicial em "Os Cadernos de Lazarote II", José Saramago. A que consta foi feita pelo segundo (?) e atual proprietário do volume.

Assinatura em edição dos anos '30 de "La Figlia di Iorio", peça de Gabriele D'Annunzio.

A quase-sobreposição temporal em edição do "Diccionario Manual e Ilustrado de la Lengua Española", dos anos '50.

Assinatura em edição de "Estilística da Língua Portuguesa", de M. Rodrigues Lapa. Anos '70.

117. Amador Bueno

Talvez um poema épico não seja coisa para os nossos tempos, mas não me ensimesmo em emular um. E escolho um herói praticamente desconhecido, mas de peso: Amador Bueno da Ribeira, o Aclamado. O quase-rei de São Paulo que, num ato de lealdade a Dom João IV, recém aclamado Rei de Portugal, nega a coroa que lhe oferecem os cidadãos espanhóis do burgo de São Paulo.

Esta primeira parte, ainda fragmentária, conta antecedentes, ou seja, o sumiço de Dom Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir e os problemas da sucessão, até que o trono é atribuído, pelas armas, a Dom Felipe II, Rei de Espanha e descendente legítimo porque tinha laços de sangue com a dinastia de Avis. Começam os sessenta anos do período que seria conhecido como União Ibérica.

* * *

I

A notícia chegou no meio do breu,
a voz rouca do arauto acorda as ruas,
assustadas com os tons de bronteu
“O Rei é morto! Levaram-lhe as Luas”;
a tanto desespero não há freu,
deixando as gentes de esperanças nuas
As janelas abrem de par em par;
há só pranto, lágrimas e cismar.

E eis que agora é Portugal quem perece.
Cessa do Poeta o tanger da Lira,
o sangue na Lusa veia arrefece
e todo o povo português se admira.
Alçam-se sentidas vozes em prece
p’ra que o Rei volte envolto em caxemira.
Somam-se os dias e vão é o alento;
volteja ora o Fado, abutre agourento.

O Cardeal veio desde Alcobaça
e com a real desdita, é Henrique
que tem das Quinas a coroa baça;
Rei aclamam-no com ralo repique.
Portugal sente-se fora da Graça,
pede aos Elíseos sem par despique,
de Marte o ímpeto pelos cativos
a trazer à Terra os Louros votivos.

Não há mais o brio da juventude
e na faina das Cortes, vem-lhe a morte.
O Preterido agora é a Virtude:
O Prior do Crato vê em augúrio sorte.
À liça, contra a castelhana incude!
Mas o Duque impõe-lhe justa forte,
e exila Antônio com mão traiçoeira
na longitude agre da Ilha Terceira.

Há quem queira Brasil e Moçambique,
se herdeiro não há na Casa de Avis,
pois sem rei não há coroa que fique.
faz que soem pelo ar os anafis
e com feitos de espada, maça ou pique
ou qualquer outra vil classe de ardis.
Vem à Terra Felipe de Castela;
nas naus, a Cruz de Borgonha na vela.

116. Bestiário da República: Precedentes

Através de um texto publicado em Lula é minha anta do jornalista Diogo Mainardi, extraí a informação do atentado a Indro Montanelli, ao qual dedico algumas linhas.

Também aproveito para iniciar uma ‘nova coluna’ do blogue: o Bestiário da República, na qual ficarão os eventuais textos sobre política.

Em 1976, a Itália estava rachada entre a Democracia Cristã e o Partido Comunista Italiano. Indro Montanelli, jornalista do Corriere della Sera e do Giornale e opositor ferrenho dos Comunistas, considerou perigosa a recente subida deles nas pesquisas e declarou, calcado no que disse, em ocasião similar Gaetano Salvamini: “Turiamoci il naso e votiamo DC”; ou seja, que mesmo com toda a podridão da Democracia Cristã, ela não oferecia tantos riscos como o totalitarismo imbuído na ideologia comunista: “Tapemos o nariz e votemos na DC”. Talvez por influência de Montanelli, a DC virou o jogo e ganhou as eleições daquele ano.

Em 2 de junho de 1977, Indro Montanelli foi vítima de um atentado das Brigadas Vermelhas, ligadas ao PCI. Quando entrava na sede do Giornale em Milão, como toda manhã, foi ferido junto à esquina da rua Marin com a Praça Cavour, com uma pistola 7.65, provista de silenciador e que disparou todos os sete tiros de um pente e um oitavo já no cano, atingindo o jornalista duas vezes na perna direita, uma vez de raspão na perna direita e na nádega, onde o único projétil não trespassou.

O elemento, antes de disparar, perguntou pelas costas a Montanelli, se era de fato ele e abriu fogo enquanto o jornalista se virava para responder. Atingido, Montanelli não procurou de sacar a pistola que trazia consigo, mas tentou manter-se de pé agarrando-se ao alambrado dos Jardins Públicos, acabou caindo por terra enquanto gritava: “Velhacos, velhacos!”, na direção do terrorista e do seu cúmplice que fugiam; pouco depois, declarou a uma das pessoas que lhe socorreu: “Aqueles velhacos ferraram comigo. Os vi cara a cara, não os conheço, mas acredito que possa reconhecê-los”.

Extraído da Wiki.it baseado nos Diários de Montanelli.

A PCI, através das Brigadas Vermelhas perpetrou uma série de atentados e assassinatos, culminando inclusive com o assassinato covarde do primeiro-ministro Aldo Moro.

Será que a nossa esquerda não seria capaz de algo do gênero? Por ora, continuam enchendo os jornalistas que denunciam suas falcatruas e seus abusos de poder, lançando mão da Justiça. Como não tem razão, está sempre perdendo. Mas e em mais quatro anos de PT; e em mais oito? “É hora de tapar o nariz…”

115. Bestiário da República: Mainardi e eu

A tradição deste meu blogue é que eu não fale de política; mas vista a situação geral em que nos encontramos, recuso-me a ficar calado e vendo que os urubus, encastoados no topo de poleiros de ouro, caguem na cabeça de quem lhes grita contra e ainda se creiam inatingíveis. Espero que não se valham das minhas opiniões políticas para me chamarem de poetastro; mas dos militantes ensandecidos, nada é impossível. Então, ponho minhas mãos no fogo

* * *

Durante o período que fiz o colegial, considerava-me comunista; exaltava a URSS e dizia que o regime havia caído por causa de “u’a minoria egoísta que queria comprar despertadores americanos”. Foi assim até que eu entrasse na Faculdade.

Na Faculdade cheguei a participar de algumas ‘plenárias’, em detrimento de aulas; embora nunca pus-me ao púlpito, mas acompanhava com certo interesse e repetia o discurso. Achava que o único intuito do PSDB era destruir o país e o “patrimônio do povo brasileiro”. Mas houve um estalo: percebi que havia algo errado quando, durante uma assembleia, alguém pediu a palavra e propôs à assistência a aprovação de u’a moção contra a guerra do Iraque.

Durante alguns segundos, meus sentidos obnubilaram-se e fiquei pensando qual o sentido de u’a moção daquelas numa assembleia de estudantes de Letras. Inicialmente, nenhuma.

Depois disso, comecei a afastar-me das assembleias ridículas e descabidas e comecei a preocupar-me mais em questões acadêmicas ou do coração. Iraque ali, não cabia. Mas o silêncio era impossível, um zumbido contínuo apoderava-se da minha audição: aquilo não seria somente uma imbecilidade, mas um fator distrator a problemas reais. Quem não tem problema, os cria para manter a malta sob controle. Mas não passam de questões da pequena política inócua de centro acadêmico, dominada pela esquerda e cuja repercussão não chega aos jardins dianteiros das instituições: um playmobil socialista, ou, como costumava eu ver por aí, o socialismo de botique, de calças artificialmente rasgadas e camisetas furadas do MST e com silk-screen da face de Che Guevara.

Problema de verdade estava na política maior. O ano de 2002 foi ano de eleições gerais, na qual cometi os que considero os maiores erros da minha vida, se bem que podem ser considerados erros da juventude: votei em Lula para a Presidência da República e votei em José Genoíno para o Governo do Estado. Eis a sandice que as esquerdas podem nos levar a fazer.

O pior é que eu era alertado e mesmo assim babava de raiva contra quem se me opunha. O grande amigo Orlando disse-me: “você é honesto e nenhum militante de esquerda pode ser honesto…”; espumava de raiva, mas eis que a razão um dia toma o posto que lhe é devido na cabeça. Fica aqui meu reconhecimento público ao amigo que me abriu os olhos. Há mais gente, mas que talvez não goste de ver seu nome aqui.

Por causa do começo da minha desconfiança política, nas eleições de 2006, abstive-me de Lula, dando o voto em gente ainda mais radical, para o PSOL de Heloísa Helena. Para o Governo do Estado, anulei meu voto. Mais um erro que considero crasso.

O não-voto em Lula foi motivado também pelas denúncias do esquema de pagamento de propina a parlamentares, que ficou conhecido como Mensalão e que era alimentado com o dinheiro de Daniel Dantas através do famigerado Valerioduto. Não sou tão ingênuo a ponto de crer que PSDB e DEM não tenham corruptos. Principalmente este último deu grandes nomes para a infinita constelação da corrupção brasileira. O que se faz insuportável é de como o PT, que era a esperança de muita gente e considerado o último bastião de moralidade política, conseguiu sujar-se tanto no mar de estrume que tanto denunciou.

Depois disso, fui ler. O PT é filiado a um certo Foro de São Paulo, organização que agrupa partidos de esquerda. Um amigo me disse: “O que tem demais?”; em suma? Nada. A não ser o fato de que tal organização teve sua existência desmentida mil vezes pelos dirigentes da esquerda, como sendo “maluquice da direita”, sempre se embasando que eram os “filhotes da ditadura” que conspiravam contra os que defendiam o povo.

O tal foro inclui o PT, o PC cubano, o PSUV venezuelano. Só gente boa. O socialismo da companheirada. Aliás, nada que prevê a pata do Estado em tudo pode ser muito bom. Por isso que os regimes comunistas do Leste Europeu cairam: por inaptidão econômica e por ingerência extrema na vida de seus cidadãos; que o diga a Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental, por exemplo.

Acuso o governo petista de tramar algo similar para manter-se no poder; chamam-me louco. O PNDH-3 está aí para isso. E o grande trunfo da esquerda é desfarçar esse tipo de arapuca com folhas do politicamente correto: em nome da defesa dos direitos humanos, está se prevendo uma censura legal pelo Estado aos meios de comunicação. E pior, em termos totalmente envoltos em névoa. Esse tipo de pretenção tirânica é a mais difícil de ser notada, porque é dissimulada. Ninguém espere que o PT vá dar um golpe. Isso jamais ocorrerá: a ideia principal é corroer, com apoio de vários setores da sociedade, as bases do Estado.

Como confiar num partido tão escuso? Como confiar num partido que defende um sistema político que se mostrou incompetente, do ponto de vista econômico, e repressivo, do ponto de vista das liberdades individuais.

Por conta dessas minhas opiniões, tenho enfrentado sérias arengas com amigos e com desconhecidos, que não concebem que a herança lulista é um polvo cujos tentáculos funcionam por meios que qualquer democrata deve rejeitar: primeiro, os crimes econômicos e de falsidade ideológica, no caso do Mensalão e agora, através de gente que está comprada por benessesm falar mal de Lula está virando um crime. Qualquer palavra dita contra o Nosso Guia dita, seu emissor passa a ser tratado como um pária.

E, finalizando, sexta-feira aconteceu algo muito curioso no Twitter. Recebi um Follow Friday que me deixou um pouco perplexo. Esclareço para quem desconhece que o tal Follow Friday é um costume criado pelos usuários do microblogue que consiste em indicar para serem seguidos os perfis que alguém considera mais interessantes. Pois bem, recebi um FF junto com algumas pessoas, incluindo o perfil de Diogo Mainardi.

Algo assim teria me deixado perplexo há seis, sete anos. Algo assim me deixa perplexo. Porém antes, eu espumaria de raiva e atacaria aquele quem eu considerava qual pária, sem mesmo ter lido (o que sanei mais tarde). Hoje, essa menção deixa-me igualmenter perplexo, mas pelo oposto: deixa-me feliz ser posto do lado a quem os mensaleiros e tiranetes da esquerda consideram o pária a soldo dos tucanos. Fico verdadeiramente feliz.