71. Rua fantasma

A paisagem urbana mudou muito. Pode-se dizer que no espaço de um mísero século, a cidade quase colonial transformou-se na metrópole repugnante. As casas de portas de folha dupla e janelões deram espaço ao neoclássico comportado e simétrico que, ao seu turno, foram desmanchados para dar terreno ao concreto armado. No vórtice de construções e demolições movido pela modernidade a todo custo, tudo que lembrava passado entrava no corte dos novos empreendedores: a cidade há de ser moderna.

A matriz colonial ornava o largo, mas a burguesia industrial em formação viu que aquela igreja era um símbolo de retrocesso. Ofereceram à cúria um projeto da nova matriz, melhor, da nova catedral: grande, imensa, de pedra, como as europeias que tinham lá seus setecentos anos. Depois de muitas rifas e gincanas, arrumou-se dinheiro suficiente para a demolição da velha igreja de taipa e tijolo e para a inauguração da pedra fundamental. A nova igreja, na sua lenta formação qual uma planta, extrapolou o espaço da predecessora e comeu uma quadra, ampliando também o velho largo. A matriz passa a catedral e o largo, a praça. Mais de quarenta anos para as formas góticas alçarem totalmente suas cristianíssimas volutas e pontas em direção aos céus. Para maior glória de Deus, uma rua morreu, atropelada na largura pelo comprimento da nave. A metrópole conta hoje com sua catedral e uma rua a menos. Porém, há quem diga que quem presencia o transcorrer da noite no interior do templo vê rápidas e grandes silhuetas luminosas atravessarem a igreja de lado a lado, como as carroças e os primeiros carros que chegaram a trafegar pelos paralelepípedos da rua do fundo da velha matriz. Tais espectros sutis formam-se e se esvaecem pelos muros da catedral quando só as velas iluminam fracamente o interior, no silêncio da noite.

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