69. Traçado

Não houve ordem alguma, apenas necessidade. Ruas estreitas, largos irregulares de terra batida, igrejas de torres que tinham milhares de vezes a forma das mãos que as construiram, telhados com telhas em forma de coxas de escravos. As ruas encontravam-se e continuam a encontrar-se onde lhes convinham e lhes convêm, sem atinar com o ângulo do encontro; seguemm esquivando-se de taludes e barrancos, descendo à beira dos dois rios. Os nomes se sucederam, tão irregulares quanto os traçados e comprimentos. Algumas iam à borda e saíam da paliçada: viravam caminhos para os sertões e lonjuras infestadas de gentios. Do alto da colina, um colégio jesuíta cansado, com seus índios cansados à moda portuguesa e seus colonos recém-chegados, mas já cansados à moda indígena. Cidade-colina de língua irregular, que não seria prevista pelo Bardo. Os caminhos irregulares que se encontram no nada nesse fim-de-mundo ao sul do mundo português; a língua que luta contra a trajetória de volutas feitas pelos mosquitos tão tupis. As ruas continuam cheias de barro, pedras, paralelepípedos, asfalto, mosaico português. A pedra chegou e solidificou o traçado irregular: agora é inquebrantável.

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1 comentário

  1. Lindo; cacofonia luso-brasileira que vai da arquitetura a costumes e língua.

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