65. Pluvioso

Ontem, um contratempo jurídico arrastou-me ao prédio da sede do CREA de São Paulo, encravado na esquina da Teodoro Sampaio com a Faria Lima. Subi ao primeiro andar e apresentei meus documentos ao mocinho que estava no setor de “Dívida ativa”; pediu que eu me sentasse e aguardasse. Sentei-me na cadeira estofada, diante de uma mesa de fórmica; atrás da mesa, outra cadeira e uma grande janela. Enquanto o rapaz ecarafunchava caixas e computadores por trás de um outro balcão na sala funda, fiquei sentado e a observar a vida la fora, sob a chuva.

A janela precipitava-se do primeiro andar do prédio, após um térreo, uma sobreloja e um misterioso ‘SG’, conforme indicava o mostrador luminoso do elevador; dali, a vista era justamente a da esquina. De um lado, a Teodoro Sampaio estreita, com três faixas lotadas e cheias de ônibus. Chovia. Sob a chuva, os letreiros luminosos dos ônibus alternavam-se indicando destinos e passagens. Tudo parado. Uma multidão de guarda-chuvas precipitava-se na ponta das calçadas, pronta para tomar de assalto o asfalto. As depressões dos pavimentos eram pequenos lagos sujos. Na esquina oposta, um grande muro cercava a obra do metrô (creio que seja do metrô), escondendo uma desordem de concreto e lama. Chovia, garoava grosso. Mais guarda-chuvas. Quem disse que isso tudo é bonito padece de uma utopia incurável, em estado terminal.

O rapaz voltou com os dados e pedi a ele que fizesse um boleto. A paisagem continou cinza e intratável. Impávida.

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