92. Via crucis

Provas são um massacre. Poucos discordam. Quem nunca teve u’a ameaça de síncope ou uma cagamerdeira antes de uma prova de Física no colegial? Ou da disciplina mais odiada? No meu caso era Física, dada por um professor nipônico que provavelmente já se foi desta para melhor.

Passei pelo colégio, pela faculdade; mas nada mais chato que prova de concurso público. O que de tais exames não é a sua dificuldade, mas os caminhos tortuosos que temos de percorrer para decidir sobre qual das alternativas é a mais correta. Eu vejo assim, pois, a primeiro momento, qualquer das alternativas parece-me adequada. Nunca respondo de pronto “é a D”, mas excluo as possibilidades das outras. Sempre sobra – espera-se – a resposta certa.

Hoje foi dia de enfrentar a prova para o Magistério municipal. Prestei as provas para as vagas de professor de Língua Portuguesa. Somente ontem, quando imprimi as referências do local da prova é que percebi o quão cedo teria de acordar: para a primeira prova deveria estar no portão do local às sete da manhã. Em miúdos: significa acordar às cinco e meia da manhã, mais cedo do que levanto para trabalhar, meia hora antes. E com um agravante: em pleno domingo.

Cinco e meia, no período do horário de verão, é céu escuro como se fossem três da manhã, mas em alguns instantes, os pássaros começam a anunciar o dia que ainda não pintou o céu. Dez para as seis já estava fora de casa. O bom da primavera é que ainda há aquele ar fresco da manhã, antes do dia quente. Fui para o ponto e peguei o micro-ônibus para a estação.

Quando eu era pequeno, achava que quando eu ia dormir, todos iam também. Achava que o mundo se apagava. Hoje, mesmo sabendo que se trata de uma meia verdade (porque a maioria está dormindo, mas também há muita gente acordada), espanto-me ao ver o micro-ônibus com quase todos os lugares cheios. Aonde vai essa gente? À missa? Acomodo-me num dos bancos livres e tenho de acompanhar, até a estação, a conversa fiada entre motorista e cobrador. O resto dos passageiros, para minha sorte e meu gáudio, ia num silêncio digno de igreja.

Chego na estação Tietê no horário. O local da prova é bem perto e em meia dúzia de passos, eis-me lá. Começa a primeira prova: toda balela da pedoburocracia derrama-se sobre mim. Fora a legislação municipal pedida. Afinal, que quer a Prefeitura? Um professor ou um arremedo de advogado. Há coisas que caem nessas provas que somente depois da admissão do professor é que deveriam ser passadas.

Sorte ou azar, a minha prova específica começava ao meio-dia. Quando deu nove e quinze eu já havia terminado a prova. Tinha quase três horas que não sabia como preenchê-las. Minto, sabia sim: ia ler; mas precisava estabelecer-me num local adequado.

No dia anterior, pensei em ir ao novo Parque da Juventude, construído sobre as ruínas da Casa de Detenção, que estava somente uma estação de metrô adiante. Acabei mudando de ideia muito menos por medo dos cento e onze fantasmas, mas porque se trata de um local aberto e o tempo seguia nublado.

Antes de prosseguir, telefonei para casa, avisando que tudo corria como o programado e para a minha namorada, pois, afinal, hoje era o nosso aniversário de namoro. Tudo do telefone público da estação, porque nas provas de concurso sempre implicam com os celulares e resolvi por bem, deixar o aparelho em casa.

Eu tinha livros na mochila. Dois. Peguei o metrô de volta para o Centro e desembarquei na estação São Bento, onde há, no lado oposto à Basílica, o Café Girondino. Além das várias recordações (fora ali que tomei o primeiro café com a Ju, dias antes de começarmos a namorar), o ambiente é de uma calma sem par. Tirando os dois britânicos que discutiam na mesa defronte à minha, naquele inglês Monty Python.

Café, leitura. O ônibus que pego para o trabalho todos os dias passa exatamente ali, na rua Boa Vista. Todos os dias eu vejo as janelas do Girondino que dão para o Largo de São Bento. Por um instante, achei que o ônibus passaria ali e eu, dessa vez dentro do café, me veria, num curto instante, olhando de dentro do ônibus para as janelas do café.

Como precisava estar às portas do local da prova somente às onze e meia, deliciei-me ali com um cappuccino, uma empada de camarão e palmito e uma lata de água tônica. Tinha comigo “A Ilha do Dia anterior”, do Umberto Eco, mas optei ali numa leitura nova: El pibe que arruinaba las fotos (O moleque que arruinava as fotos), do escritor argentino Hernán Casciari. Escritor esse ainda desconhecido nas plagas tupiniquins e que me fora apresentado certa feita pelo Orlando.

Estar sentado ali, no café, fez-me lembrar de quanto tempo eu não fazia aquilo sozinho. Quando estou sozinho em casa, nada me demove dos propósitos de inércia. Quantos concertos e exposições não perdi? Sempre é necessário que eu seja obrigado a sair para poder gozar de uma ocasião dessas, um amortecedor entre dois períodos de tensão, um vazio que precisava ser preenchido e acaba por mostrar-se jocoso. Pelo menos, hoje a Internet atenua essa perda e determinadas coisas (como arte, por exemplo) podem ser apreciadas virtualmente. Aliás, se não fosse a Internet eu jamais teria descoberto e me interessado por muitas coisas: língua catalã, música militar otomana, Lluís Llach… Dizem que a Internet é caminho para os pornógrafos infantis, para os hackers, e minha mãe sempre me admoesta: “Cuidado, cuidado por onde você anda!”. A Internet está aí: para o bem e para o mal. É um pardieiro de pornografia e tantas coisas, mas também permite acesso a coisas para as quais você teria de se deslocar milhares e milhares de quilômetros. Sejamos parciais!

Era hora de tirar a bunda da cadeira e voltar para fazer a segunda prova, a específica, de Língua portuguesa. Qual não foi o meu espanto, quando tive o caderno de questões na mão, ao perceber que todas (repito para que não se quedem dúvidas: todas) as questões eram baseadas nas medonhas teorias da linguagem de Mikhail Bakhtin e companhia limitada. Coisas que sempre me causaram certo asco. Onde está a gramática? Não se cobrou um único puto tópico de gramática. Só palhaçadas de canastrões e charlatães, de teorias comunicacionais, nem uma única questão que envolvesse diretamente elementos de gramática. É isso que querem construir com a nova escola: boçais. Fazer a disciplina de língua portuguesa uma cretinice sem tamanho. Nada de pensamento, somente categorias pré-prontas, como comida congelada para micro-ondas comparada a algo feito e depurado no fogo do fogão. Já disse Drummond: são tempos de fezes.

Volto para casa, quase no meio da tarde repensando todo meu pensamento em função dessa prova. Somente vem a confirmar o que já é patente: a destruição paulatina do modelo de ensino que existia em troca do duvidoso que resulta em nada. Palmas para a Secretaria da Educação (ou seria da Deseducação?) por um petardo desse tamanho. Somente burocratas imbecis familiarizados como essa caralhada toda entrará no magistério. E serão péssimos professores.

A dor de cabeça me domina. Como e vou tirar um cochilo. Nada melhor e recurso único para os momentos de angústia.

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91. Notas de aula ou Apologia ao artigo 5º

25 de setembro de 2008, quinta

Auditório da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação. Depois de uma tediosa apresentação dum grupo de música “afro-brasileira” (o que quer que isso signifique), a mesa redonda 17 tem início com o anúncio de que a conferencista (uma das) se atrasará, e olhe que já são quase oito! O tema parece igualmente cansativo: o currículo que a questão das minorias. Quando vi o programa da Semana de Educação, essa mesa redonda (a 17) foi a que me pareceu menos tediosa e menos favorável a uma soneca. Além do mais, é bom saber o que pensam os teóricos do seccionismo social, que tanto enfatizam a questão das minorias… o ideal seria pôr, preto no branco, que somos todos iguais. Ops, perdão pela expressão mal posta.

Escrevi isso enquanto agruardava o início de uma atividade na FEUSP. Depois, a coisa se mostrou muito pior. Apareceu uma mulher da Universidade de Brasília que culpou o ‘eurocentrismo’ por todas as nossas mazelas. Bem, minha vontade era perguntar se ela queria ir para a África viver como bicho. A Europa nos deu as instituições e os estudiosos que seguem essa linha revisionista, ou seja, de imputar aos nossos colonizadores somente as culpas do processo, esquecem-se de quem nos deu o viver civil e a origem das nossas instituições. O Brasil é um país que descende das tradições europeias e a história da cultura miscigenada não passa de bazófia.

Identifico cultura com língua. Falamos português, não exatamente o português peninsular, mas ainda o é. Alguém fala fulani? Ibo? Iorubá? Uma centena de empréstimos lexicais não justifica uma cultura miscigenada, trata-se, ao invés, de usar termos mais  à mão por proximidade física, uma penetração linguística. A lenga-lenga do multiculturalismo somente serve a nos dividir todos os brasileiros. Já dizia aquela divisa: Divide et impera. Temos de ser iguais, nada de sobredireitos e sobrelegislação, o que vale para um tem de valer para o outro, independente de cor, raça, credo e orientação sexual. Ainda mais essa última, que considero assunto de foro privado, não assunto de Estado.

90. Muito além do visível

Encontrar alguém no metrô é uma coisa que, apesar de corriqueira, tem lá seu grau de impossibilidade tácita. São seis vagões com muita gente dentro e cada vagão tem quatro portas. Pode ser que alguém conhecido seu viaje no mesmo vagão e você sequer o veja. Ou pode acontecer de o elemento conhecido entrar exatamente na sua frente, principalmente se for alguémque você não gostaria ver pintado de ouro.

Bem, o caso é outro. Trata-se que encontrei um colega de colégio; um desses tipos apagados e até meio taciturnos que ficam pelos cantos, sob as sombras e costumam ir bem nas matérias que envolvem cálculos (o que no colégio técnico não significava pouca coisa) e penam nas matérias mais humanísticas.

Pois bem, estava eu no vagão, dependurado, quando sinto um cutucão no ombro. Viro-me e eis o elemento, todo sorridente. Lembrei-me de súbito do rosto, mas não daquele sorriso, mais destoante do que um corvo no meio dos pombos.

“Fulano! Como vai?”

“Vou bem, Fulano; e você?”

Depois da troca de amenidades e inúteis impressões do cotidiano, vêm as questões sobre os estudos.

“E aí, que tem feito da vida?”

Soube que nosso amigo Fulano está fazendo um desses cursos de Ciências Argentárias. Ou Administração ou Recursos Humanos ou Comércio Exterior.

“Hum. Que interessante.”

Fulano começou a relatar-me pormenores dos seus serviços.
“…sim, e a gente (a firma) tem quatro escritórios, dois fora e dois instalados junto ao pregão…”

“Ah, é uma corretora?”

“Não, é um call-center.”

Tantos volteios para poder me dizer que fazia uma faculdade virtualmente de nada e que trabalhava como atendente de telemarketing, como tantos coitados por aí. O pior era o sorriso luminoso na cara do Fulano. Ele comprou todo o ideário da empresa (pertence a um grande empresário e que tem uma coluna no editorial do jornal) e acreditava piamente na justiça e correção dos pouco claros mecanismos de “carreira” da dita empresa.

“O chefe me disse que haverá um grande processo de remanejamento… me disse em segredo. A equipe será reduzida drasticamente, mas eu sei que vou ficar, porque ele me disse.”

“Sei.”

Despeço-me, porque chegou a minha estação. Fico pensando em como as pessoas compram qualquer verdade que lhes pareça minimamente conveniente. Antes era a religião, hoje é o mercado e a tal carreira. O ser humano tem um gostinho masoquista em ser manipulado, assim não percebe (ou finge não perceber) que é manipulado. Alguns me parecem sinceramente ingênuos, assim como esse colega; mas o seu sorriso de quem teve o cérebro lavado e que foi insidiosamente convencido pela publicidade, pela mídia e pelo mundo de que aquela é a única via correta, assustou-me de sobremaneira. Foi vendido às prestações e sequer perceber.

E antes tivesse vendido somente “o corpo”, ou seja, sua mão-de-obra; o que, hoje em dia, é quase inevitável. O problema é ter vendido a consciência, ter comprado verdades e ter se imbuído delas. Ou seja, trocamos nossos deuses, movemos o centro da vida, antes vivíamos a vida, hoje, vivemos para financiá-la, mas não a vivemos, pois gastamos o tempo somente em financiá-la. Antes, pior: vivemo-la mal. E vivemo-la tão mal que sequer percebemos o poço no qual caímos, isso é o mais assustador: a falta de consciência da precariedade, de que voltamos a ser animais numa lei do mais forte de cunho financista. Essa alienação geral não roda por si: há inúmeras instituições que a querem assim, a começar pelo próprio governo. Quem gasta muito tempo (ou todo ele) preocupado somente em manter-se não consegue discernir o absurdo que os cerca e a percepção desse absurdo dói: a percepção ou não existe (a maioria dos casos) ou é ignorada (minoria), situação na qual o Fulano cria uma percepção paralela, o famoso mundinho cor-de-rosa onde ele é o centro e o que lhe diz respeito e tudo é perfeito.

O Estado e a política tiram altos dividendos dessa situação: a alienação política lhes favorece.

89. Centelhas de horror

O homem chega ao escritório. Ainda não há ninguém (ele precisou sair mais cedo, pois chovia e, quando chove, a condução fica impossível). Senta-se e a primeira coisa que lhe vem à cabeça é ligar para casa e perguntar se a mulher está bem (faz duas horas que ele saiu de casa) e perguntar sobre o filho, se foi para a escola como se deve. Logo entabula uma conversa sobre deveres tácitos que as pessoas nunca sabem quando fazê-los. O alvo era a mulher e o filho, mas fazia isso através de indiretas dissimuladas, como se a mulher soubesse, de fato, que ela era o receptor final da mensagem enviada. Curioso discurso que assim se arranja: como sendo luz as palavras, tem de refletir num espelho que, na verdade não é um espelho e sim uma simples moldura que deixa os raios de luz passar reto; depois, refletem-se por um espelho (dessa vez verdadeiro) que os devolve a um anteparo imediatamente ao lado do primeiro espelho, o falso. Nomes citados, nunca os dos reais envolvidos, como um jogo barroco de adivinhação; silogismos: “todo vagabundo faz isso, se fulano (nossos incógnitos dissimulados) faz isso, fulano é vagabundo. Meia hora de telefone depois, o homem pousa o fone na base e começa a vagabundear atrás de café com a alma leve do dever cumprido e do controle exercido. E é óbvio que em sua casa, naquele momento, a mulher se vira para se aconchegar junto ao amante que escutou todo o palavrório no viva-voz fazendo caretas engraçadas. Ah, casamentos que estão sempre por um fio por causa de silogismos ranzinzas.

88. Vulnerant omnes, ultima necat

Que olhos querem desgrudar-se do sono pastoso em que estão metidos, de banho-maria no vinho noturno? O despertador retine qual bater de armaduras. Sobressaltada, u’a mão escapa-se do grumo feito pelas cobertas e desliga o lestrigão metálico. No escuro profundo das mal batidas cinco e trinta, continua a estalar incessantemente no ar o tique-taque do despertador de números romanos (com IIII no lugar de IV). O corpo, ao qual pertence (hipoteticamente) a mão, permanece inerte. Era um velho hábito: desde que se aposentara, continuava mantendo no despertador – a quem nunca faltara, um dia que fosse, a mão a dar-lhe corda – o mesmo horário de sair das cobertas para enfrentar a frialdade do ar naquela fusão marginal de campo e cidade, e ir ao trabalho. Não precisa mais deslocar-se ao porto e berrar ordens para os estivadores. Acabou-se tudo aquilo. Agora é esperar o sol raiar, sentar-se no sofá roto, no meio da sala da casa vazia. A mão tira, dentre os coxins, a garrafa de aguardente. Dilui-se a rude luz nas retinas e o jogo de luz e poucas sombras na sala inundada de sol. Dilui-se a realidade acre e a percepção arenosa do mundo. Pousa a garrafa no chão e, pelo mesmo espaço entre os coxins, a mão puxou a Bíblia de capa de couro preto e zíper, cheia dos mesmos dedos e puída. A mão abre num trecho aleatório e sempre o mesmo ou muito próximo do mesmo. Os olhos reconfortam-se e o restante do corpo estala-se sob o sol, como todos os dias.

87. O estupro das palavras

Duas palavras; somente duas. Uma de cada vez. Com elas, quero mostrar que o politicamente correto e o democratismo, como se não bastasse estarem ferrando com o nosso dia-a-dia prático, estão enchendo o galeão da nossa língua (e de outras também) de furos.

Primeira palavra: preferencial. Para facilitar, fica melhor uma comparação: preferencial/exclusivo. São palavras quase antônimas. Ter preferência não é ter exclusividade. Por isso, faço um apelo à Companhia do Metropolitano de São Paulo a especificar essa diferença nas suas peças publicitárias e na enjoativa ladainha de seus alto-falantes. Se o banco destinado às pessoas inaptas (ponho inaptas porque todas as classes de pessoas às quais os bancos são destinados faria uma longa lista) é preferencial, não pode ser feita uma peça publicitária incentivando que as pessoas deixem os assentos livres, o que qualificaria uma exclusividade. Ao menos foi coerente a retirada das velhas plaquetas que havia logo acima dos bancos que os identificavam como preferencial e em não “havendo pessoas nessas condições, seu uso é livre”. Já que a ditadura do politicamente correto veio para ficar, que seja específica no uso da língua: os bancos são exclusivos, uma vez que têm de ficar livres, e não preferenciais.

Segunda palavra: tolerância. Usada amplamente pelos defensores dos direitos dos homossexuais. O curioso é que um grupo que prega a igualdade (e até a superigualdade, mas deixemos isso para outra ocasião) pregue também a tolerância. A expressão mais adequada seria convivência pacífica (não que não seja usada, mas o é em menor escala, secundariamente). Tolerar é suportar, ou seja, fingir que nada acontece; fingir, em aparências, que tudo é normal, aguentar uma situação, ignorá-la, em suma: traduz a hipocrisia reinante; o que mostra que o que se busca não é a integração e aceitação pela maioria da sociedade, mas sim a criação de um nicho, de uma sociedade paralela. O uso impune de tolerância deixa isso claríssimo; não se importam absolutamente com que pensa o resto da sociedade e querem ser aceitos à força em vez de procurarem um consenso. Isso não me parece democrático, ao contrário, é uma democracia às avessas. Uma circuntirania travestida de democracia, de discriminação positiva (outro monstro do politicamente correto). É democratismo.

As palavras terminam por amalgamar-se a conceitos que originalmente lhes são opostos, levando a uma bastardização do significado original e à cretinice disfarçada de bom senso.

86. No columbário

É um horror morar com os pombos. Dentro da torre cônica há uma boa dezena de puleiros acima da minha cabeça. São centenas de pombos cinzentos. Eles arrulham a noite toda, um ronco insuportável. E em cada pesadelo penoso, lançam cada uma chuva branca sobre mim e as minhas coisas, arrumadas logo abaixo. Tudo está coberto por guano: os livros, o despertador; as penas colam-se a tudo. Não adianta berrar com eles; esvoaçam e cagam; fogem e imediatamente estão de volta. Mas de dia, eles me levam para o trabalho voando, segurando-me pelo casaco; e eu trabalho junto dos urubus.

Vídeo: «Os sons de Istambul»

Tirado do Crônicas Otomanas.

Curioso de como as grandes cidades se parecem, seus rumores. Se bem que Istambul, pela sua língua e sua cultura particular, ainda tem um sabor diferente, não tão homogeneizado como São Paulo ou Nova Iorque. É muito interessante ouvir o adhan (o chamado à prece feito pelo muezim do alto dos minaretes das mesquistas, esse Allahu ekbar que se escuta em vários pontos do vídeo) enquanto as pessoas andam normalmente.

85. Osso do olho

Quando eu era criança, achava que tínhamos um osso dentro dos olhos. A ideia parecia natural, pois eu não via sentido na íris boiando sem lastro no vazio branco do corpúsculo mole. Era um osso cilíndrico, cujas pontas estavam na íris (que, àquela época, eu identificava com a mica que havia nos poucos terrenos baldios que existiam) e lá trás, na junção com o cérebro, e era esse osso que mantinha o formato de esfera e sustinha os olhos dentro das suas órbitas, impedindo que caíssem. A própria íris era a ponta desse osso, que era aerado e não maciço. O osso consistia em uma parede externa, fina, cujo diâmetro era o dá própria íris; outro cilíndro existia por dentro, no centro do osso, esse sim, maciço, do diâmetro da pupila. Tampouco eu sabia àquela época que a pupila oscila de acordo com a luminosidade do ambiente. Por dentro, ligavam os dois cilindros várias lâminas ósseas que começavam no miolo maciço e fundiam-se na carapaça, no lado interno da carapaça cilíndrica. Quando seco, olhado de frente, o osso pareceria uma turbina de avião e era nos compartimentos formados por essa estritura óssea que ficava o pigmento dos olhos. Feito com um pouco de mica, claro.