84. Questiúncula: traduções pré-existentes

Atualizado em 23/09.

É comum que nos deparemos em textos que citam outros. Várias vezes algum escritor quer dar veracidade àquilo que põe ao papel ou mesmo revestir de verossimilhança algum fato corrente e, para tal, se faz necessária a citação de alguma autoridade, ou seja, a inserção de uma auctoritas.

No caso específico, faço referência às citações do Alcorão, que aparecem no texto com o qual estou trabalhando atualmente e também como citação inicial no romance “Meu nome é vermelho”, do escritor turco Orhan Pamuk.

Antes de tudo, é digna de nota a questão da tradução em si dos romances de Pamuk publicados pela Companhia das Letras. Não se trata de traduções feitas por um tradutor de versado em turco e sim uma tradução mista das versões inglesa e francesa. Tudo bem, até se entende a falta de um tradutor apto em língua turca.

Porém, na página 11 da 2ª edição de “Meu nome é vermelho” há três citações do Alcorão. As citações estão dispostas da seguinte maneira:

Então, vós cometestes um assassinato e incriminais uns aos outros por ele.
Corão, “A vaca”, 72

Nada há em comum entre aquele que é cego e aquele que vê
Corão, “O criador integral” ou “Os sábios”, 19

A Alá o Oriente e o Ocidente.
Corão, “A vaca”, 115

Bem, inicialmente, pelo que pude observar, tais citações foram traduzidas de uma das traduções e, mesmo sem ver, posso arriscar que seja da tradução francesa, pelo costume da escola de tradução francesa mais antiga em ‘adaptar’ as coisas.

Em um caso como esse, creio que seria melhor que se recorresse a uma tradução já existente da obra. Afinal, não foi Pamuk que escreveu aquela referência, obviamente que foi tirada da tradução turca do Alcorão; portanto, o mais coerente é que se busque uma tradução já existente de uma citação. Podemos ver que a tradução portuguesa não equivale à versão do Alcorão em Francês,  dada à luz em 1990 pelo Professor Mouhammad Hamidullah:

Et quand vous aviez tué un homme et que chacun de vous cherchait à se disculper!
Le Coran, II, 72

L’aveugle et celui qui voit ne sont pas semblables.
Le Coran, XXXV, 19

A Allah seul appartiennent l’Est et l’Ouest.
Le Coran, II, 115

Vejamos os mesmos versículos na versão inglesa:

And remember the incident when you killed a man and started disputing as to who
killed him, […]
The Quran, II, 72

The blind and the seeing are not alike.
The Quran, XXXV, 19

To Allah belong the East and the West.
The Quran, II, 115

Uma vez que a versão portuguesa dos versículos presentes na edição brasileira de “Meu nome é vermelho” não parecem ser traduções nem da versão francesa e tampouco da versão inglesa do Alcorão, só pode ser a tradução de um dos dois decalques (francês ou inglês) feitos da versão turca dos versículos.

Acredito que sendo o Alcorão já inserido na tradição literária, assim como a Bíblia, deve-se utilizar uma versão, digamos assim, já “autorizada”, uma versão já traduzida anteriormente e usada tal como texto o original, ou seja, uma versão igualmente litúrgica.

Seria conveniente que os versículos usados por Pamuk fossem pescados em alguma versão do Alcorão em língua portuguesa, como a versão do Prof. Dr. Helmi Nasr:

Lembrai-vos de quando matastes um homem e disputastes sobre ele.
Alcorão, II, 72

E o cego e o vidente não se igualam.
Alcorão, XXXV, 19

E de Alá é o Levante e o Poente.
Alcorão, II, 115

Além o problema com a transposição dos versículos, há o problema da notação. Pelo que pode notar-se, tanto em francês como em português (nas notas de rodapé de ambas as edições), não se cita o nome da sura, como está na tradução do livro de Pamuk, mas sim o número da sura em algarismo romano. Assim como há uma notação padrão para citações bíblicas, essas sim, são acompanhadas por uma sigla padrão do nome do livro ou do próprio nome: Ex 19:4 ou Êxodo 19:4; Deut 32:39 ou Deuteronômio 32:39.

Assim também quando precisamos de uma citação bíblica que está em um texto a traduzir: que se recorra a uma das traduções existentes, a que melhor couber ao tradutor ou à natureza da obra. Se é o texto de um escritor católico, é melhor que se use a versão da Ave Maria ou se for algo menos ligado ao catolicismo, uma das versões de Almeida.

Somente para finalizar, a tradução brasileira do Alcorão pelo Prof. Dr. Nasr me parece excelente, exceto pela questão dos antropônimos e do teônimo. Há nomes que já tem tradição e tradução em português, como Maomé e Alá; não me parece vantagem mantê-los no original transliterado como Allah e Muhammad. Por isso na citação de II, 115 que fizemos,  trocamos Allah pelo já conhecido Alá.

Ainda incluímos, para fim de comparação, os três versículos do livro na tradução do Prof. Samil El-Hayek.

E de quando assassinastes um ser e disputastes a respeito disso; mas Deus revelou tudo quanto ocultáveis.
Alcorão, II, 72

Jamais se equipararão o cego e o vidente.
Alcorão, XXXV, 19

Tanto o levante como o poente pertencem a Deus […]
Alcorão, II, 115

Tradução de El-Hayek usa Deus em lugar de Allah, mas usa Mohammad para se referir ao Profeta.

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2 Comentários

  1. José Américo de Melo

     /  26/09/2009

    Admirável investigação.

    Responder
  2. Bom, eu até gostei se fosse isso que eu estava procurando mas na verdade, Eu estou procurando uma resposta para a pergunta: o Que é QUESTIUNCULA!!!
    Mas eu agradeço!!!

    Responder

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