61. Sorvetes, parques de diversão, montanhas e Bíblia

A curiosidade pode nos levar a lugares nunca antes imaginados; principalmente a curiosidade baseada na filologia amadora.

O caso que explico começou com um mero passeio em shopping, com um quiosque de meio de corredor. Era o quiosque de uma franquia de sorvetes chamada Tibidabo, não sei em qual shopping, mas provavelmente você já deve tê-lo visto em algum canto.

O nome ecoou na minha cabeça; já o deveria ter visto em algum lugar. Dias depois, ouvindo a Catalunya Informació, ouvi uma referência a um parque de diversões em Barcelona, com o mesmo nome, Tibidabo. A questão que, até então não me havia chamado a atenção suficientemente, ganhou mais uma informação e ficou ali, jacente ainda. Um pouco maior, mas silenciosa.

Tempos mais tarde, estive em Santos. Apesar da curta distância entre a Capital de São Paulo e seu porto, nunca havia estado propriamente em Santos; sempre nos arredores litorâneos: Praia Grande, Mongaguá, Peruíbe.

Santos me impressionou. Apesar da franca decadência e da sujeira (como o centro de São Paulo, não é?) há coisas no mínimo curiosas a serem vistas. Igrejas, o Panteão dos Andradas, o Museu do Café, o bondinho, o funicular do Monte Serrat; um bom passeio de um dia todo.

Foi em Santos, mais precisamente na Igreja do Valongo, próxima às ruínas homônimas, que, observando detalhadamente a pintura e as inscrições, deparo-me com a seguinte linha, escrita em arco: “Et tibi dabo claves regni caelorum”. Agora sim, o estalo. Fiquei olhando para a frase que, no meu latim precário, cheguei a conclusão que significava “E a ti darei as chaves do reino dos céus”.

Pelas lembranças que tinha da Basílica de São Bento, cheia de inscrições latinas em suas paredes, pensei que poderia se tratar de um versículo bíblico. Tive de ser rebocado da igreja pela minha namorada, visto que havia ainda muito passeio pela frente. Tirei algumas fotos da inscrição, mas nem era assim tão necessário: a frase instalou-se na minha mente e agora transformou a curiosidade sobre o sorvete e o parque de diversões em obsessão. Se bem que ambos os nomes têm as palavras aglutinadas e, a expressão latina é separada em dois componentes. Mas, pensei, o inusitado do nome tem algo a ver com isso.

Chegado em São Paulo, parti para a Wikipédia. Muita gente a critica porque ela é editada por muita gente e tantas coisas mais; porém, como uma direção, a considero válida. Bati o ‘Tibidabo’ na versão catalã do sítio e, para minha nova surpresa, aparece um verbete que trata sobre um acidente geográfico. U’a montanha. E no texto, a origem do nome, tirada de Mateus, 4:9: “haec omnia viderunt tibi dabo si cadens adoraveris me”, ou seja, “Dar-te-ei tudo isto se, prostrando-te diante de mim, me adorares”, segundo a tradução católica da Vulgata; ou seja não exatamente do trecho na parede da Igreja do Valongo, que é Mateus, 16:19 (“Eu te darei as chaves do Reino dos céus”, segundo a tradução católica); de fato, uma citação bíblica.

A história toda se baseia no fato de a dita montanha estar em Barcelona, ou seja, próxima ao mar, e, ostentar a invejável altura de 516,6 metros. Tenhamos em conta que os píncaros da Serra do Mar em São Paulo estão por volta de 780-800 metros, assim como a própria cidade no seu ponto mais alto, a Avenida Paulista, no auge de seus 808-810 metros (segundo as cotas pintadas num dos acessos da Estação Consolação do Metrô). De um monte alto, Satanás mostrou a Jesus Cristo o que havia na Terra e lhe disse que, se Jesus o adorasse, aquele todo seria seu.

Esse alto monte de Barcelona terminou por receber tal designação, muito possivelmente por conta dessa passagem das Escrituras.

E é assim que fui do sorvete à Bíblia, com várias escalas.

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6 Comentários

  1. DS

     /  11/08/2009

    Excelente texto, Sérgio. Como já lhe disse, também já fiz descobertas linguísticas por acaso. Mas nada se compara às coincidências da sua história.

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  2. Adoro etimologias, especialmente quando falsas.

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    • Sérgio F. Mendes

       /  12/08/2009

      A quais falsas que você se refere? Essa do monte Tibidabo pode ser até duvidosa, mas se justifica pelo fato de a referência inicial ser da mesma época em que apareceram outros topônimos barceloneses de fundo religioso (Vall d’Hebron) por exemplo.

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  3. Magnânima Alteza, referia-me às viagens do “Crátilo”, ou às forçações de Isidoro de Sevilha. A etimologia de tibidabo é também deveras engraçada e, conquanto verdadeira, exemplar do agudo faro linguístico de vossa real pessoa.

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  4. Juliana

     /  14/08/2009

    O que dizer? Participei de tudo isso…A maneira como você escreveu é maravilhosa…E sua curiosidade pelas coisas, mais ainda

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  5. Samuel

     /  23/08/2009

    Adorei esse site vou indicar para meus amigos, o conteúdo é parecido com o do http://www.contradicoesbiblicas.com.br

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