89. Centelhas de horror

O homem chega ao escritório. Ainda não há ninguém (ele precisou sair mais cedo, pois chovia e, quando chove, a condução fica impossível). Senta-se e a primeira coisa que lhe vem à cabeça é ligar para casa e perguntar se a mulher está bem (faz duas horas que ele saiu de casa) e perguntar sobre o filho, se foi para a escola como se deve. Logo entabula uma conversa sobre deveres tácitos que as pessoas nunca sabem quando fazê-los. O alvo era a mulher e o filho, mas fazia isso através de indiretas dissimuladas, como se a mulher soubesse, de fato, que ela era o receptor final da mensagem enviada. Curioso discurso que assim se arranja: como sendo luz as palavras, tem de refletir num espelho que, na verdade não é um espelho e sim uma simples moldura que deixa os raios de luz passar reto; depois, refletem-se por um espelho (dessa vez verdadeiro) que os devolve a um anteparo imediatamente ao lado do primeiro espelho, o falso. Nomes citados, nunca os dos reais envolvidos, como um jogo barroco de adivinhação; silogismos: “todo vagabundo faz isso, se fulano (nossos incógnitos dissimulados) faz isso, fulano é vagabundo. Meia hora de telefone depois, o homem pousa o fone na base e começa a vagabundear atrás de café com a alma leve do dever cumprido e do controle exercido. E é óbvio que em sua casa, naquele momento, a mulher se vira para se aconchegar junto ao amante que escutou todo o palavrório no viva-voz fazendo caretas engraçadas. Ah, casamentos que estão sempre por um fio por causa de silogismos ranzinzas.

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