114. «Ensaios Paulistas»

O Ensaios Paulistas é um grande volume publicado em 1958 com cerca de trinta ensaios que foram publicados um a um no jornal O Estado de São Paulo por motivo do Quarto Centenário da Capital paulista. Com mais de novecentas páginas, é um verdadeiro portento gráfico: 285 x 212 x 68 mm.

Editado pela Anhambi, o livro nunca teve uma reedição e acabou por tornar-se obra rara. Contém vários ensaios interessantes para o curioso e para o estudioso da história de São Paulo. O exemplar abaixo exibido, agora parte do meu acervo, estava exilado na cidade do Rio de Janeiro.

Encardenação simples, capa de cartão.

Algo que lembra uma litogravura.

A lombada.

Página interna ilustrada.

Página interna ilustrada.

In-oitavo ainda preso.

In-oitavo ainda unido pela lateral.

In-oitavo por dentro.

Separando o in-oitavo.

Páginas separadas.

113. Deu no cordel, por Zergui Pfleger

Muitos já sabem que há muito abdiquei de falar de política no meu blogue. Porém, a situação lamentável na qual vejo imersa meu país, ou seja, de refém de um partido mais fisiologista do que a média e que com populismo tenta ludibriar o eleitorado, faço uma exceção. A postagem abaixo recebi-a via correio eletrônico de um amigo. Trata-se da bitácula de Zergui Pfleger, um exemplo de ex-militante do PT, posto para fora por ser excessivamente honesto. Agora, deixo-vos com o delicioso texto.

DEU NO CORDEL

Cordelista agora é profissão legalizada, então… Bahia Pauta traz para seu seleto público leitor uma prova deliciosa da arte e da invenção de um dos melhores nomes da literatura de cordel aparecidos ultimamente no país: Miguezim de Princesa – poeta popular do DF, como ele próprio se identifica.

Mas se o leitor prestar bem atenção verá um que de baianidade e muito da Paraíba nos versos deste poeta de rua, que aqui faz o perfil político antenado e cheio de graça da ministra Dilma Rousseff, a eleita do coração de Lula para a sua sucessão.

A sugestão veio por e-mail de uma amiga especial deste site-blog: a especialista em medicina natural, Glauvânia Jansen, a pernambucana mais baiana de Salvador (até na amizade com o poeta e escritor Jomard Muniz de Brito), que todo mês comanda a caminhada da lua cheia em Itapoã. BP agradece e a Miguezin também. (Vitor Hugo Soares)

CORDEL: A TRANSFORMAÇÃO DE DILMAMA

Miguezim de Princesa

I
Quando vi Dilma Roussef
Sair na televisão
Com o rosto renovado
Após uma operação,
Senti que o poder transforma:
Avestruz vira pavão.

II
De repente ela virou Namorada do Brasil:
Os políticos, quando a vêem,
Começam a soltar psiu,
Pensando em 2010 e nos bilhões que ela pariu.

III
A mulher, que era emburrada,
Anda agora sorridente,
Acenando para o povo,
Alegre, mostrando o dente,
E os baba-ovos gritando:
É Dilma pra presidente!

IV
Mas eu sei que o olho grande
É na montanha de bilhões
Que Lula botou no PAC
Pensando nas eleições
E mandou Dilma gastar,
Sobretudo nos grotões.

V
Senadores garanhões,
Sedutores de donzelas,
E deputados gulosos,
Caçadores de gazelas,
Enjoaram das modelos,
Só querem casar com ela.

VI
Eu também quero uma lasquinha
Uma filepa de poder
Quero olhar nos olhos dela
E, ternamente, dizer
Que mais bonita que ela
Mulher nenhuma há de ser..

VII
Eu já vi um deputado
Dizendo no Cariri
Que Dilma é linda e charmosa,
Igual não existe aqui,
E é capaz de ser mais bela
Que Angelina Jolie.

VIII
Dilma pisa devagar
Com seu jeito angelical,
Nunca deu grito em ninguém
Nem fez assédio moral
Ou correu atrás de gente
Com um pedaço de pau.

IX
Dilma superpoderosa:
8 bilhões pra gastar
Do jeito que ela quiser,
Da forma que ela mandar,
Sem contar com o milhão
Do cofre do Adhemar

X
Estou com ela e não abro:
Viro abridor de cancela,
Topo matar jararaca,
Apagar fogo na goela,
Para no ano vindouro
Fazer um PAC com ela

CRÉDITOS
Matéria publicada nesse sítio.

Miguezim de Princesa, isto é Brasil !!!!

Isto é Brasil!!!!

A decisão do Ministério da Saúde de adquirir gel lubrificante para “reduzir os danos” nas relações sexuais anais, revoltou muita gente, mas inspirou o poeta popular Miguezim de Princesa, que, com muita graça, compôs o cordel “Bolsa-Vaselina”.

O talento de Miguezim de Princesa ultrapassou fronteiras.

Seu trabalho será objeto de estudo do Trinity College (EUA), por iniciativa de Eric Galm, pesquisador de música brasileira e professor de etnomúsicologia, que escreve um livro sobre essa expressão de cultura popular no Brasil.

Miguezim de Princesa é o codinome de Miguel de Lucena, Delegado da Polícia Civil do Distrito Federal e poeta de cordel.

Bolsa-vaselina

Sem ter mais o que doar,
O Governo da Nação
Resolveu, virando os olhos,
Gastar mais de R$ 1 milhão,
Doando para os viados
Bolsa-lubrificação.

I
Quem tem o seu pode dar
Da forma como quiser
Seja feio, seja bonito,
Seja homem ou mulher,
E tem de agüentar o tranco
Da forma como vier.

III
O Governo Federal,
Que em tudo quer se meter,
Decretou que o coito anal
Tem, mas não pode doer
E o Bolsa-Vaselina
Surgiu para socorrer.

IV
Quinze milhões de sachês:
A farra está animada!
Vai ter festa a noite inteira,
Até mesmo na Esplanada,
Sem ninguém sequer sentir
A hora da estocada.

V
Coitada da prega-mãe,
Vai perder o seu valor,
Pois é ela quem avisa
Na hora que aumenta a dor
E protege as outras pregas
De algum violentador.

VI
O governo quer tirar
Do gay a satisfação,
Como mulher sem prazer
(Fonte de reprodução),
Porque tanta vaselina
Vai tirar a “sensação”.

VII
– É para reduzir danos
– Defende logo um petista.
Porque na hora do coito
Dá um escuro na vista
E a dor é tão profunda
Que eu sinto dó do artista.

VIII
– Mas tu já desse, bichim?
– pergunta Zé de Orlando.
O governista sai bravo,
Dando coice e espumando,
Pega o “rabo de cavalo”
E sai no dedo enrolando.

IX
O Brasil é mesmo assim:
Prostituta tem prazer,
Vagabundo tira férias,
Se trabalha sem comer
E quem dá o ás-de-copas,
Dá mas não pode doer.

X
O governo resolveu
Dar bolsa pra todo mundo
E criar um grande exército
De milhões de vagabundos
Só faltava esta bolsa
De vaselinar os fundos.

112. Diferenças cruciais

O liberal é humilde. Reconhece que o mundo e a vida são complicados. A única coisa de que tem certeza é que a incerteza requer a liberdade, para que a verdade seja descoberta por um processo de concorrência e debate que não tem fim. O socialista, por sua vez, acha que a vida e o mundo são facilmente compreensíveis; sabe de tudo e quer impor a estreiteza de sua experiência – ou seja, sua ignorância e arrogância – aos seus concidadãos.

Raymond Aron

Extraído de Nivaldo Cordeiro.

111. Ramos e bens

Para o homem primitivo, incapaz de abstrações, a aquisição da propriedade não se realizava sem um ato material, que tornasse sensível a apreensão efetiva do objeto. Como efetuar essa apreensão física, em se tratando de bens imobiliários? Muito simplesmente. Uma parcela figurava o todo: ramus, herda, fustis, festuca. Exigia-se a princípio que fosse do prédio adquirido o torrão de terra, o punhado de ervas, o ramo de árvores, a palha, a aresta de cunhal, o sarmento de vinha, que o alienante passava às mãos do novo proprietário, no momento da transmissão. Depois, com as transformações crescentes da vida econômica, não mais se requeria proviesse do próprio imóvel a partícula que o representava. Afinal, desapareceu das relações jurídicas a more germanorum.

Mas não há gente mais apaixonada pela rotina que a gente do foro. As vendas em praça teimavam em obedecer indefinidamente ao ritual obsoleto. Em contradição com o seu ingênito sentido, o ramo de árvore começou a figurar na hasta pública de outros bens que não os imobiliários. Até nas arrematações de escravos empunhava  o porteiro umas folhas verdes, que passava no momento oportuno às mãos do arrematante. E coisa admirável: ainda hoje os formulários em voga aludem à entrega do ramo, ultimo resíduo do velho símbolo defunto, reduzido a uma simples retórica processual.

Fragmento de Vida e Morte do Bandeirante, de Alcântara Machado, pp. 145-6 da edição de 2006 da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

110. X

O regato murmurou-me uma tarde
quando eu passeava antes do anoitecer:
“Aqueronte quisera eu tanto ser,
mas nunca aqueloutro que de sangue arde.

A porta, o tricéfalo cão que a guarde:
as almas não quero ver perecer,
mas levá-las tolhidas de prazer;
alguém, que não Parcas, o fardo carde”.

Respondo-lhe: “Ah, regato pretensioso!
Ancho pouco mais que passada larga,
fundo um dedo e de leito pedregoso:

mal reges de peixe e seixo a carga
e ainda pedes fardo trabalhoso
que lhe faria a doce vida amarga”.

109. XIV

XIV

Se tece no ar a renda de ruídos:
animas noturnos e benfazejos.
Mato agitado por ventos andejos,
nada dos antigos martírios tidos.

Pia o grilo em evangelhos não lidos
e não há cruz para cobrir de beijos.
Remoo do almoço o gosto dos badejos
e está Cristo com os cravos caídos.

A chuva limpa as cruzes vazias.
As galinhas, reparadas da chuva,
ignoram sábados e traidores.

Tudo se imerge em chã melancolia;
sem lua, as nuvens são qual grande luva
e a Sexta se vai, entre estertores.