73. História

Às vezes me pego em dúvidas sobre a cidade que muda a cada vento, como se de areia fosse feita. Como se marca a história de uma cidade? Há as mais velhas, cuja história marcou-se com batalhas, chacinas e tropas triunfantes. Arcos do triunfo e cemitérios nos dizem isso com seu silêncio marmóreo. Mas aqui, onde tudo voa ou é escrito no barro das taipas, é difícil ver a história, precária. Há coisas como a Matriz Velha ou estações de trens sumidas há mais de vinte anos cuja existência é mais difícil de comprovar do que a ruinosa Çatal Höyük. A história duma paragem constrói-se com tempo, muito tempo. Temos de dar tempo a história antes de começar a escarafunchá-la com nossas pinças e penas curiosas. O castelinho da rua Apa continua no mesmo lugar, é quase um memorial; o funâmbulo Meneghetti ainda assusta as velhinhas; a história lentamente se vai construindo. Um dia, talvez, teremos a graça mofada que pode ter Roma ou Lisboa, decalcada sobre recordações que se transmutam com o tempo e soem contar-nos mentiras.

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