87. O estupro das palavras

Duas palavras; somente duas. Uma de cada vez. Com elas, quero mostrar que o politicamente correto e o democratismo, como se não bastasse estarem ferrando com o nosso dia-a-dia prático, estão enchendo o galeão da nossa língua (e de outras também) de furos.

Primeira palavra: preferencial. Para facilitar, fica melhor uma comparação: preferencial/exclusivo. São palavras quase antônimas. Ter preferência não é ter exclusividade. Por isso, faço um apelo à Companhia do Metropolitano de São Paulo a especificar essa diferença nas suas peças publicitárias e na enjoativa ladainha de seus alto-falantes. Se o banco destinado às pessoas inaptas (ponho inaptas porque todas as classes de pessoas às quais os bancos são destinados faria uma longa lista) é preferencial, não pode ser feita uma peça publicitária incentivando que as pessoas deixem os assentos livres, o que qualificaria uma exclusividade. Ao menos foi coerente a retirada das velhas plaquetas que havia logo acima dos bancos que os identificavam como preferencial e em não “havendo pessoas nessas condições, seu uso é livre”. Já que a ditadura do politicamente correto veio para ficar, que seja específica no uso da língua: os bancos são exclusivos, uma vez que têm de ficar livres, e não preferenciais.

Segunda palavra: tolerância. Usada amplamente pelos defensores dos direitos dos homossexuais. O curioso é que um grupo que prega a igualdade (e até a superigualdade, mas deixemos isso para outra ocasião) pregue também a tolerância. A expressão mais adequada seria convivência pacífica (não que não seja usada, mas o é em menor escala, secundariamente). Tolerar é suportar, ou seja, fingir que nada acontece; fingir, em aparências, que tudo é normal, aguentar uma situação, ignorá-la, em suma: traduz a hipocrisia reinante; o que mostra que o que se busca não é a integração e aceitação pela maioria da sociedade, mas sim a criação de um nicho, de uma sociedade paralela. O uso impune de tolerância deixa isso claríssimo; não se importam absolutamente com que pensa o resto da sociedade e querem ser aceitos à força em vez de procurarem um consenso. Isso não me parece democrático, ao contrário, é uma democracia às avessas. Uma circuntirania travestida de democracia, de discriminação positiva (outro monstro do politicamente correto). É democratismo.

As palavras terminam por amalgamar-se a conceitos que originalmente lhes são opostos, levando a uma bastardização do significado original e à cretinice disfarçada de bom senso.

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