90. Muito além do visível

Encontrar alguém no metrô é uma coisa que, apesar de corriqueira, tem lá seu grau de impossibilidade tácita. São seis vagões com muita gente dentro e cada vagão tem quatro portas. Pode ser que alguém conhecido seu viaje no mesmo vagão e você sequer o veja. Ou pode acontecer de o elemento conhecido entrar exatamente na sua frente, principalmente se for alguémque você não gostaria ver pintado de ouro.

Bem, o caso é outro. Trata-se que encontrei um colega de colégio; um desses tipos apagados e até meio taciturnos que ficam pelos cantos, sob as sombras e costumam ir bem nas matérias que envolvem cálculos (o que no colégio técnico não significava pouca coisa) e penam nas matérias mais humanísticas.

Pois bem, estava eu no vagão, dependurado, quando sinto um cutucão no ombro. Viro-me e eis o elemento, todo sorridente. Lembrei-me de súbito do rosto, mas não daquele sorriso, mais destoante do que um corvo no meio dos pombos.

“Fulano! Como vai?”

“Vou bem, Fulano; e você?”

Depois da troca de amenidades e inúteis impressões do cotidiano, vêm as questões sobre os estudos.

“E aí, que tem feito da vida?”

Soube que nosso amigo Fulano está fazendo um desses cursos de Ciências Argentárias. Ou Administração ou Recursos Humanos ou Comércio Exterior.

“Hum. Que interessante.”

Fulano começou a relatar-me pormenores dos seus serviços.
“…sim, e a gente (a firma) tem quatro escritórios, dois fora e dois instalados junto ao pregão…”

“Ah, é uma corretora?”

“Não, é um call-center.”

Tantos volteios para poder me dizer que fazia uma faculdade virtualmente de nada e que trabalhava como atendente de telemarketing, como tantos coitados por aí. O pior era o sorriso luminoso na cara do Fulano. Ele comprou todo o ideário da empresa (pertence a um grande empresário e que tem uma coluna no editorial do jornal) e acreditava piamente na justiça e correção dos pouco claros mecanismos de “carreira” da dita empresa.

“O chefe me disse que haverá um grande processo de remanejamento… me disse em segredo. A equipe será reduzida drasticamente, mas eu sei que vou ficar, porque ele me disse.”

“Sei.”

Despeço-me, porque chegou a minha estação. Fico pensando em como as pessoas compram qualquer verdade que lhes pareça minimamente conveniente. Antes era a religião, hoje é o mercado e a tal carreira. O ser humano tem um gostinho masoquista em ser manipulado, assim não percebe (ou finge não perceber) que é manipulado. Alguns me parecem sinceramente ingênuos, assim como esse colega; mas o seu sorriso de quem teve o cérebro lavado e que foi insidiosamente convencido pela publicidade, pela mídia e pelo mundo de que aquela é a única via correta, assustou-me de sobremaneira. Foi vendido às prestações e sequer perceber.

E antes tivesse vendido somente “o corpo”, ou seja, sua mão-de-obra; o que, hoje em dia, é quase inevitável. O problema é ter vendido a consciência, ter comprado verdades e ter se imbuído delas. Ou seja, trocamos nossos deuses, movemos o centro da vida, antes vivíamos a vida, hoje, vivemos para financiá-la, mas não a vivemos, pois gastamos o tempo somente em financiá-la. Antes, pior: vivemo-la mal. E vivemo-la tão mal que sequer percebemos o poço no qual caímos, isso é o mais assustador: a falta de consciência da precariedade, de que voltamos a ser animais numa lei do mais forte de cunho financista. Essa alienação geral não roda por si: há inúmeras instituições que a querem assim, a começar pelo próprio governo. Quem gasta muito tempo (ou todo ele) preocupado somente em manter-se não consegue discernir o absurdo que os cerca e a percepção desse absurdo dói: a percepção ou não existe (a maioria dos casos) ou é ignorada (minoria), situação na qual o Fulano cria uma percepção paralela, o famoso mundinho cor-de-rosa onde ele é o centro e o que lhe diz respeito e tudo é perfeito.

O Estado e a política tiram altos dividendos dessa situação: a alienação política lhes favorece.

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1 comentário

  1. Ora, caro colega, como você acha que as novelas, ainda hoje, fazem tanto sucesso?

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