73. História

Às vezes me pego em dúvidas sobre a cidade que muda a cada vento, como se de areia fosse feita. Como se marca a história de uma cidade? Há as mais velhas, cuja história marcou-se com batalhas, chacinas e tropas triunfantes. Arcos do triunfo e cemitérios nos dizem isso com seu silêncio marmóreo. Mas aqui, onde tudo voa ou é escrito no barro das taipas, é difícil ver a história, precária. Há coisas como a Matriz Velha ou estações de trens sumidas há mais de vinte anos cuja existência é mais difícil de comprovar do que a ruinosa Çatal Höyük. A história duma paragem constrói-se com tempo, muito tempo. Temos de dar tempo a história antes de começar a escarafunchá-la com nossas pinças e penas curiosas. O castelinho da rua Apa continua no mesmo lugar, é quase um memorial; o funâmbulo Meneghetti ainda assusta as velhinhas; a história lentamente se vai construindo. Um dia, talvez, teremos a graça mofada que pode ter Roma ou Lisboa, decalcada sobre recordações que se transmutam com o tempo e soem contar-nos mentiras.

72. Enciclopédia da Vida Pequena

Uso uma régua para apoiar o estilete quando faço os recortes do jornal; a hemeroteca é de minha responsabilidade: manter atualizados folhas e índices das pastas. Uso a régua somente com um dos lados: o das polegadas. O sistema imperial é caduco, mas os centímetros medem tudo no mundo e seu todo. Do sistema imperial, só grita a régua de bronze no pé do monumento da Praça Trafalgar, grita sem eco.

71. Rua fantasma

A paisagem urbana mudou muito. Pode-se dizer que no espaço de um mísero século, a cidade quase colonial transformou-se na metrópole repugnante. As casas de portas de folha dupla e janelões deram espaço ao neoclássico comportado e simétrico que, ao seu turno, foram desmanchados para dar terreno ao concreto armado. No vórtice de construções e demolições movido pela modernidade a todo custo, tudo que lembrava passado entrava no corte dos novos empreendedores: a cidade há de ser moderna.

A matriz colonial ornava o largo, mas a burguesia industrial em formação viu que aquela igreja era um símbolo de retrocesso. Ofereceram à cúria um projeto da nova matriz, melhor, da nova catedral: grande, imensa, de pedra, como as europeias que tinham lá seus setecentos anos. Depois de muitas rifas e gincanas, arrumou-se dinheiro suficiente para a demolição da velha igreja de taipa e tijolo e para a inauguração da pedra fundamental. A nova igreja, na sua lenta formação qual uma planta, extrapolou o espaço da predecessora e comeu uma quadra, ampliando também o velho largo. A matriz passa a catedral e o largo, a praça. Mais de quarenta anos para as formas góticas alçarem totalmente suas cristianíssimas volutas e pontas em direção aos céus. Para maior glória de Deus, uma rua morreu, atropelada na largura pelo comprimento da nave. A metrópole conta hoje com sua catedral e uma rua a menos. Porém, há quem diga que quem presencia o transcorrer da noite no interior do templo vê rápidas e grandes silhuetas luminosas atravessarem a igreja de lado a lado, como as carroças e os primeiros carros que chegaram a trafegar pelos paralelepípedos da rua do fundo da velha matriz. Tais espectros sutis formam-se e se esvaecem pelos muros da catedral quando só as velas iluminam fracamente o interior, no silêncio da noite.

70. Ístria e Quarnerolo

Esqueci-me de enxaguar a boca com o desinfetante bucal. Acabei tomando só o café com leite; esqueci o bolo na geladeira. Tudo por causa de um morto, um morto há muito morto e que nem era destas paragens. De novo Tuone Udaina me aparece nos pensamentos difusos: reclama pelo conto sobre si que comecei a escrever e nunca terminei, nunca passando de Bartoli. Veio-me de manhã à cabeça o homem velho, decrépito, sacristão e barbeiro que, no fim da vida, quando Bartoli o conheceu, babava em quatro línguas pela sua boca sem dentes. Inclusive uma língua que morreu consigo e tem um nome vagamente canino: dálmata. É por ele que se pôde coletar as últimas informações sobre o dálmata, Bartoli fez sua monografia na Academia de Viena com base nos dados do velho barbeiro desdentado. Udaina, como todo vivente, morreu; morreu com a explosão de u’a mina instalada por um anarquista. Perderam-se o dálmata, o meu café da manhã e o enxágue dos meus dentes.

69. Traçado

Não houve ordem alguma, apenas necessidade. Ruas estreitas, largos irregulares de terra batida, igrejas de torres que tinham milhares de vezes a forma das mãos que as construiram, telhados com telhas em forma de coxas de escravos. As ruas encontravam-se e continuam a encontrar-se onde lhes convinham e lhes convêm, sem atinar com o ângulo do encontro; seguemm esquivando-se de taludes e barrancos, descendo à beira dos dois rios. Os nomes se sucederam, tão irregulares quanto os traçados e comprimentos. Algumas iam à borda e saíam da paliçada: viravam caminhos para os sertões e lonjuras infestadas de gentios. Do alto da colina, um colégio jesuíta cansado, com seus índios cansados à moda portuguesa e seus colonos recém-chegados, mas já cansados à moda indígena. Cidade-colina de língua irregular, que não seria prevista pelo Bardo. Os caminhos irregulares que se encontram no nada nesse fim-de-mundo ao sul do mundo português; a língua que luta contra a trajetória de volutas feitas pelos mosquitos tão tupis. As ruas continuam cheias de barro, pedras, paralelepípedos, asfalto, mosaico português. A pedra chegou e solidificou o traçado irregular: agora é inquebrantável.

68. A colina vista do noroeste imediato

A colina é uma formação suave, encravada à beira dum riacho cujo curso molda. Sem grandes ladeiras; aclives suaves. Mas alta o suficiente para que se pudesse observar toda a várzea num voo. Isso, sem contar a velha várzea do outro lado, um rio de mosaico português. A própria colina mal se vê: prédios escarpados, de pequena monta e sujos amotoam-se; na quebra entre eles, decrépitos casarões neoclássicos. Daqui, só se veem suas cumeeiras e oitões, os prédios brutos de garagem dominam tudo, inclusive um que há trinta anos espera ser completado, expondo sua caveira de concreto mal ajambrada por tijolos encardidos. Em meio a tantos gritos de concreto mal desenformado, boia o domo da catedral e suas torres a pedir clemência. Um grito fino de fé azinhavrada.

67. Na várzea do Glicério

e7343_glicerio_rua_lavapesA decadência instalou-se em algumas ruas e parece que desde sempre o local foi sujo e perigoso. Reboque de décadas despencando, estuques e frisos à grega soltando-se do tijolo cru sob o peso dos anos e da fuligem dos combustíveis.
Faz muito que não passo pela várzea do Glicério, mas dava a impressão que aquelas ruínas habitadas tinham convivido com o Foro romano ou que tinham aclamado Dom Pedro quando ele voltou triunfante do Ipiranga. Frisos cheios de datas, o rocambolesco neoclássico da imigração italiana. Ao contrário: àquele tempo da Independência, tratava-se somente dum charco cheio de taboas, um braço do Tamanduateí onde pescavam os ribeirinhos e lavava-se a roupa. A decadência ainda não pensava em instalar-se por aquelas paragens.

66. Liberdade

Ela e a amiga chegaram no alto da montanha, onde somente havia a cabana que as aguardava e mata. Aos pés da montanha, via-se a cidade à qual, burocraticamente, a cabana se ligava. Mal puseram as malas à porta da cabana, a mais velha (tinham pouca diferença) olhou a longamente a larga planície que se extendia imediatamente após a cidade e, com tom jocoso, repetiu: “C’est jolie la liberté, n’est-ce pas?”. A mais nova, numa pedra mais abaixo do patamar onde estava a outra, retrucou: “Mas quem foi que te disse que aqui está a liberdade? Saimos da nossa prisão por um tempo, mas a nossa liberdade é a prisão dos outros. Só somos livres quando estamos na prisão dos outros”. Entreolharam-se. Entraram na cabana e, mudas, fizeram macarrão instantâneo.

65. Pluvioso

Ontem, um contratempo jurídico arrastou-me ao prédio da sede do CREA de São Paulo, encravado na esquina da Teodoro Sampaio com a Faria Lima. Subi ao primeiro andar e apresentei meus documentos ao mocinho que estava no setor de “Dívida ativa”; pediu que eu me sentasse e aguardasse. Sentei-me na cadeira estofada, diante de uma mesa de fórmica; atrás da mesa, outra cadeira e uma grande janela. Enquanto o rapaz ecarafunchava caixas e computadores por trás de um outro balcão na sala funda, fiquei sentado e a observar a vida la fora, sob a chuva.

A janela precipitava-se do primeiro andar do prédio, após um térreo, uma sobreloja e um misterioso ‘SG’, conforme indicava o mostrador luminoso do elevador; dali, a vista era justamente a da esquina. De um lado, a Teodoro Sampaio estreita, com três faixas lotadas e cheias de ônibus. Chovia. Sob a chuva, os letreiros luminosos dos ônibus alternavam-se indicando destinos e passagens. Tudo parado. Uma multidão de guarda-chuvas precipitava-se na ponta das calçadas, pronta para tomar de assalto o asfalto. As depressões dos pavimentos eram pequenos lagos sujos. Na esquina oposta, um grande muro cercava a obra do metrô (creio que seja do metrô), escondendo uma desordem de concreto e lama. Chovia, garoava grosso. Mais guarda-chuvas. Quem disse que isso tudo é bonito padece de uma utopia incurável, em estado terminal.

O rapaz voltou com os dados e pedi a ele que fizesse um boleto. A paisagem continou cinza e intratável. Impávida.

64. Cidade orgânica

Apesar de pegar metrô todos os dias na estação de Artur Alvim, dificilmente passo para o outro lado da linha. Explico-me ao leitor de fora da cidade ou que não conhece a zona Leste: a linha do metrô, paralela com aquela da CPTM, é aberta, ou seja, é metrô de superfície e, para atravessá-la, somente usando de pontes, passarelas ou pelas próprias estações de metrô que fazem o papel. A estação de Artur Alvim ajuda a ligar as duas partes do bairro divididas pela linha, uma ao norte e uma ao sul; quem vem de um dos lados, dificilmente tem o que cheirar do outro, pois entra no metrô e vai direto para o centro.

Tenho um amigo que mora do outro lado e, quando vou visitá-lo, passo pela parte norte da estação. É fácil saber de que lugar se fala. Se você estiver no metrô, sentido Corinthians-Itaquera, nas proximidades da estação de Artur Alvim a qual vou fazer menção está à esquerda, em oposição à elevação ocupada pelos prédios do Conjunto Habitacional.

Aconteceu-me de hoje, tomar uma carona oferecida por uma amiga: “Pego você na Águia de Haia”.Depois de muito tempo sem ali estar, desembarco na estação, mas, em vez de ir tomar o metrô, atravesso passarelas e mezanino e saio do lado norte. Ali é bem diferente do lado sul: há um terminal de ônibus e as coisas têm um aspecto largado. E sim, o ápice, algo novo, muito novo e muito grande na paisagem: um viaduto.

Viadutos não surgem, obviamente do nada mas eu não me lembro de tê-lo visto ser erguido, montado, de ter visto seu exoesqueleto de madeira que lhe daria a forma final. Nada. Por causa da minha indiferença à paisagem, o viaduto surgiu sem pedir licença e sujou ainda mais a paisagem já tão maltratada de Artur Alvim.

Logo a baixo, pois, para sair dos terrenos da estação, é necessário passar exatamente por baixo do viaduto, montes de lixo fora de um contêiner e as indefectíveis marcas pretas das fogueiras já feitas junto às pilastras. Mais um ponto para a degradação.
O viaduto esta lá. Não sei o que liga ao que, mas é feio, grosso, pavoroso monstro de concreto armado, esse material bastardo tão amado pelos engenheiros.

63. Museu

As palavras são os objetos
e os objetos são as palavras.
E as palavras mudam a realidade dos objetos.

Se digo ‘lume’ por ‘luz’
evoco a luz barroca
e fumos cheios de volutas.
A palavra faz seu tempo
e forja seu espaço.
Cabe-nos somente perceber.

62. Música militar

A maioria das pessoas tem um travo quando o assunto é música militar. É compreensível, porque a ligação óbvia é exército, guerra e as desgraças vindouras.

Porém, creio de mal tom excluir algumas categorias de música militar da lista de “manifestações artísticas” (certo, sei da infelicidade dessa expressão, mas é a que me vem), refiro-me prioritariamente ao Mehter Takımı, ou seja, ao conjunto da música militar otomana e ao Fifes and Drums da Nova Inglaterra.

São interessantes não somente pela música, mas também pelo como são apresentadas, com os corpos de músicos em formações de época com seus galões, chapéus tricornes, turbantes e tudo mais. Vale a pena ver. Abaixo, vídeos de ambas.

Fifes and Drums da Nova Inglaterra:

Bursa Mehter Takımı tocando Hoş Gelişler ola:

E a ainda mais clássica otomana, Ceddin Deden, com auxílio de orquestra:

61. Sorvetes, parques de diversão, montanhas e Bíblia

A curiosidade pode nos levar a lugares nunca antes imaginados; principalmente a curiosidade baseada na filologia amadora.

O caso que explico começou com um mero passeio em shopping, com um quiosque de meio de corredor. Era o quiosque de uma franquia de sorvetes chamada Tibidabo, não sei em qual shopping, mas provavelmente você já deve tê-lo visto em algum canto.

O nome ecoou na minha cabeça; já o deveria ter visto em algum lugar. Dias depois, ouvindo a Catalunya Informació, ouvi uma referência a um parque de diversões em Barcelona, com o mesmo nome, Tibidabo. A questão que, até então não me havia chamado a atenção suficientemente, ganhou mais uma informação e ficou ali, jacente ainda. Um pouco maior, mas silenciosa.

Tempos mais tarde, estive em Santos. Apesar da curta distância entre a Capital de São Paulo e seu porto, nunca havia estado propriamente em Santos; sempre nos arredores litorâneos: Praia Grande, Mongaguá, Peruíbe.

Santos me impressionou. Apesar da franca decadência e da sujeira (como o centro de São Paulo, não é?) há coisas no mínimo curiosas a serem vistas. Igrejas, o Panteão dos Andradas, o Museu do Café, o bondinho, o funicular do Monte Serrat; um bom passeio de um dia todo.

Foi em Santos, mais precisamente na Igreja do Valongo, próxima às ruínas homônimas, que, observando detalhadamente a pintura e as inscrições, deparo-me com a seguinte linha, escrita em arco: “Et tibi dabo claves regni caelorum”. Agora sim, o estalo. Fiquei olhando para a frase que, no meu latim precário, cheguei a conclusão que significava “E a ti darei as chaves do reino dos céus”.

Pelas lembranças que tinha da Basílica de São Bento, cheia de inscrições latinas em suas paredes, pensei que poderia se tratar de um versículo bíblico. Tive de ser rebocado da igreja pela minha namorada, visto que havia ainda muito passeio pela frente. Tirei algumas fotos da inscrição, mas nem era assim tão necessário: a frase instalou-se na minha mente e agora transformou a curiosidade sobre o sorvete e o parque de diversões em obsessão. Se bem que ambos os nomes têm as palavras aglutinadas e, a expressão latina é separada em dois componentes. Mas, pensei, o inusitado do nome tem algo a ver com isso.

Chegado em São Paulo, parti para a Wikipédia. Muita gente a critica porque ela é editada por muita gente e tantas coisas mais; porém, como uma direção, a considero válida. Bati o ‘Tibidabo’ na versão catalã do sítio e, para minha nova surpresa, aparece um verbete que trata sobre um acidente geográfico. U’a montanha. E no texto, a origem do nome, tirada de Mateus, 4:9: “haec omnia viderunt tibi dabo si cadens adoraveris me”, ou seja, “Dar-te-ei tudo isto se, prostrando-te diante de mim, me adorares”, segundo a tradução católica da Vulgata; ou seja não exatamente do trecho na parede da Igreja do Valongo, que é Mateus, 16:19 (“Eu te darei as chaves do Reino dos céus”, segundo a tradução católica); de fato, uma citação bíblica.

A história toda se baseia no fato de a dita montanha estar em Barcelona, ou seja, próxima ao mar, e, ostentar a invejável altura de 516,6 metros. Tenhamos em conta que os píncaros da Serra do Mar em São Paulo estão por volta de 780-800 metros, assim como a própria cidade no seu ponto mais alto, a Avenida Paulista, no auge de seus 808-810 metros (segundo as cotas pintadas num dos acessos da Estação Consolação do Metrô). De um monte alto, Satanás mostrou a Jesus Cristo o que havia na Terra e lhe disse que, se Jesus o adorasse, aquele todo seria seu.

Esse alto monte de Barcelona terminou por receber tal designação, muito possivelmente por conta dessa passagem das Escrituras.

E é assim que fui do sorvete à Bíblia, com várias escalas.

60. Instituições

Brilha solene o sol
sobre cada pedra do pavimento.
Brilha lânguida a lua
sobre cada telha e terraço.

Democracia e justiça.