103-bis. Eminescu em português

Faço um adendo à postagem anterior: cavando pela rede, deparei-me com o trabalho de Daris Basarab, disponível no Scribd, que tem traduções de Luceafărul (1883), Mortua est (1881), Mai am un singur dor (1883), Melancolie (1886), Glossă (1883), Oda (în metru antic) (1883), Peste vârfuri (1883), Criticilor mei (1883), Ce te legeni… (1883), La steaua (1886) e Şi dacă... (1886).

O Diário do Nordeste noticia o trabalho de Luciano Maia, tradutor e organizador do Mihai Eminescu por Luciano Maia: 25 poemas do amor romântico. Trabalho esse que chegou a render uma música de Martinho da Vila: Dentre centenas de mastros, do disco «Brasilatinidade».

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103. Sonolentos passarinhos

Praticamente não há traduções ao português da obra do poeta romeno Mihai Eminescu. A única que conheço é a de Luceafărul («A Estrela da Manhã») que, no momento, não consigo encontrá-la novamente na rede. De posse de um disco de canções pátrias cantadas pelo Coro «Doina» do Exército Romeno, deparei-me como Somnoroase păsărele, última faixa do tal disco, totalmente a capella. O poema original está contido no livro Poesii, de 1884. A interpretação pode ser ouvida ali, no meu Tumblr e deixo aqui uma tradução que respeita métrica e esquema de rimas; talvez tradução seja uma palavra um pouco pretensiosa para o que se segue, então deixemos como adaptação ao português. Talvez as rimas com -inho assuste o leitor por sua aparente pobreza, mas permitimo-nos fazê-lo, uma vez que no poema original existem rimas que se apoiam em -le, que, nos dois casos em que aparecem, são as variantes do artigo definido posposto do romeno. Possivelmente equivalem a uma rima em -ar ou em -ão, as mais simples em português.

Como o meu domínio do romeno é limitado, usei também uma versão em inglês que me pareceu boa, de autos desconhecido e que está aqui também, logo após o original em romeno. Espero que a audição e o texto sejam do agrado.

Devo confessar ainda que o que mais me impeliu em traduzir (ou adaptar) o poema foi a sua versão cantada. Aliás, a acentuação procura permitir que a versão portuguesa seja igualmente cantável.

Sonolentos passarinhos


Sonolentos passarinhos
escondendo-se da noite,
estão calmos nos raminhos –
Boa noite!

Desce a primavera um véu
Quando o bosque quieto jaz:
flores dormem no vergel –
Dorme em paz!

Estão os cisnes nos seus ninhos,
beiram o lago tristonho
protegidos por anjinhos –
Doce sonho!

Vem a lua delicada
como um feitiço da noite
com sua luz abençoada –
Boa noite!

Somnoroase păsărele
(Mihai Eminescu)

Somnoroase păsărele
Pe la cuiburi se adună,
Se ascund în rămurele –
Noapte bună!

Doar isvoarele suspină,
Pe când codrul negru tace;
Dorm şi florile-n grădină –
Dormi în pace!

Trece lebăda pe ape
Între trestii să se culce –
Fie-ţi îngerii aproape,
Somnul dulce!

Peste-a nopţii feerie
Se ridică mândra lună,
Totu-i vis şi armonie –
Noapte bună!

Sleepy birds
(autor da tradução desconhecido)

All those sleepy birds
Now tired from flight
Hide among the leaves
Good-night!

Only the spring whispers
When the wood sleeps silently;
Even flowers in the gardens
Sleep peacefully!

Swans glide to their nest
Sheltering among the reeds
May angels guard your rest,
Sweet dreams!

Above a night of sorcery
Comes the moon’s graceful light,
All is peace and harmony
Good-night!

102. Vinagre

Achei uns textos velhos no domingo e estou atrás de outros. Coisas que não reconheço como minhas. Estou calmo e ao mesmo tempo irritável, como é da natureza do ser humano. Odeio telefones e eles tocam o dia todo ao meu redor: são como vendedores insistentes e desagradáveis. Ao mesmo tempo, sinto-me à parte, como já dizia o Mestre, o solitário andar por entre a gente. As ladainhas ao redor, os pequenos problemas que as pessoas se criam que se tornam clamores horríssonos; é, cansei.

101. VIII

VIII

De agouros e fados não se opina:
já basta de Laocoonte a lembrança
das cobras que lhe tolheram a chibança
e aos filhos seus com sanha assassina.

Quanto a mim, ministro-me borbotina
para evitar que em alguma folgança
venham vermes para esvaziar-me a pujança.
Deixo os fados a quem os vaticina.

A vida, por sua mão e seu fio
desenha certeira os vitais caminhos:
faena própria do fiandeiro trio.

Não me queria sucessos daninhos,
mas estoico aceito este seu ardil,
seja ele de carris largos ou mesquinhos.

100. VII

VII

Por toda parte tudo revirou-se:
do lugar comum a obscuros temas
e mesmo sofrendo tantos dilemas,
mesmo assim, nem boas, nem novas trouxe.

Dos baços inflados à Arcádia doce
não aflorou daí nenhuma gema.
Desde a floresta e da abóbada extrema,
o silêncio como se pétreo fosse.

E desiste, se não encontra madeira
da mesma selva, o hábil escultor?
Urge que seja com nova maneira

que se trate o engenho criador:
goiva, formão e afiada talhadeira;
lenho velho e renovado vigor.