95. Sem título

Sem título

É difícil pensar no que escrever num mundo onde tudo já foi escrito ou pensado; com o agravante de tantas distraçoes. O computador não é a mesma coisa se não tem acesso à rede. E se tem acesso, todo e qualquer trabalho que exija o mínimo de concentração e inventividade estará irremediavelmente comprometido. Eu que o diga. Toda e qualquer (maldito “toda e qualquer”, é a segunda vez que aparece!) inspiração sucumbe à minha natural inépcia somada à acídia que me entorpece o cérebro. Como escapar a tamanha artimanha moderna? Como subtrair-se de algo tão grande, essa teratologia dos novos tempos?

A vetusta máquina de escrever pode ser uma solução. Ela serve somente para escrever e nada mais, sem distrativos. Não há internet, não há joguinhos e nào há o controle do Windows Media Player a todo momento para pular de MP3, nào há distrações: sou eu, a máquina e o pouco de concentração que a sertralina ou a rotina não me roubaram. É um esforço por exclusão. O que certamente será mais problemático será a transposição de um texto dactilografado para um blogue, por exemplo; mas ainda assim, hoje há subterfúgios como programas de escaneamento que reconhecem os caracteres e os traspõem ao formato digital.

Também no que toca à digitação, a máquina mostra seus problemas. Como se trata de um processo de composição totalmente mecânico, a acurácia ao dactilografar é essencial para que o texto não se encha de grosseitos erros de dactilografia como a imunda sobreposição de caracteres e também a atenção que se deve ter com a composição das frases, pois não há corretor ortográfico como no Word. Letra batida, letra posta no papel.

Além do mais, no meu caso, há um certo problema com escrever no computador; é totalmente psicológico, mas é um problema: trata-se da escolha das temáticas. É óbvio que não sei o porquê, mas corre nas minhas mãos uma espécie de pudicícia temática. Cito por exemplo: o único conto de temática que se possa considerar minimamente sexual saiu da máquina de escrever e não do teclado do computador. É estranho, mas é verdade. Acho que só consigo ser realmente livre na imperfeição dos caracteres da Olivetti Studio 44. Caso um dia (pretensão minha) tais textos sejam tomados por dignos de serem impressos em larga escala, há sempre a revisão especializada e o olho atento de um revisor que não seja um néscio.

26-12-2009

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94. Biju

Não me lembro de ter sido uma criança mimada ou chorona, daquelas que fazem escândalos homéricos; o oxigênio em casa sempre foi pouco para esse tipo de coisa e eu já tinha uma ficha corrida de agravos: era mexelão por curiosidade e isso já me valeu toda sorte de malefícios infantis, de bons tabefes à má fama no círculo expandido da família.

Era curioso como toda criança é e, digamos, tinha meus limites. Agora, pidão e manhoso, jamais. Das poucas lembranças que tenho antes dos meus cinco anos, nenhuma me aponta isso; tampouco meus pais, que me imputam até hoje várias façanhas, disso nunca reclamaram. Se eu não era pidão, realmente não sei como explicar o que pretendo relatar agora.

Antes de ocupar a casa onde moramos atualmente, dividíamos quintal com alguns familiares do meu pai, basicamente um tio dele com seus filhos e sua sogra; nós ocupávamos o fundo do terreno, uma casa isolada, no alto (o terreno era em aclive), em cuja frente havia um caquizeiro. Era um daqueles lotes que não existem mais nem em sonho, de quatrocentos metros quadrados, de quando a Vila Matilde era o fim do perímetro urbano. Pois bem, logo após casar, meu pai começou a juntar dinheiro para comprar o terreno onde hoje moramos.

A vida nos anos 80 não era lá muito fácil, mas também não era difícil como hoje. Com o giro da poupança a 30% mensais, era possível pagar o ordenado do mestre de obras e do ajudante; o mau era ter de correr no supermercado no primeiro dia do pagamento para fazer compras para todo o mês, antes que o dinheiro desvalorizasse. Era o Governo Figueiredo, tempo de abertura e de adoráveis frases de efeito do presidente-centauro.

Construção demanda trabalho árduo e pouco descanso. Meu pai trabalhava a semana toda no escritório de contabilidade de uma editora que já não mais existe e, no fim de semana, pegava o Chevette azul da família, fazia compras nas lojas de material de construção e tocava para a casa que começava a se formar. Eventualmente, íamos com ele eu e a minha mãe.

Certa vez, fomos somente eu e ele. Provavelmente deveria ser algo entre 1985 e 1986, porque a casa estava já quase pronta. Naquele tempo era bom; eu tinha algo entre quatro e cinco anos e podia ir no banco da frente. Cinto de segurança era coisa de filme americano. Meu pai me dizia: “Fica aí quietinho e não põe a cabeça e nem os braços pra fora!”. Eu obedecia ao meu pai cegamente; somente enquanto ele estava com os olhos pregados em mim. Mas eu tinha medo dos carros e da rua, então ficava quieto. Ninguém leva uma criança irrequieta numa construção, portanto, deduzo que o meu pai somente foi buscar ou deixar algo lá.

Íamos pela avenida Aricanduva; o semáforo que existe na esquina com a avenida Itaquera fechou. Segundo dizem (não entendo nada disso), esse sinal era e é ainda de um tipo chamado ‘trifásico’; consigo entender que são três fases, mas do quê? Sei que são fases demoradas. Por isso, quando o sinal fica vermelho, o trânsito fica parado por vários longos minutos, o suficiente para que surja uma legião de vendedores ambulantes com os mais variados produtos de acordo com a época.

Sempre havia o homem corpulento que vendia buques de flores murchas; depois se seguiu a época das mini-antenas de televisão. Em 1986 ainda não era tempo da abertura econômica, então o comércio do cruzamento resumia-se a alimentos. Àqueles alimentos de consumo rápido: salgadinhos e coisas secas. Não me lembro de ter visto garrafinhas plásticas de água mineral àquela altura; mesmo as latas de alumínio eram difíceis.

O Chevette azul reduziu a velocidade e ficou como o primeiro carro da faixa. “Puxa, por pouco a gente não foi…”, disse o meu pai. Lembro-me de que estava calor e havia também o vendedor de picolés. De repente, estalidos repetidos e altos; assustei-me. Um homem com uns sacos nas costas e com uma matraca nas mãos passava pelos carros e berrava: “Biju! Biju! Olha o biju!”. Creio hoje que, com tantos doces coloridos e açucarados, o biju não seja tão atrativo assim para as crianças; talvez nem naquela época. Não sei por que raios virei para o meu pai, sem sequer saber se aqueles canudos marrons eram de comer ou não e pedi que me comprasse aquilo. Ele sempre teve sérias restrições a tudo aquilo de comer que não é de casa: disse não.

Não me dei por vencido; meu pai tinha o coração mais maleável do que a minha mãe: “Por favor, pai; compra um pra mim…”. Ele me olhou desde cima e disse: “Não, porque você não vai gostar.”. Mas eu nem tinha comido e, afinal, eu não tinha que experimentar de tudo? “Ah, pai, compra…”. “Não, você não vai gostar… do que tem dentro… é recheado com repolho cozido”. Não sei se até aquele momento eu tinha a ideia exata do que era um repolho, mas o argumento foi mais forte. Ainda mais acompanhado do adjetivo correto: “cozido”; verdura cozida sempre me encheu de ojeriza. Aquietei-me no banco e o carro voltou a andar, subindo a avenida Itaquera.

Depois desse dia, de vez em quando, via surgir no lugar mais inesperado o homem do biju. Se não o via, distinguia o som da matraca no meio das minhas brincadeiras. A lembrança, indiferente do meio de invocação, visual ou sonoro, enchia-me de pavor. Assim como a minha mãe queria que eu comesse verduras e legumes, não tardaria o dia em que, encontrando o desprezível vendedor, ela me compraria um dos canudos e me faria comê-lo. Criei um medo absurdo da figura do vendedor que, com sua matraca, era como se fosse a morte e sua gadanha. Uma vez consegui fazer com que minha mãe mudasse de calçada porque o vendedor vinha no sentido oposto; óbvio que consegui disfarçar o motivo, pois, para mim, se ela percebesse, eu terminaria com o canudo na mão e admoestações para que comesse toda aquela porcaria.

Pois bem, cresci, entrei na escola primária e o homem do biju ainda aparecia de algum canto. Acho que durante a minha segunda ou terceira série, ou seja, em 1990 ou 1991, durante algumas semanas, um homem que vendia biju e algodão-doce ficou na porta. Evitava-o como se evita o diabo. Não podia vê-lo sem pelo menos ficar tenso.

Fui crescendo, cheguei ao ginásio. Achava estranho que em um mundo no qual as crianças – e mesmo os adultos – não eram afeitos a verdura cozida. Isso me intrigava, mas ao mesmo tempo caiu para o fundo da consciência; já conseguia ver e ouvir o homem do biju sem medo. Somente o nojo ficou.

Em 1997 fui estudar longe de casa. Pelo menos mais longe do que antes; fui fazer colégio técnico. Ali conheci gente que não valia um traque e amigos e foi justamente um desses amigos o responsável pelo desencanto. Era uma tarde de verão de 1999; estávamos na rua, voltando do almoço. Estudávamos de manhã, mas, como naquele ano teve uma greve dos professores relativamente longa, tivemos de repor algumas aulas. Voltávamos para a escola quando, ao dobrar uma esquina, surge a figura: o homem do biju, a míseros cinquenta metros, não mais. Apesar de eu só conservar o asco, naquele começo de tarde escaldante, parecia que a luz do sol relembrou os meus tempos de medo. Tive um calafrio.

Meu amigo se voltou para mim: “Vamos comprar biju?”. Fiquei lívido e dei um berro: “Caralho, como você pode gostar dessa porra?!”. Indignação era a palavra. Sentia-me traído; como um amigo meu poderia gostar daquela coisa medonha? Ele somente me olhou, tirou o dinheiro do bolso e deu ao homem que, nessa altura, já tinha nos encontrado. Assisti a cena imóvel; um momento que parecia ter durado horas de tanta tensão pela minha parte. Meu amigo virou-se e disse: “Olha, que você não goste de biju, eu entendo; mas precisa ficar nervoso assim? Parece até que viu um fantasma!”. Continuávamos parados no mesmo trecho de calçada e o vendedor já chegara à outra esquina, sumindo da nossa vista. Retorqui: “Meu, como você pode comer isso? Essa merda cheia de repolho cozido…”.

Pobre amigo. Foi a vez dele ficar atônito. Esquadrinhou-me atento e olhou para o saquinho plástico com três ou quatro canudos de biju dentro. Ficou alguns segundos sem falar nada, até que me disse: “O que você bebeu de manhã antes de sair de casa? Pinga? Repolho no biju?”. Insisti, perguntei novamente se ele ia comer mesmo aquilo, se ele gostava de repolho cozido. Eu estava quase às lágrimas. Meu caro amigo, já visivelmente irritado, sacou um dos canudos do saco e quebrou-o na minha frente. Tinha doce de leite com coco. A visão foi tão estarrecedora que ainda pensei que os flocos de coco visíveis eram, na verdadem repolho.

E é claro que, mesmo tendo explicado o possível do motivo daquela crença, não consegui escapar das chacotas. Ainda bem que àquela altura eu não lembrava porquê não gostava de biju; a chacota teria sido ainda maior.

Mesmo toda essa história ter ficado para trás, toda vez que me deparo com um vendedor de biju ou ouço a maldita matraca, não posso deixar de registrar um calafrio, tanto de medo quanto de despeito.