93. Hedonismo rodoviário

Não gosto de dirigir. Pensando bem, tenho medo mesmo; medo porque a coisa é selvagem. Fechadas, brecadas, xingos, imbecis que não sabem atravessar a rua, fominhas. Por isso que as grandes cidades são chamadas de selvas de pedra: árvores de concreto e animais ferozes de metal e roncos.

Mas também tem a parte do “não gosto”. Não gosto de responsabilidades como ter de ficar vigiando os motoqueiros passarem a milímetros do meu retrovisor e ter de ficar prestando atenção ao fluxo de veículos e à pista. Nem ter de estacionar o carro preocupado com flanelinhas ou se ele vai estar lá quando eu voltar; só de pensar nisso tudo, meu coração se desalenta. E se bato o carro? Se o ônibus bate, desço e pego outro. E sou disléxico e distraído; não sirvo, em absoluto para dirigir.

Por isso prefiro o transporte público e me emputeço que ele não seja bom. Mas ainda assim, é melhor do que dirigir. Um lugar no ônibus vale algumas páginas de leitura ou a continuação do sono que está atrasado. No metrô, mesmo de pé, é possível ler, exceto nos dias de pane, quando é difícil mesmo respirar.

Quando se trata de viagens longas, prefiro o ônibus ainda mais. Nada melhor do que reclinar o banco, aproveitar o ar condicionado e a paisagem. Adoro olhar as campinas, presto atenção às placas, principalmente às de quilometragem para saber quanto passou de viagem e quanto ainda falta. Ou em qual direção estão as cidades de nomes mais curiosos, se estão a leste ou a oeste. Aliás, não sei qual o problema que as pessoas têm com os pontos cardeais. Toda vez que me refiro ao lado sul de algo, ou indico que certa paragem está a leste do ponto de referência, meu eventual interlocutor franze a testa em franca interrogação. Nem tomo conhecimento, simplesmente prossigo.

E se você dirige, concentra em si toda a tensão da estrada e não pode desfrutar da paisagem. Há trechos muito bonitos na paisagem paulista. Lembra-me agora aquele da Washington Luiz, nas proximidades de Itirapina, na subida da serra de São Carlos: formosos vales e planícies que se entrelaçam, alternando plantações e trechos de mata. Um deleite simples, sem a exuberância malabarística de outros biomas, que assombram pelo choque e pela impossibilidade de abarcar tudo com a consciência.

Voltando ao carro, alguns poderão opor-me que o veículo está sempre à sua disposição, que se pode sair a hora em que bem entender e que não precisa deslocar-se até a rodoviária e isso e aquilo. Nada disso supera a viagem despreocupada com direito a audição musical, cochilo, leitura e, dependendo da extensão do trajeto, uma paradinha para comer porcarias gordurosas de beira de estrada e esticar as pernas.

Outra coisa que evoluiu muito é a comida de beira de estrada. Antes, só havia pocilgas imundas que serviam café ruim e salgados de procedência duvidosa. Hoje, pelo menos pelas estradas que costumo rodar, há verdadeiros complexos alimentícios que não somente vendem comida duvidosa, mas também todo tipo de quinquilharia: souvenires ridículos, livros vagabundos de auto-ajuda e best-sellers corporativos, revistas do coração, vinhos, doces; potes monstruosos de toda sorte de doces, o inferno para os diabéticos. Tudo voltado para o viajor.

Agora, as rodoviárias são um capítulo bem a parte. Conheço algumas. A do Tietê é quase como se fosse um aeroporto, um zumbir sem fim de gente e barulhos indistintos, máquinas de café que emperram, guichês com filas longas e atendentes de quiosque com mau humor perene. Entendo; se é o inferno para quem fica ali meia hora, quarenta minutos, que dira para quem trabalha, todo o dia ali, vendo as pessoas que vão e vêm e ficar sempre no mesmo ponto. O Tietê é um caos habitualmente, mas vésperas de feriado é de fazer Virgílio e Dante fugirem desesperados. Mas há as rodoviárias amenas, como é (ou era) a de São Tomé das Letras: tinha uma banca-de-jornal-bomboniere-loja-de-lembranças, três plataformas e um guichê de passagens. Não me lembra agora, mas acho que somente uma viação fazia os trajetos para lá, o ônibus que ia de São Paulo passava antes por Três Corações. Só isso. A rodoviária era uma desolação gostosa; quente e mineral, porque tudo em São Tomé é feito de pedra.

A rodoviária de Peruíbe é naquele estilo terminal urbano anos 80, uma porcariada de vigas de concreto pré-moldadas aparentes e mal pintadas; e assim Americana, Itanhaém, Ubatuba, Caraguatatuba, Araraquara. Todas com cara de terminal urbano. Se bem que Araraquara tem piso de caquinho, o que me agrada. A rodoviária do Jabaquara, de onde partem os ônibus para o litoral sul paulista tem a disposição mais estranha que já vi: espaços estreitos e escadas e desníveis para todos os lados. A de Santos é um barracão esquisito.

E falando em Litoral, voltemos aos trajetos. Que beleza a serra do Mar não? É exuberante, mas daquela exuberância, como disse ali atrás, malabarística. É bonita como uma pirâmide humana sobre u’a motocicleta. Mas é bonita. A via Anchieta tem curvas de tirar a paz de qualquer motorista que, por conseguinte, tende a preferir a Imigrantes para a descida da serra. Quem desce de ônibus pode contemplar toda a festa da mata, os manacás em flor, a paisagem do estuário que se descortina pelos montes e até mesmo despenhadeiros de mais de setenta metros. Lembra-me de um trecho no qual uma ponte vence um vazio entre duas encostas e na junção dessa encosta, descia um véu d’água por quase cinquenta metros. Do ônibus foi possível ver isso; de carro, pela altura menor, seria impossível. O motorista não consegue desfrutar a paisagem, pois o descuido, em alguns trechos, equivale a um salto em quedra livre. Coitados.