108. Aos meus amigos vegetarianos

HOMO ERECTUS

[…] Essa espécie de hominídio pode ter evoluído na África cerca de dois milhões de anos atrás, seguindo manadas pelos pastos africanos durante uma expansão interglacial, tornando-se, aos poucos, quase totalmente carnívora. […] Alguns especialistas acreditam que a energia extra fornecida por sua dieta predominantemente carnívora produziu um cérebro maior: 800 cc (sic) a 1.000 cc (Homo sapiens: 1.100 cc a 1.400 cc).

[…] O cérebro maior permitiu que o erectus inventasse de uma maneira sem precedentes na natureza até então. […]

[…] Planejamentos completos exigem processos mentais complexos. A implementação social de um planejamento complexo demanda um alto grau de ccoperação social. Isto implica o uso de uma linguagem que permita uma sintaxe condicional […], o Homo erectus era capaz de expressar tal forma de proposição condicional em sua fala.

FISCHER, Steven Roger. Uma breve História da Linguagem – Introdução à origem das línguas. Trad. Flávia Coimbra. Ed. Novo Século, Osasco, 2009. pp. 47-49

Há gente que dá crédito ao aquecimento global, não há? Eu fico com a tese que, se não tivéssemos comido carne, estaríamos ainda pulando de galho em galho e sequer falaríamos. Nós, leigos, abraçamos o que nos parece mais conveniente.

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107. Malaparte e a sua eterna atualidade

Assim sendo, aqueles povos que não são livres parecem, aos olhos dos toscanos, povos estúpidos. Naturalmente os povos estúpidos não querem saber desses sinônimos, inteligência e liberdade, e aspiram ser escravos não por falta de inteligência, mas por força maior. O que é uma prova de sua estupidez, porque não há força que resista à acidez e à lima da inteligência: tanto é verdade que as tiranias não têm medo dos homens fortes, robustos, musculosos, e burros, mas dos homens inteligentes, mesmo que sejam fracos e de ombros estreitos.

MALAPARTE, Curzio. Maledetti Toscani (Malditos Toscanos, 1956), p. 15. Oscar Mondadori, 2001

106. Sonhos número 3, 17 e 25

Tudo começou quando eu estava numa biblioteca, há uns cinco anos, quando eu estava com a minha família e alguns amigos fazendo um churrasco. Um churrasco no prédio da Biblioteca Pública do meu bairro. Daí, apareceu-me uma amiga e disse que estava grávida (puxa) de trigêmeos (caramba!) e que eram meus (intercessão da Santíssima Trindade). Findo o episódio, tive de ir fazer uma pesquisa sobre o preço dos botijões de gás; um dos depósitos que visitei era numa rua do Carrão na qual passei parte da minha adolescência. O depósito em si era numa casa cujo terreno era abaixo do nível da rua. Junto à grade, uma caneta amarrada (como nas lotéricas) para que as pessoas pudessem tomar nota dos preços. De dentro do depósito veio um cachorro horroroso, parecido com uma hiena e se pôs a bradar furiosamente por detrás da grade. Assustei-me. Havia duas pessoas comigo, funcionários de algum tipo de agência federal de energia nuclear e que, a certa altura, disseram-me para largar aquilo que íamos almoçar no restaurante da repartição. Qual não foi o meu estranhamento quando descobri que o restaurante era um anexo sobre a estação Artur Alvim do metrô. Do lado da bilheteria havia uma escada e, na ponta da escada, uma funcionária controlava a entrada das pessoas; era necessária a apresentação do crachá. Meus acompanhantes tinham esses crachás pendurados no pescoço e pareciam mais velhos cartões de biblioteca em cartolina verde.

Eu estava um pouco aflito, pois sempre tive receio de infringir as regras e, pior, ser pego na infração. Não deu outra: a mulher da escada barrou-me e tive de descer a rampa da estação, desconsolado e ofendido.

Resolvi procurar outro lugar para comer e essa caminhada me levou até um prado – onde? – que eu sabia que era para os lados de Mogi das Cruzes. Saio da trilha e embrenho-me no mato; encontro uma construção de madeira, como os estereotipados banheiros de acampamento, só que ligeiramente maior. Observo que está trancada, porém, assim que todo o cadeado corroído, ele se solta. A curiosidade me impele a abrir a porta: há uma escada de pedra, devidamente iluminada. Desço e a umidade do ar torna-se patente. A escada termina e transforma-se num longo corredor, o qual percorro não sem certo receio. O corredor termina num grande domo subterrâneo, no qual há máquinas e quatro gigantescos tubos transparentes, do tamanho do túnel do metrô que corta o espaço, surgindo e enterrando-se novamente na rocha. Alguém se aprcebe da minha presença: são operários, mas têm algo diferente, a pele excessivamente amarela. Em vez de me enxotar, recebe-me afavelmente e explica que fazia muito tempo que ninguém entrava ali. Uma multidão daqueles homens amarelos controlava máquinas que eram ligadas aos tubos imensos. O homem que me recebeu explicou-me o que eles faziam ali: davam movimento ao planeta; essa estória da rotação da Terra não era natural e sim artificial e eles eram os responsáveis por manter aquele movimento. Por dentro dos tubos, que descobri estarem cheios de líquido (mas não era água), passavam gigantescos animais que pareciam saídos de um bestiário medieval: com aspecto de batráquios, mas eram pisciformes. Eram eles que, rodando em alta rotação por aquele líquido densíssimo preso nos tubos cravados nas rochas e que circundavam todo o planeta, faziam com que o planeta girasse, criando o dia e a noite.

Enquanto meu solícito guia me explicava como os animais eram alimentadas em imensas câmaras bariátricas, soou um alarme: um dos gigantescos peixes entalara no tubo e começou a prejudicar a rotação. Se o tubo não fosse desobstruído, o dia ficaria um quarto menor. Só havia um jeito de desobstruir o túnel e eles precisavam de uma espécie de inseto (?), mas não era qualquer inseto. Assustado, ofereci-me como voluntário. Nem era tão longe, havia de ir buscá-los na Basílica de São Bento. Havia de ir lá e procurar o monge mais barbudo.

Por sorte, todo aquele complexo dispunha de um trem privado subterrâneo que parava em estações iguais às estações de metrô da linha azul, mas os letreiros estavam russo.

Chegado a São Bento, fui atrás do monge mais barbudo que era não um beneditino, mas um pope ortodoxo, com um imenso crucifixo pendurado ao pescoço por uma corrente dourada de aros grossos. Sem dizer palavra, fez sinal para que eu o acompanhasse e me levou à uma cripta sob o piso da Basílica. No meio da Basília havia um cilindro de pedra. “O que é?”; “É o sarcófago do Fernão Dias… não viu a tampa de bronze no piso, lá em cima?”. Curioso que aquela cripta era a cripta da Catedral da Sé, mas estava sob o piso da Basílica de São Bento. No fundo da cripta, num buraco retangular cortado no chão de pedra, reluzia um ataúde de madeira todo entalhado; na verdade, brilhava tenuamente no escuro, como aqueles brinquedos fosforescentes. “Vamos, me ajuda a remover a tampa”, disse o pope. Empurramos e havia ali um cadáver conservado que brilhava, a luz que do corpo emanava banhou toda a cripta que agora parecia a praça maior de uma cidade espanhola.

O cadáver estava todo ajaezado como se fosse um bispo da idade Média, cheio de paramentos, com um ceptro recurvo e uma mitra. Para espanto meu (e não do pope) o cadáver abriu os olhos e lavntou-se como se houvesse acabado de acordar. Estendeu-me uma pequena bolsa de veludo e deitou-se de novo, a luz começou lentamente a ficar mais fraca. O pope sorriu-me fez sinal para que eu abrisse a bolsa. Dentro? Baratas, umas cinco, mas não comuns: seu exoesqueleto era de marfim (puro marfim, segundo o pope) e suas patas eram de ouro (ouro puro qual esse não há!) que raspavam os cascos umas das outras e o saco. O sonho termina aqui.

105. Luiz Delfino, «A Poesia Moderna»

É pecado que famosos poetas de antanho sejam tão desprezados ogano. Tachados de pedantescos, os poetas do assim dito Parnasianismo são uma escola de temas e metrificação; e se a Poesia é considerada uma forma de arte (como a é efetivamente), por que desprezar tão elaborads obras? Somente por que a ignorância reina Imperatriz absoluta dos nossos tempos tão fracos e desbotados e por que há vocábulos desconhecidos? É tempo de recuperar o que vale realmente a pena, de exumar tudo aquilo que não se putrefaz nunca. Resgatar os escritores e poetas que o eram de coração e de senso.

Todo este meu pensamento vem inspirado no poema que a seguir transcrevo, extraído de uma coletânea de poesia parnasiana, de autoria de Luiz Delfino, poeta catarinense e um dos expoentes máximos do período. Fica registrado, para que não digam que poesia parnasiana é somente lavores de ourives.

A poesia moderna

A Pompílio de Albuquerque

Ó cândida poesia, ó virgem branca e pura!
Águia do pensamento, errante, foragida!
Onde pairas, que em vão te anseia, te procura,
Sequiosa de luz, minha alma consumida?
De que monte sublime, aos altos céus vizinho,
Foste ouvir de mais perto os cantos siderais?
Que nova brisa embala o palpitante ninho
…………………De novos ideais?

Envolve a tua fronte a tênebra sombria?
Que ignota mão sustém o pomo do futuro
Sobre o abismo do tempo, ó santa poesia,
Que rebrame a teus pés, profundo, horrendo, escuro?
Como, quando remuge a rábida tormenta,
Resvala a indócil nau aos férvidos parcéis,
Ó Arte, – rolarão na onda que rebenta
…………………Teus válidos pincéis?

Poesia, onde estás? Teu corpo voluptuoso
No bosque do ideal repousa adormecido,
Na alfombra que margeia o rio harmonioso,
Que beija-te chorando o trêmulo vestido?
Esmoreceu-te o sono a pálpebra brilhante
Por onde irradiava a luz do teu olhar,
De que uma réstia só talvez fosse bastante
…………………Para o mundo salvar?

Estancou-se o caudal fresquíssimo e fecundo
Onde os bravos leões, batidos pela calma,
Vinham umedecer o lábio sitibundo,
E reviver de novo à sombra de tua alma?
– Já não ousam volver os plainos devastados?
Ó sagrada vestal, é certo, pois, que em vão
Espreita o teu dormir, com os olhos encovados,
…………………O estudo, teu irmão?

Do mundo que desaba a poeira te sufoca?
Das lepras sociais minada surdamente,
Sentindo a vasa rir, cerraste a casta boca,
E o rosto virginal voltaste descontente?
– Oh! Não! – Voaste além, librada nos espaços,
De onde vibres melhor a tua ardente voz,
Enquanto a sociedade estorce-se nos braços
…………………Da corrupção atroz.

Ergueste o vôo além – e viste das alturas,
Nas amplas espirais do vasto precipício
Torcerem-se do mal as vítimas escuras,
A luta das paixões, a cólera do vício;
Depois, sobre um altar, com diamantinos cravos,
Tu viste um áureo Cristo, enorme, preso à cruz,
E ouviste soluçar nas trevas os escravos
…………………Repelidos da luz.

O nédio aristocrata o corpo preguiçoso
Viste estirar, e abrindo a boca enfastiada
Contratar sem pudor, com riso caviloso,
O preço por que deve a honra ser comprada;
A altiva Liberdade, a tua irmã divina,
Sofismada, negada; – e ouviste sussurrar
Da febre da vingança a onda purpurina
…………………No peito popular.

Tu viste a populaça, amarelenta e nua,
No lodo da miséria exausta se arrastando;
Um prostíbulo infame aberto em cada rua;
A embriaguez a rir; crianças soluçando;
O poder apoiando as pontas das espadas
Ao corpo social que verga-se ao grilhão,
E nota espavorido as fauces esfaimadas
…………………Que o fitam, do canhão.

Viste mais… E um tropel de Eumênides e harpias,
Minaz fermentação de ignívomo elemento,
Lançaste sobre o mundo em legiões sombrias,
Com o surdo horror do mar e as cóleras do vento,
“Roei da sociedade a vacilante base!”
Bradaste à inundação com lábio varonil;
“O edifício fatal de uma só vez se arrase,
…………………Desfeito em cinza vil!”

E és hoje a grande luz da tempestade invicta!
De cada consciência entraste nos arcanos,
E o militar venal, e o ignóbil jesuíta
Ameaçam-te em vão com o cetro dos tiranos!
És a deusa viril da Ilíada sagrada!
És o raio de paz com brados de trovão!
Empunhas da Justiça a lança imaculada,
…………………E o escudo da Razão!

104. XII

XII

O ourives não separa ouro bom
em dois metais: um terra e outro nobre.
Tampouco brilhará como ouro o cobre:
dirá o dolo o tilintar pelo seu som.

Por que então deve negar-se um dom
– como sino que chama pelo seu dobre –
só porque seu metal Quinas descobre?
O que somente lhe enriquece o tom…

Dizer que pela manhã há um Sol
e à Véspera é outro que se afigura
é coisa digna de quem não discerne.

Tentar tapar com trapos o arrebol
é parva sandice que não se atura,
pois a Fonte tem nas Quinas o cerne.