Memória, esse fardo

A memória é a capacidade que mais nos é útil; é graças a ela que conseguimos ser seres humanos, conseguimos fazer valer o significado de “civilização” e de “conhecimento”. Certo é que nossa memória não é infinita; guardamos somente o mais necessário – não poucas vezes o “inútil” desloca o necessário ao ostracismo e daí, é fácil ver-se em maus lençóis. Quantas vezes não precisávamos daquela palavra numa redação escolar ou daquela maldita equação de Física na prova? É a memória que nos prega dessas peças. Ela prefere outras coisas, como, por exemplo, saber qual a escalação do terceiro jogo da seleção na Copa de 1958; e você vai lembrar disso na hora da prova.

A minha memória, como a de vocês, também tem suas veleidades e caprichos; e digo que não são poucos. Consigo guardar uma quantidade absurda de informação “inútil”, mas sou incapaz memorizar uma lista de mercado que tenha mais de três itens. Já me aconteceu de chegar à porta do mercado e ter de voltar em casa porque esqueci o que deveria ser comprado.

Por outro lado, é divertido fornecer informações inúteis e aleatórias aos meus eventuais interlocutores.

Numa de tantas tertúlias, conversando com o Orlando, falávamos sobre as tantas mudanças do padrão monetário, os cortes de zero e as mudanças do nome da moeda. Foi dessa conversa (ou de uma similar) que me lembro sempre do Orlando dizendo que determinada coisa custava “seis trilhões de guarajás-mirim”.

Falávamos sobre a atual moeda e suas cédulas e moedas; eu as criticavas por serem muito “lisas”, ou seja, sem ter muita referência histórica ou estética; muito parecidas entre si. A graça começou quando falamos das moedas. Como eu achava que era de conhecimento geral e notório que as pessoas soubessem quem estava retratado nas moedas, comecei a falar sobre os personagens históricos de cada uma. O Orlando interrompia com um “É mesmo?” a cada vulto lembrado.

– Sim, nas moedas estão retratados alguns personagens históricos…
– Não sei, não paro para ficar olhando para as moedas… elas vêm para a minha mão e vão…

Depois vi que o fenômeno era bem mais difundido do que eu pensava; as pessoas, em sua grande maioria, não sabem quem está retratado nas moedas.

– A de cinquenta centavos, prosseguiu o Orlando, é o Lênin, não é?

– O Lênin, Orlando, numa moeda brasileira…?

– Vai se saber!

– É o barão do Rio Branco…

Orlando puxa uma moeda de cinquenta centavos do bolso.

– É mesmo… mas parece o Lênin.

Quando as moedas foram emitidas, em 1998, alguém escreveu em algum lugar que o Dom Pedro I da moeda de dez centavos estava mais parecido com o Beethoven e o Barão da moeda de cinquenta, como dissera depois o Orlando, o próprio Vladimir Lênin.

Rimos bastante. Depois, fiquei filosofando: ninguém presta atenção nessas coisas; por isso tanto faz de quem nas moedas esteja, ou que as notas haja somente bichos estampados (serão as malhas do ecologicamente correto?).

E não só no caso das moedas, mas também em vários outros. Vi que eu tinha um repertório imenso de informações totalmente desconhecidas e ignoradas. Mas vivo bem com isso e, volta e meia, uma identificação ou um reconhecimento que passa despercebido à grande maioria das pessoas me faz ter um sorriso de superioridade. Afinal, eis aí uma das coisas que me faz a vida ser um pouquinho diferente.

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1 comentário

  1. Juliana

     /  02/07/2009

    A memoria também tem relação com o sentimentos e interesses. Não que você não tenha interesse em memorizar a lista do mercado, mas no seu subconsciente as moedas são mais legais (deve haver algum motivo mais obscuro para isso).
    Os sentimentos também têm relação. Uma música será mais facilmente guardada se tiver uma relação mais marcante com você: tipo a música Mô (você me entende).
    As informações que você possui não são inúteis

    Responder

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