82. A tradução vista por um neófito

Não que eu considere meus conhecimentos algo sobrenaturais, ao invés: são plausíveis e possíveis. Vai pouco de tempo em acumulá-los com leitura e treino. Afinal, saber uma língua estrangeira é sempre algo que se apresente de modo parcial e é construído aos poucos. Por isso não acredito muito nesses cursos de inglês que se proliferam como fungos pela cidade, tampouco o de espanhol.

Nesses últimos dias, propus-me, tanto à guisa de exercício quanto num possível resultado prático, a tradução de um livro em espanhol, um livro argentino.

Sempre há os engraçadinhos para dizer que o espanhol é uma língua fácil, muito similar ao português. De fato, é muito similar ao português, são línguas irmãs. Mas quem disse que irmãos são iguais ou pensam da mesma maneira?

Traduzir um texto em castelhano traz sérios problemas. O mais fácil de ser percebido são os falsos cognatos. Há quilos deles e são eles que geram o famoso portunhol. Em segundo lugar e ainda pior são as regências nominas e verbais que diferem e grandemente. Você rapidamente percebe que há algo errado com uma tradução do espanhol quando há verbos em regências insólitas ou inexistentes em português.

O mito da facilidade do espanhol tem a ver com a similaridade gráfica e de estrutura morfológica, o que gera os famosos espertalhões. Uma coisa é compreender ou entender para si; outra coisa totalmente oposta é verter na sua língua para que os outros possam compreender, ou seja, que aquele texto traduzido fique legível a ponto de não ser óbivo que se trata de uma tradução; eis a meta de todo tradutor. E com o espanhol é ainda mais complicado em atingir essa meta devido às similaridades já apontadas e a tendência da vista, por conta disso, fazer decalques. Tiro um exemplo do texto que estou a traduzir:

1. […] y él le tomó simpatía […]

A tradução mais óbvia, para um portunholeiro seria:

1a. *[…] e ele lhe tomou simpatia […]

Mas que em português – não vou nem entrar nas regências nominais e verbais respectivas – não faz muito sentido. A estrutura em português pede aí não um verbo com a regência apresentada em espanhol, mas algo do tipo:

1b. […] e tomado de simpatia para com ele […]

O mais próximo seria tomar em sua regência bitransitiva e pronominal:

1c. […] e tomou-se de simpatia por ele […]

Mas tal construção ainda é condenável por ser considerada galicismo (Houaiss), sobrando como opção 1b. para maior proximidade com o sentido original do espanhol que é o de ‘alguém despertar simpatia por outrem’.

Esse é só um exemplo simples para demostrar a complexidade que pode esconder-se atrás de uma língua aparentemente próxima à nossa. Outra coisa importante que muitos deixam de lado: para uma boa tradução, não basta o conhecimento razoável de uma língua estrangeira. Além dos recursos necessários, como acesso a bons dicionários da língua-fonte, bilíngues e monolíngues, gramáticas e todo o mais, é imprescindível um conhecimento ainda maior da sua própria língua, não tanto em termos formais (o que é interessante, claro), mas na vivência da própria língua, de conseguir deduzir as formas mais óbvias em português e isso só se consegue com tempo e com muita leitura. O tradutor é, primeiramente, um profundo conhecedor da sua própria língua.

Além do mais, há textos e textos e todos requerem um maior ou menor grau de pesquisa. De um manual de máquina fotográfica a um romance. Os manuais de natureza vária apresentam uma certa facilidade no sentido de que fórmulas e termos técnicos repetem-se com uma certa frequência, o que facilita bastante. Há alguns meses, traduzi uma série de manuais de alfaiataria italianos. O primeiro deu um certo trabalho; o segundo, com as anotações do primeiro, já não tanto, do terceiro ao sexto, posso dizer que a coisa fluiu muito a contento.
E claro fica que o tradutor só se forma quando traduz. Exercício, tentativa e erro, leituras, frequentes revisões. Acho que caminho numa direção que pode oferecer muito se for bem trilhado o caminho.

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4 Comentários

  1. ô, sérgio, que divertido você postar isso aqui. estou agora traduzindo uns poemas de um espanhol do começo do século xx e, além de ter de estudar a versificação em castelhano, dei de ler coisas como o tratado de versificação do bilac.

    na poesia as falsas facilidades estão me trançando as pernas. o poema é um burilado, né, e eu tento deixar o texto de partida entremeado no traduzido. aí a métrica correspondente é uma conquista a duras penas e os falsos cunhados querem porque querem aparecer. no final das contas é tão difícil quanto traduzir do alemão.

    Responder
  2. Sérgio F. Mendes

     /  16/09/2009

    Então, Marcos, na poesia nem se fala. Acho que há somente duas línguas piores de traduzir: o francês (com o qual nem me meto) e o catalão. Ambas pela grande quantidade de ‘monossílabos significativos’ e de oxítonas… estou tem um bom tempo já (principalmente com a falta de tempo) para terminar de traduzir Les barres de sang do Jacint Verdaguer e toda vez que pego me vem um suadouro!
    A poesia tem toda a preocupação com rima e metrificação. É trabalho pesado.

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  3. Sérgio F. Mendes

     /  20/09/2009

    É, Marcos, a Guerra Civil pôs muita gente para fora da Espanha. Notoriamente parte da intelectualidade ligada às nacionalidades históricas. Muito boa a dica.

    Responder

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