75. Antes que o tempo apague

Talvez nem Berlim, epicentro de duas guerras mundiais e tantas vezes devastada, tenha mudado tanto quanto Piratininga. Num espaço de um mero século – digo mero porque o que é um século para cidades como Roma ou Atenas? – ergueram-se no mesmo local e dividiram as mesmas ruas três diferentes cidades. Entre 1860 e 1960, ergueram-se a cidade de barro (“a mud city”, como escreveu um viajante inglês), cidade queria-ser-paris com suas pedras entalhadas em finos e delicados ornamentos, como bolo de bodas, suas argamassas moldadas e colunatas e, por fim, a feia cidade de concreto reto e anguloso, repositório de fuligem e seres da umidade. No meio da babel estilística que é a cidade, vê-se traços das três cidades; se bem que a cidade colonial perdura-se em meia dúzia de casarões espalhados e distantes, a cidade neoclássica ainda tenta sobreviver, apesar da sanha de progresso. Foi num desses edifícios com aspecto de bolo, deleite de olhos curiosos, que vi algo que me chamou a atenção: na lateral prédio que abriga o Empório Godinho, na Líbero Badaró, à esquerda de quem sobe para a Praça do Patriarca, pouco antes dessa, há molduras feitas de argamassa, no mesmo estilo dos detalhes do prédio. Quase uma moldura de quadro. São três molduras, do tamanho de dois ou três andares onde, provavelmente, ostentava-se publicidade de cognacs ou perfumes esquisitos. Nestes tempos de cidade limpa, vêm-nos à memória as tantas fotos com neons e placas diversas com os mais variados reclames. Mas o espaço muda e as intenções também.

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