99. Cancioneiro da Navarra (I)

Exórdio

Invoco ora as pirenaicas musas
porque já me proponho a grande faina:
o marceneiro, a poética plaina
sou; livrai-me das palavras confusas
pois não quero deixar mal-entendidos,
e quero meus leitores entretidos
com inúmeras façanhas abstrusas.

Que não me falte o divinho engenho
que vomitórios já tenho comigo
e purgantes brevemente consigo
para expelir esta história que cá tenho.
Eia, sus! Avante, fiel amigo!
Há muito que contar do sujo umbigo
de tantos nobres da face de lenho.

Ai de ti, minha Navarra sofrida!
Se ainda tens algo belo a admirar
é que os duques, em sono salutar
têm a avidez também adormecida.
Ora, só resta às províncias implorar
que não venha algum tributo exemplar
para roer a renda já roída.

98. “Eu queria mais poesia […]”

Eu queria mais poesia,
mas as manchas de bolor na pintura do quarto

não deixam.

97. Velharias

I

Na cama, ouço a urbe que cochila,
ouço as folhas batidas pelo vento.
Longe, trina o último metrô, lento;
um bói sob a luz dos postes desfila.

As velhas portas quisera eu abri-las;
o ar noviço pelo breu violento:
preamar do escuro mar marulhento
a inundar de vazio bairros e vilas.

Até que saia o sol, jaz a cidade.
Sirenes e rãs, o som de tal morte
fátua e efêmera da necessidade.

A escuridão, assumindo esse porte,
a carregar-me, sua veleidade
e entrega-me a devaneios sem norte.

(XII-2007)

96. Em 1935…

Em 1935, a população nacional sofreu um grande decréscimo devido ao espermicida que foi jogado ilícita e incognitamente na água da represa de Taquarembó. Suspeita-se que o General Hermínio Souto foi o responsável e quem levou a cabo a operação “Esper- […]